Hugo Rodas e Marcus Mota se reúnem no musical Salomônica

A montagem é a última da trilogia dramático-musical criada pela dupla

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postado em 03/12/2017 07:30 / atualizado em 05/12/2017 14:17

Arquivo Pessoal
 
  
Criação do diretor Hugo Rodas em parceria com o dramaturgo Marcus Mota, o espetáculo Salomônicas encerra uma trilogia dramático-musical iniciada há 11 anos, com Saul (2006) e Rei David (2012). Desde a primeira montagem, ficou claro para a dupla que não seria possível escapar das convergências entre o mito bíblico e a história atual durante o processo criativo.
  
O mito do espetáculo atual fala de poder, de crimes, de enriquecimento ilícito, de sexo. As canções foram criadas originalmente para a montagem, que teve sua primeira estreia em 2016, em meio às ocupações da Universidade de Brasília (UnB), e retorna agora com mais músicas e novas definições na criação visual e crítica da história.
 

Em Salomônicas o foco não são os personagens individuais, mas o trabalho grupal. Todos os artistas são parte de um coro que narra e contextualiza a história. A atriz Zula Fornaguera trabalha pela primeira vez com a dupla e conta que o coro vai se transformando ao longo da peça. “Representamos um grupo de fanáticos de um rei que celebra tudo o que ele fala, e dança pra ele e suas propostas cegamente.
 
Um povo maleável e influenciável que olha para o lado quando convém”, destaca. O espetáculo aborda, de diferentes maneiras, problemáticas universais que se repetem na história independentemente do tempo. Entram em cena temas como corrupção, classes sociais favorecidas e desfavorecidas, chantagens, mentiras e hipocrisia.
 

Esse é o primeiro trabalho de Zula com a dupla de diretor e dramaturgo e, para ela, o aprendizado tem sido grande. “Eles nos trazem muita consciência do que significa ser artista, fazer teatro de verdade. O Hugo te desconstrói e te leva pra formas de pensar diferentes”, conta a atriz. Músicos conhecidos da cena teatral, como Janette Dornellas, Carlos Kazen, Nobu Kahi e Joana Lopes sobem ao palco para construir a trilha sonora junto aos atores.
 
Gustavo Moreno/CB/D.A Press - 4/9/14
 
 
O trabalho entre os professores e artistas Hugo Rodas e Marcus Mota é resultado de muita pesquisa, ensaios e experimentação, que deram vida a outros espetáculos além da trilogia: Lola (2002), As partes todas de um benefício (2003), Salada para três (2003), No Muro — Ópera hip-hop (2009) e Sete Contra Tebas (2013). A união de talentos importantes para a cena da cidade busca divertir, esclarecer e gerar catarse em diálogo com o público. “É fim de ano, de um ano que continua o ano de 2016, o ano que não terminou ainda, e que se projeta no impensado e confuso ano de 2018. Parece que o tempo parou e que vivemos uma história sem fim, uma viagem para lugar nenhum. É o tempo de Salomônicas”, lembra Mota.

No musical são contadas duas histórias: a de ontem e a de hoje. Tudo parece como antes. Em cena, os artistas começam no passado, no mito, e percebem que a desgraça que o mito conta é reinterpretada pelas figuras atuais. Salomão, por exemplo, é Temerão. “Na verdade, não contamos nada: cantamos. O centro da cena é o coro, a cidade, que alterna entre integrantes da elite em volta das bobagens de Salomão e o povo oprimido”, destaca o dramaturgo. O espetáculo se diferencia das montagens anteriores da dupla e seu processo criativo parte das canções. A partir das músicas ensaiadas, outros elementos foram introduzidos: textos, ordem das cenas, objetos, figurinos.

Marcus conta que as canções inicialmente eram uma justaposição entre elementos árabes e ritmos do nordeste, para aclimatar o clima do Oriente no Brasil. Depois, foram introduzidos ritmos diferentes, como rap e rock. “A diversidade das canções torna cada episódio único e suficiente em si mesmo. É como se fosse uma revista, uma revisão dos acontecimentos recentes”.

O rei Salomão

O rei Salomão foi conhecido por ser sábio, fazer reformas urbanísticas e ter um harém. Para Marcus Mota, que criou o texto do espetáculo, este fabuloso reino se aproxima de vários fatos que hoje vemos na sociedade atual: a herança das obras superfaturadas, principalmente aquelas para a Copa do Mundo, as espertezas em se alterar as leis o tempo inteiro para que se legitimem ações de interesse de alguns grupos e indivíduos, e as benesses do poder, como propriedades e sexo. “Sem citações óbvias, o espetáculo articula as duas tramas: a do mito e a do grito; a da Bíblia e a do horror de nosso cotidiano”, afirma o professor.

Mota sintetiza de maneira clara os diálogos que partem do espetáculo: “Essa cultura do espetáculo em torno dos atos irresponsáveis e corruptos acaba por ser ambígua: os corruptos são denunciados, execrados, ridicularizados, mas saem impunes, por meio do próprio sistema que os protege. Esse encastelamento cheira a uma redoma, a um tempo absurdo, de fadas, uma baboseira que merece ser indicada e criticada”. As possibilidades do teatro entram em combustão no trabalho que surge a partir da parceria e mostra que, através da criação cênica, é possível reviver histórias, criar reflexão e mostrar abertamente os problemas atuais.


Musical Salomônicas
Com direção de Hugo Rodas, dia 30/11, na Cervejaria Criolina, às 20h30 e dia 04/12, no Departamento de Artes Cênicas da UnB (sala BSS 51), às 19h30 e às 21h. A entrada é franca e a classificação indicativa é de 14 anos.
 
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