Publicidade

Estado de Minas

Das marchinhas ao axé, confira a playlist clássica do carnaval

Ao longo dos anos, alguns hits acabaram fazendo parte da tradição do carnaval brasileiro


postado em 04/02/2018 07:30 / atualizado em 08/02/2018 18:48

(foto: Caio Gomez)
(foto: Caio Gomez)
 
 
Desde a importação da festa veneziana até seu abrasileiramento com as escolas de samba, cordões e bloquinhos de rua que conhecemos hoje, muitos elementos acompanharam a evolução do carnaval brasileiro. Um deles é a música. As marchinhas de carnaval, os sambas-enredos, axés e frevos revelam muito sobre a identidade do carnaval brasileiro, exportado mundo afora como a maior festa do país. Tudo começou com o pioneirismo de Chiquinha Gonzaga e sua Ô abre alas, hit das festas de carnaval do século 19 que até hoje continua no repertório das manifestações de rua e bailinhos.
 
 
As marchinhas sempre tiveram um conteúdo meio burlesco e refletiam o contexto social e político no qual foram criadas, mas estão na mira desde o carnaval de 2017. Muitas delas foram consideradas racistas e machistas e acabaram excluídas dos repertórios. As marchinhas foram o início de tudo, mas o perfil da música de carnaval sempre variou de acordo com as regiões e o momento cultural brasileiro. Nos anos 1930, um samba de Noel Rosa ocupou o posto de hit. A marcha Vassourinhas foi composta em 1909, mas nunca deixou de ser símbolo do carnaval de Pernambuco e da Bahia. Caetano Veloso estava preso quando Atrás do trio elétrico se tornou a música do carnaval de 1969. Mais tarde, Chuva, suor e cerveja, também de Caetano, ocuparia o primeiro lugar no carnaval de 1972, depois de ser gravado por Gal Costa.

No início da década de 1990, todo mundo dançou ao som de O canto da cidade, de Daniela Mercury, confirmando que aquela seria a era do axé. Em 2002, foi a vez de Ivete Sangalo incendiar o carnaval com a A festa. Quase duas décadas antes, em 1985, Luiz Caldas inaugurou o axé no carnaval baiano com Fricote, hoje considerada extremamente preconceituosa. 

Clássicos do carnaval


Todos esses ritmos ajudam a construir a identidade do carnaval brasileiro e, passa ano entra ano, não morrem. “Os blocos tradicionais ainda buscam trabalhar a marchinha, o frevo e aí por diante”, diz Jorge Simas, presidente da Liga dos blocos, que defende o espaço dos blocos como um lugar de preservação da tradição musical do carnaval.

Antes dos anos 1980, existia a música de meio de ano, as mais lentas, e as de fim de ano, mais animadas e sempre voltadas para o carnaval. Segundo Alexi Alves, pesquisador de história da música popular na Universidade de Brasília (UnB), as músicas carnavalescas eram lançadas por volta de dezembro. “Em 1985, o axé music surgiu como uma música festiva e, a partir de 1990 com Daniela Mercury, Margareth Menezes e outros nomes que traziam o ritmo, o carnaval baiano se tornou uma grande festividade nacional”, explica Alves. 

Para Marilda Santanna, autora de As donas do canto: o sucesso das estrelas-intérpretes no carnaval de Salvador, o samba reggae, o pagode baiano e o axé music extrapolam a sazonalidade carnavalesca e explodem em todos os lugares e épocas. “O carnaval baiano é um dos elementos que exportou nossa cultura para o Brasil e para o mundo”, revela.

 O carnaval nordestino é associado ao axé music ou ao frevo pernambucano porque foram movimentos fortes que deram certo e, de certa maneira, consagraram o cenário, mas as sonoridades passeiam por muitos instrumentos e batuques. O Diversão&Arte conversou com pesquisadores e compositores para que elencassem músicas que carregam essa identidade ao longo de mais de um século de carnaval. Veja o resultado.

*Estagiária sob supervisão de Igor Silveira




História (MUSICAL) da folia

Ô abre alas, de Chiquinha Gonzaga
Composta por Chiquinha Gonzaga em 1899, a marchinha é o primeiro registro de uma canção de carnaval no Brasil. Os bailes carnavalescos da época eram animados por músicas europeias e, nas ruas, se ouvia muita percussão. Chiquinha Gonzaga introduz a canção no carnaval brasileiro. “Ô abre alas nunca teve uma partitura impressa ou gravação fonográfica. Ela atravessou o tempo na memória do povo e continua sendo a marchinha de carnaval mais importante e simbólica da história”, declara Edinha Diniz, autora da biografia Chiquinha Gonzaga: uma história de vida.



Com que roupa?, de Noel Rosa
Segundo o pesquisador Alexi Alves, o carnaval foi o primeiro momento de legitimação do sucesso de cantores no país. Com o início da indústria fonográfica brasileira no século 20, o controle de audiência de uma música para lançamento de discos por gravadoras era o carnaval. Em 1930, a música Com que roupa?, de Noel Rosa, estourou nas rádios e marcou um novo ciclo da folia com o carnaval radiofônico. Eram os primeiros indícios de que a festa seria, dali em diante, pautada pelos meios de comunicação.



Eu agora sou feliz, de Jamelão e Mestre Gato
Para o músico e compositor Nei Lopes, a antiga cultura das marchinhas de carnaval não existe mais. “A música de carnaval já teve importância na construção da identidade carnavalesca porque ela era divulgada meses antes da festa, em escala nacional. Hoje, ela se restringe aos três dias, e só. Essa identidade foi pro brejo. Tanto que até no Sambódromo carioca, a programação dos camarotes vai, na contramão do samba, só com os “sucessos” impostos pela indústria”, desabafa. Nei Lopes fez questão de resgatar os antigos sambas cariocas tradicionais no carnaval. A música Eu agora sou feliz, de Jamelão e Mestre Gato, foi lançada em 1963 e se eternizou fora dos circuitos carnavalescos. O cantor Luiz Melodia gravou a marchinha com novos arranjos e se tornou um clássico da música popular brasileira.



O canto da cidade, de Daniela Mercury e Tote Gira
A festa, de Ivete Sangalo e Anderson Cunha
Já na região nordeste, a festividade possui particularidades. “O carnaval permitiu a afinidade musical entre o frevo baiano e o de pernambuco desde que trouxeram o frevo Vassourinha para a Bahia e foi o pontapé para adotarmos essa cultura”, acredita Marilda Santanna, autora de As donas do canto. Hoje, o Nordeste exporta a cultura carnavalesca o ano inteiro para todo o país. “Músicas como as de Daniela Mercury e Ivete Sangalo transformaram uma festa que era sazonal em permanente”, revela Marilda. “O canto da cidade não pode ficar de fora. Foi um grande marco para o nosso carnaval.”



Faraó, de Luciano Gomes
A música Faraó, quando gravada por Margareth Menezes em 1987, explodiu em muitos lugares e é um grande exemplo da exportação do carnaval baiano para o Brasil. Na época, Margareth Menezes se projetou nacionalmente como uma grande cantora e a música entrou para sempre no repertório dos carnavais país afora.



Vassourinhas, de Matias da Rocha e Joana Batista Ramos
O frevo pernambucano é uma das maiores referências de carnaval. A música sem letra remete à folia em qualquer lugar do país e do exterior. Foi composta por Matias da Rocha e Joana Batista e se tornou um hino atemporal do carnaval pernambucano, nordestino e brasileiro, como destaca Marilda Santanna ao eleger a canção como um dos marcos da folia nacional. Teria sido composta para ser a marcha do Clube Vassourinhas, agremiação carnavalesca do Recife fundada em 1889.
 

Atrás do trio elétrico, de Caetano Veloso
Caetano Veloso estava preso no Rio quando a música estourou no carnaval de 1970. Ele e Gilberto Gil foram levados pelos militares e acusados de subversivos depois de um episódio com a bandeira brasileira durante um show. Caetano e Gil foram soltos na quarta-feira de cinzas, logo após o carnaval, em fevereiro. Atrás do trio elétrico é uma das primeiras músicas a mencionar o trio elétrico, que, mais tarde, se tornaria o símbolo do carnaval de Salvador. “Além de ser uma obra-prima, essa música é Caetano com todos os sentidos abrangentes e coloca historicamente a importância do trio elétrico, que já apontava para o som elétrico da Bahia”, lembra Jorge Mautner, que considera a canção uma das mais importantes da história do carnaval no Brasil.
 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade