Publicidade

Estado de Minas

Copacabana e samba-canção são temas de livro de Zuza Homem de Mello

Musicólogo conta a história do bairro e do gênero em novo livro


postado em 13/02/2018 07:30

Livro de Zuza Homem de Mello conta história do bairro mais boêmio do Rio de Janeiro(foto: Divulgação/Editora 34)
Livro de Zuza Homem de Mello conta história do bairro mais boêmio do Rio de Janeiro (foto: Divulgação/Editora 34)

 

Houve uma época na qual o Rio de Janeiro era o sonho de verão de qualquer brasileiro, especialmente dos paulistanos, vizinhos meio provincianos e com estilo de vida um tanto diferente da informalidade da boemia. Naquele tempo, o então estudante Zuza Homem de Mello não deixava escapar um carnaval no Rio. Chegava janeiro, ele embarcava com um primo em um ônibus que saía do centro de São Paulo em direção a Copacabana. Sim, porque também era uma época em que o bairro tinha vida própria e muitos turistas nem se davam ao trabalho de visitar o centro da cidade.

Naqueles dias, meados dos anos 1940, nascia um dos gêneros mais importantes da música popular brasileira. Filho das boates nas quais a elite carioca se aglomerava para ver e ouvir as vozes que faziam sucesso no rádio, com um andamento mais lento e apropriado para o ambiente intimista dos inferninhos, o samba-canção é quase um apêndice da história do bairro. É essa mistura entre um gênero musical e um estilo de vida que o escritor Zuza Homem de Mello conta em Copacabana A trajetória do samba-canção, livro escrito ao longo dos últimos 13 anos e nascido de uma lista de músicas.

O autor dá início ao livro com um saboroso capítulo cheio de referências autobiográficas. Paulistano, Zuza, hoje com 84 anos, descreve o estilo de vida carioca a partir de seu ponto de vista estrangeiro e faz comparações inevitáveis com a São Paulo da época. É uma excelente introdução para um livro que pretende mergulhar na alma do Rio de Janeiro.

“Os cariocas não iam admitir que um paulista viesse se meter a gostoso e escrever um livro sobre uma música que é deles e falar sobre Copacabana, a vida dos cariocas e tal. Achei que precisava me proteger”, conta Zuza. “Por isso fiz o primeiro capítulo com o personagem que naturalmente sou eu mesmo: um paulistano que vai para o Rio passar as férias de verão. Queira contar as diferenças entre Rio e São Paulo, porque ali eu não só me protegia como dava a entender a grande distância que havia entre as duas cidades.”

Copacabana trata do samba-canção, mas vai além, ao contar a história do bairro desde sua criação como uma atração turística, em 1920, até se tornar um símbolo da vida moderna, quando os modos de relacionamento dos habitantes entre si e com a cidade definiram novos padrões de comportamento. Foi 20 anos depois de ser reconhecida como bairro que a princesinha do mar começou a ocupar lugar de estrela na história do Rio de Janeiro. O boom imobiliário do pós-guerra inaugurou um novo estilo de vida com prédios e apartamentos que substituíram as casas e palacetes. Além disso, o fechamento dos cassinos após a proibição dos jogos de azar em consequência de um decreto do então presidente Eurico Gaspar Dutra, em 1946, deixou órfã uma legião de artistas e espectadores habituados aos shows espalhafatosos do teatro de revista. Foi nas boates que coalharam na Nossa Senhora de Copacabana que essa turma encontrou abrigo. Para o ambiente intimista, era preciso uma música mais aconchegante e propícia para dançar a dois.

Um mundo se abriu a partir das boates e do samba-canção. “O público que frequentava essas boates era formado de uma combinação diferente, com grã-finos, jornalistas famosos, cantores e artistas de rádio e pessoas da intelectualidade e da política brasileira, uma vez que o Rio era a capital federal”, conta Zuza. “Originalmente, principalmente os grã-finos, só gostavam de música americana. Com a chegada de duas cantoras, Linda Batista e Aracy de Almeida, à boate Vogue, eles começam a se interessar pela MPB. E justamente as duas foram cantoras de samba-canção.”

Há capítulos memoráveis sobre a flora e a fauna de Copacabana ao longo das décadas em que o bairro floresceu, antes de entrar em decadência nos anos 1990. Zuza se limita a ir até o que chama de “plataforma da modernidade”.

“Que é o samba-canção através da obra de compositores que se destacaram pelo avanço na área musical sofisticadando, sobretudo, nas harmonias e mellodias. O samba-canção tem duas características marcantes. Uma é essa e a outra é a temática das letras, sempre sobre as relações amorosas e, mais especificamente, o fim das relações amorosas. Ou seja, é a música dos perdedores, dos caras que se encontram na iminência de separarem ou já separados, perdidos depois de um amor que fracassou”, explica.

Um tema constante no livro é o carnaval, já que uma boa quantidade das músicas citadas eram lançadas durante a festa e entravam para um repertório até hoje reproduzido depois de serem repetidas exaustivamente pelos foliões. Era um carnaval de rua que Zuza acredita estar renascendo nos últimos anos. “Fico enormemente feliz com os blocos de rua no Rio e em São Paulo, principalmente, porque o carnaval é uma festa de rua, popular, de participação em que as pessoas se despem das suas formalidades do ano para soltar a franga”, diz. É um renascimento que, para o escritor, contrasta com o declínio das escolas de samba. “Durante alguns anos, o carnaval ficou concentrado no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e as pessoas se esqueciam que o carnaval não era um show. Os desfiles passaram a ser um show e não havia participação. E com o retorno dos blocos, o carnaval voltou a ser uma festa popular”, acredita o escritor.


Copacabana — A trajetória do samba-canção

De Zuza Homem de Mello. Editora 34, 514 páginas. R$ 82


TRÊS PERGUNTAS/ Zuza Homem de Mello


Qual a importância de muitas dessas músicas que você cita no livro para a identidade do carnaval brasileiro?

Na minha cabeça, a trilha sonora do carnaval brasileiro dessa época não era samba-enredo, eram as marchinhas de carnaval, que era o que acontecia não só na rua, mas nos bailes de carnaval. Em quase todo o Brasil se cantava Aurora. Até mesmo em Recife, onde o carnaval era já muito forte com as músicas e os frevos carnavalescos. Ninguém cantava samba-enredo em baile de carnaval. E os desfiles eram completamente diferentes. Haviam os blocos carnavalescos, o Cordão do Bola Preta etc, mas com manifestações bem cariocas. As de cunho nacional eram as marchinhas. Até meus netos sabem essas marchinhas. Como eles aprenderam? Eu não sei, mas eles sabem — é inacreditável porque eles não têm a menor noção do que era a música brasileira dos anos 1930 e 1940. Isso demonstra o cunho nacional e a importância desse gênero, que era dominador no carnaval da época.

 

História do samba-canção também é tema do livro(foto: Marcos Gorgatti/Divulgação)
História do samba-canção também é tema do livro (foto: Marcos Gorgatti/Divulgação)
 


Por que você diz que os desfiles de escolas de samba estão em decadência?

Os desfiles não são mais carnaval. Aquilo não é carnaval, aquilo é um show que acontece na época do carnaval. A prova de que os desfiles estão em decadência é que ninguém, mas ninguém mesmo, se lembra das músicas que aconteceram nos desfiles anteriores. Ora, a música é o essencial do carnaval. A música é a alma do carnaval. Se não houver música, não tem carnaval. Como é possível considerar como sendo essencial no carnaval ou parte importante do carnaval algo que não tem música? Você dirá que tem os sambas-enredos. Tem, mas eles não permanecem. Termina o desfile de uma escola de samba, entrar a seguinte e pronto, você não lembra mais do que passou. Demorou meia hora na sua lembrança. Os sambas-enredo hoje em dia não representam mais música de carnaval.


O que acha das marchinhas banidas dos repertórios, do politicamente correto?

Ridículo. Você não pode encarar a época de 2017, que foi quando aconteceu isso, com o olhar dos anos 1930, 1940. Quando você fala “a cor não pega” daquela música da mulata, aquilo é uma expressão daquela época. Você tem que entender que época era aquela. Naquela época, era perfeitamente admissível. Fazia parte do contexto. Você não pode zerar esse contexto tentando proibir ou achar que aquilo não é de bom tom. Não é assim. Veja ao contrário. Você poderia admitir que palavrões pudessem fazer parte da música popular dos anos 1930, 1940? Alguém alguma vez falou em foda ou cu na música dos anos 1930? Ninguém. Isso não existia. Porque era uma outra época. Hoje é normal porque faz parte da linguagem de hoje. São outros tempos.



CURIOSIDADES


CINEMAS

“Ir a pé a qualquer dos mais de dez cinemas de Copacabana era outra novidade não habitual em São Paulo, exceto para quem morasse no centro da cidade. Um cineminha à tarde era o programa ideal para qualquer dia das férias em Copacabana. Bastava abrir o jornal e apontar o dedo para o filme desejado. Caminhava-se uns poucos minutos para estar diante do palácio de magia vivida na escuridão. (...) Copacabana consagrou o cinema de bairro no Rio e, pode-se dizer, no Brasil. (...)”


POPULAÇÃO

O bairro crescia, a população beirava 20 mil moradores em 1910, época em que, a exemplo do que ocorreria na praia Grande de Santos, a praia de Copacabana era tão deserta que suas areias serviam até como campo de pouso para aviões de acrobacia aérea de asa dupla. Com seus quatro quilômetros de praia, 45 ruas e dois túneis, Copacabana determinava em 1917 a moda dos banhos de mar de caráter terapêutico, sob regras disciplinares inconcebíveis nos dias de hoje, em que o fio dental é tão corriqueiro que nem as polposas nádegas que o embuçam são notadas.”


CALÇADÃO

“Como foi dito, por iniciativa do prefeito Pereira Passos é que nasceu, em 1906, a primeira calçada de Copacabana em curvas pretas e brancas que, mais até que as do Rossio, iriam projetar sua referência visual. Dispostas perpendicularmente ao sentido da praia, tiveram que ser refeitas após uma grande ressaca ao final da década de 1920, mas já com pedras extraídas de uma jazida descoberta no Rio de Janeiro.”


COPACABANA PALACE

“Sua construção foi decidida pelo presidente da República, Epitácio Pessoa, com o objetivo de dar projeção internacional ao país durante as comemorações do Centenário da Independência do Brasil, em 1922.(...) Convidou o fidalgo empresário Octavio Guinle, pertencente à família mais rica do país, apaixonado por hotelaria e arrendatário do Hotel Esplanada em São Paulo, para o sonhado empreendimento: um hotel na praia que deixasse de queixo caído quem viesse ao Brasil. (...) Um hotel brasileiro para rivalizar com o Carlton de Cannes, na Riviera Francesa. No mínimo.”



APARTAMENTOS

“A população se esticava para mais de 70 mil habitantes nos anos 1940 quando Copacabana foi pioneira do modelo do miniapartamento: uma só peça que atendia perfeitamente às atividades tanto de dia como de noite. Mais que rapidamente foi apelidado pelos cariocas de apartamento tipo JK, isto é Janela e Kitchenette. Nenhuma alusão aqui ao nome do futuro presidente da República.”




Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade