Ceilândia se une por retorno de atividades no Centro Cultural da cidade

Moradores e artistas se mobilizam para pedir conclusão de obras e o retorno de atividades artísticas no Centro Cultural da cidade, hoje ocupado por outros projetos

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Carlos Vieira/CB/D.A Press

 
Ceilândia respira cultura. Do cinema de Adirley Queirós ao rap de Japão, dos passos de dança do B.Boy Papel aos versos dos cantadores e poetas populares, a cidade vive e exporta arte para o país e para o mundo. O estigma e o medo da violência são lembranças constantes quando se fala da região administrativa mais populosa do DF, mas a riqueza da cultura da região também é forte e resiste, a despeito da pequena quantidade de iniciativas e de projetos realizados pelo poder público.

Com mais de 479 mil habitantes — segundo dados da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) —, Ceilândia sofre, principalmente quando o assunto é cultura, com a falta de espaços públicos voltados para a arte e é refém de ações quase sempre particulares ou em outras áreas do Distrito Federal.

No papel, a região tem um Centro Cultural e Desportivo. Localizado a poucos metros da estação do metrô Ceilândia Norte, o espaço, no entanto, tem pouco ou quase nada relacionado com arte, segundo moradores e artistas da região que reclamam que o projeto foi desvirtuado.

Praticamente escondido atrás da estrutura do metrô, o espaço é ocupado atualmente por órgãos como o Conselho Tutelar e a Secretaria de Estado da Criança (Secriança), e também é usado para cursos profissionalizantes. Aulas de dança e de karatê, organizadas pela iniciativa dos próprios artistas e moradores, são algumas das atividades ainda voltadas para cultura e o esporte no local.

"Se não houvesse a nossa iniciativa, essas ocupações feitas justamente para isso, não haveria mais nada de cultura por aqui. Usamos uma sala, a mesma, para a cultura e o esporte”, conta Severino da Silva, organizador do projeto Sou da paz, não curto violência.

A Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude (Secriança) argumenta que o espaço estava desocupado e que os projetos existentes no local são relacionados à cultura. “O Centro de Juventude de Ceilândia promove cursos profissionalizantes, palestras, oficinas culturais e esportivas para toda a juventude local. Hoje, já estão em funcionamento as oficinas de dança, Muay Thai, violão, gastronomia sustentável e artesanato, cursos profissionalizantes, sala de estudo e aulas de informática”, afirma nota da pasta.

Segundo o administrador de Ceilândia, Vilson de Oliveira, o Centro Cultural estava praticamente abandonado antes da ocupação atual. De acordo com ele, a administração fez uma pequena reforma para dar condições melhores ao espaço e cedeu salas para as entidades. “A princípio, seria temporário, mas, como eles foram ampliando cursos e a demanda aumentou, nós fizemos uma portaria conjunta para formalizar”, afirma o administrador, que garante ter ouvido a comunidade e movimentos culturais no processo.

Retomada

Motivados pela carência da região e pela vontade de ver o Centro Cultural e Desportivo utilizado para o que foi criado, diversos moradores e movimentos sociais da região se uniram para reivindicar que as obras do projeto inicial sejam retomadas e que atividades culturais voltem a ocorrer. Na visão deles, não houve, ao contrário do que dizem os órgãos, diálogo e a cultura foi deixada de lado no Centro.

De fato, muito pouco do projeto inicial saiu do papel. O Centro Cultural e Desportivo de Ceilândia surgiu da reivindicação de estudantes e artistas que, na década de 1980, lutavam por espaço. Eles conseguiram, em diálogo com o governo, dar início às obras, paralisadas pouco tempo depois por problemas jurídicos.

Os moradores e grupos sociais se uniram em torno do Retomada, movimento que, na década de 1990, foi responsável por lutar pela conclusão dos primeiros blocos do prédio. A ideia é conquistar recursos para concluir a obra. “Esse movimento é um abraço de várias pessoas pela importância de um equipamento cultural na cidade”, explica Luciene Velez, mais conhecida como Nina, uma das fundadoras do Retomada.

No projeto original, estavam previstos quatro blocos (com biblioteca, salas para cursos, cine-teatro e teatro arena), além de um ginásio esportivo (substituído depois pela Praça da Juventude). Apenas dois blocos foram construídos (com a biblioteca e as salas). Os teatros nunca saíram do papel.

A construção da Praça da Juventude chegou a ser iniciada, mas foi embargada por problemas e atrasos da empresa responsável pela construção. Atualmente, o local é um canteiro de obras abandonado. Segundo a Secretaria de  Infraestrutura e Serviços Públicos (Sinesp), o processo está em análise no departamento jurídico da pasta para contratação da segunda colocada na licitação.

Direito

"A nossa maior indignação é que esse pedido é um direito nosso. Nós já temos o projeto, temos a cultura local, precisamos deste espaço para a nossa cidade. Enquanto isso projetos em outras regiões são executados muito mais rapidamente”, reivindica Max Maciel, um dos líderes do movimento Ruas (Rede Urbana de Ações Socioculturais) que também se ligou ao Retomada.

A fala de Max é uma constante entre os moradores e artistas que pedem a volta do espaço e a conclusão das obras. Para eles, é um direito da população ter um espaço próprio para que a cultura local possa reverberar.

O músico Jeremy Adriano, de 22 anos, é um dos mais jovens participantes do movimento e reclama da dificuldade de encontrar espaços para a cultura na cidade. “Tudo o que vamos fazer esbarra na burocracia. Você precisa de uma série de documentos para fazer um evento como um sarau e, se não seguir, corre o risco de ter problemas. Precisamos de um espaço que seja voltado para a própria cultura”, sustenta.

“A cidade tem muitos projetos, muitas ações e atividades para a cultura, mas não temos um local público para eles. É um direito nosso e nós merecemos também ter isso”, pede Nilson Lopes, um dos organizadores do movimento Boa Vizinhança, que promove cultura e lazer no P Norte.

Na tentativa de tornar a ideia realidade, o movimento realiza atualmente diversas atividades, como reuniões, abaixo-assinado (virtual e físico) e mobilização para a inclusão do projeto, pela Câmara Legislativa, na Lei Orçamental Anual do Distrito Federal. A estimativa é de que o custo das obras esteja em torno de R$ 12 milhões.

Outra cara

A cultura, acreditam os moradores e militantes, é uma das únicas maneiras de revelar um outro lado de Ceilândia. “É o modo que temos de mostrar outra cara, de provar que a gente tem e faz muito coisa boa por aqui”, acredita a professora Vilma Cavalcante.

Vilma destaca também o potencial educativo do Centro de Cultura. O trabalho artístico de alunos da cidade poderia ser exibido no local. “Temos muitos projetos bonitos feitos aqui, mas não temos um espaço para mostrá-los, além das atividades que poderiam ser feitas.”

Outro fundador do Retomada nos anos 1990, Ailton Velez reafirma a força da cultura local e o potencial da cidade. “Ceilândia era uma cidade-dormitório que mudou por si só e que tem um potencial artístico e humano muito grande.” Para ele, a arte é a única opção para mostrar o lado positivo da região. “O Brasil inteiro conhece Ceilândia pela violência, mas também pela cultura.”

R$ 12 milhões 
Custo estimado pelo movimento Retomada para conclusão da obra do Centro Cultural



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