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Estado de Minas

Proibidão? O que o veto do Spotify ao funk 'Surubinha de leve' revela

Especialistas opinam ao Estado de Minas sobre a letra e a exclusão da música de MC Diguinho, vista como apologia ao estupro


postado em 28/01/2018 17:23

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)

“Taca a bebida, depois taca a pica e abandona na rua.” Com esses versos, o carioca MC Diguinho conseguiu chegar ao topo do ranking das músicas brasileiras mais ouvidas do ano nas plataformas digitais e também mobilizar as redes sociais em protesto contra ele. O funk Só surubinha de leve havia sido gravado em 2017, mas veio à tona na última semana.

Acusada de apologia ao estupro, a música foi alvo de diversas manifestações de indignação por parte das mulheres e acabou excluída do YouTube e do Spotify, onde somava mais de 15 milhões de execuções. Se a canção reforça a chamada “cultura do estupro” e banaliza a violência contra as mulheres, o fato levantou também discussões sobre o preconceito que cerca um dos ritmos mais populares do país e a legitimidade do veto a uma música.

O novo hit não é o primeiro caso de uma letra ofensiva às mulheres no funk. Na verdade, esse tipo de conteúdo não está ausente de outros estilos da música nacional, em diversas épocas. Mas com o ritmo das favelas cariocas a repercussão costuma ser maior. A Secretaria Nacional de Política Para Mulheres emitiu uma nota repudiando as músicas Só surubinha de leve e Vai faz a fila, de MC Denny, e pedindo apuração do Ministério Público.

No ano passado, uma sugestão legislativa com objetivo de criminalizar o funk, enquadrando-o como risco à saúde pública de crianças e adolescentes, recolheu mais de 20 mil assinaturas e foi encaminhada ao Senado, como projeto de lei. De autoria de um empresário paulista, a proposta foi negada em setembro pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa.

DESCULPA 


Um dos protestos mais chamativos contra Só surubinha de leve foi da estudante paraibana Yasmin Formiga. Ela publicou no Facebook uma foto sua com uma maquiagem que simulava várias marcas de agressão no rosto e segurava um cartaz com a letra da música, acompanhada da seguinte legenda: “Sua música ajuda que as raízes da cultura do estupro se estendam. Sua música aumenta a misoginia. Sua música aumenta os dados de feminicídio. Sua música machuca um ser humano. Sua música gera um trauma. Sua música gera a próxima desculpa. Sua música tira mais uma. Sua música é baixa ao ponto de me tornar um objeto despejado na rua”. A postagem teve mais de 120 mil compartilhamentos no site. Na onda de protestos, muitos internautas também atacaram o funk de forma geral.

MC Diguinho se defendeu das acusações dizendo que a letra foi mal interpretada. “Não esperava isso que está acontecendo, essa repercussão, porque até então fiz a música para soltar na comunidade. Aí teve essa repercussão, todo mundo pensando de um jeito, cada um tendo uma interpretação. Jamais fiz uma música para agredir as mulheres”, declarou o cantor em entrevista ao programa TV fama, da Rede TV. Ele ainda disse: “A minha mãe me deu educação e jamais faria isso com uma mulher, até porque lá em casa eu lido com quatro mulheres”.

Depois das críticas e da retirada da versão original das plataformas digitais, o funkeiro lançou uma nova versão, mais amena e sem palavrões: “Só uma surubinha de leve/ Com essas mina maluca /Taca a bebida / Depois taca e fica / Mas não abandona na rua”.

Especialista em funk, o musicólogo Carlos Palombini, professor da UFMG, observa o episódio envolvendo a música de MC Diguinho com preocupação. “Não ocorreria a ninguém fazer campanha contra o Noel Rosa de versos como ‘mulher indigesta, merece um tijolo na testa’ ou ‘o maior castigo que te dou é não te bater pois sei que gostas de apanhar’. O funk é o único gênero no qual essas problematizações são levadas às últimas consequências: o sepultamento de artistas. Isso porque os grupos que o praticam são considerados criminosos a priori. E criminosos são seres que produzem crimes, não arte”, afirma o pesquisador, fundador do site proibidão.org.

Palombini observa que a sexualidade é tratada nas manifestações artísticas há séculos e argumenta que, mesmo letras problemáticas, como a de Só surubinha de leve, possibilitam um debate acerca do contexto que retratam. “Não é melhor que esse imaginário encontre expressão artística e possa ser debatido nesse plano e não no plano das entidades sub-reptícias ou dos fatos consumados?”, questiona o professor.

DESIGUALDADE 


Paralelamente às letras de teor machista de parte do funk, muitas artistas soltam a voz em rimas que defendem a igualdade de gênero, o respeito e a força das mulheres. Natural de Ribeirão das Neves, a rapper Tamara Franklin vem se destacando na cena local com letras que valorizam a mulher negra. Para ela, versos como os de MC Diguinho, além de não serem exclusividade do funk, são reflexos de uma estrutura social de preconceitos e desigualdade.

“A gente ouve diversas músicas com conteúdo de violência contra a mulher. Em outros ritmos isso às vezes é mais implícito do que no funk. Ou, se não está explícito na letra, está nas imagens do videoclipe. Mas essas músicas são reflexos de uma estrutura. Colocamos a problematização em cima de uma letra. É muito necessário que isso seja feito. Mas muitas vezes o artista está num jugo de ignorância muito grande. É um tema que estamos tentando discutir muito, mas nem sempre as pessoas são receptivas”, diz Tamara.

“Falo por mim mesma. Quando comecei a fazer rap, falava numa letra que a moral da mina era tão curta quanto o short. E foi um processo de refletir, discutir ideias, até eu perceber que não era uma letra legal de cantar, que reproduzia machismo”, conta.

Tamara, que se prepara para lançar o clipe da música Vem e vê, cuja letra aborda a luta racial, acha que a censura à letra, por mais ofensiva que possa ser, não é a solução. “Sinceramente, quando ouço a letra de Só surubinha de leve me sinto muito agredida. E sei que ela deve soar mais agressiva para mulheres que já sofreram esse tipo de abuso, e não são poucas no nosso país. Eu mesma já fui vítima desse tipo de violência, mas o que vale é a discussão. Não adianta fechar os olhos para essa realidade. Não adianta tirar a música do ar se a gente não se dispõe a tirar do nosso cotidiano essa realidade.”

Desde julho de 2017, o Observatório do Funk se dedica a fomentar o debate sobre a criminalização do funk em BH. Integrante do grupo, a advogada Maíra Neiva Gomes afirma que os protestos contra a música de MC Diguinho colaboram para o processo de criminalização do funk. “Muitas feministas interpretaram a letra de forma literal. Entenderam que ela tinha conteúdo machista e entenderam como se fosse crime. Penso que criminalizar a arte não é solução e me assustou isso ter vindo de feministas de movimentos de esquerda. Vi muita gente propondo o direito penal como solução para problema social e isso não é solução. O encarceramento em massa dos negros é justamente um problema que temos. Foi uma discussão rasa. Ninguém aprofundou, e o resultado é que a expressão cultural do artista da favela é considerada como algo selvagem”, avalia.

Maíra considera que o amplo diálogo sobre essa questão seja a solução capaz de conciliar a luta pelos direitos das mulheres, sem reproduzir preconceitos contra o funk. “Não estamos falando que não existe machismo e violência contra a mulher na favela e no funk. Existe. Tanto que as meninas do funk e do rap sempre cobram mais participação de shows porque entendemos que é uma forma de realizar um diálogo social com os jovens de forma consciente. É uma coisa que as meninas já fazem. Existem muitas letras que respondem ao discurso machista. O funk com temática sexual começou com mulheres, com a Deize Tigrona, depois com a Tati Quebra Barraco”, diz a advogada.

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