Setor de serviços no país cresce 0,7% em fevereiro

Para o Planalto, recessão ficou para trás; analistas, porém, dizem que é cedo para comemorar

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postado em 14/04/2017 06:00 / atualizado em 13/04/2017 23:20

A tímida reação ensaiada pela atividade econômica está animando o governo. Indicadores oficiais de vendas no comércio, volume de serviços e produção industrial — todos medidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — apresentaram sinais positivos em fevereiro. A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgada ontem, mostrou um crescimento de 0,7% em relação a janeiro. Foi a quarta alta mensal consecutiva, situação que não ocorria desde o período de março a junho de 2012.


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E não é apenas o setor de serviços que apresenta melhora. No acumulado do primeiro bimestre, as vendas no varejo subiram em três segmentos, situação que não se observava desde 2014. A produção industrial também deu sinais de reação, sobretudo a de bens de capital, que aumentou 6,5% em fevereiro na comparação com janeiro. Foi o melhor resultado nessa base de comparação desde janeiro do ano passado. Quando comparado ao mesmo período de 2016, o avanço foi de 2,9% — o melhor desempenho para o mês em três anos.

Os resultados no segmento de bens de capital são um alento em meio à crise que o país enfrenta. Analistas observam que o avanço denota uma incipiente recuperação dos investimentos, uma vez que o setor responde pela produção de máquinas e equipamentos. Em nota oficial lida na última quarta-feira pelo porta-voz da Presidência da República, Alexandre Parola, o governo deixou clara a satisfação com o desempenho recente de indicadores como esse.

Para o presidente Michel Temer, “os sinais concretos da retomada do crescimento econômico” reforçam um “resgate da confiança e da credibilidade do país”. “Indicadores como o aumento na venda de veículos automotores, a diminuição dos estoques nas empresas, a melhora já perceptível no número de carteiras assinadas e os resultados históricos obtidos na balança comercial indicam que o Brasil avançou em sua travessia para sair da maior crise econômica de nossa história. Hoje, a recessão é algo que já estamos a deixar  para trás”, disse ele, por meio da nota.

Ressalvas

 
Embora encontre amparo nos indicadores oficiais e de associações representantivas do setor produtivo, a análise de Temer é vista com ressalvas por analistas. “Parece que parou de piorar”, ponderou o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito. “O próprio Banco Central (BC), na decisão de cortar a taxa básica de juros (Selic) em um ponto percentual, nesta semana, deixou claro que, se a atividade piorar, vai acelerar o ritmo de redução. A autoridade monetária não disse que a economia está melhorando, mas aponta para um cenário de desaceleração. Isso tudo ainda sugere uma situação desafiadora para o governo”, acrescentou.

A redução dos juros, por sinal, é um dos poucos fundamentos que Perfeito avalia como positivo, auxiliado pelo arrefecimento da inflação, que, para ele, vai terminar o ano em 4,02%. Com o mercado de trabalho ainda em ritmo lento, ele avalia que não há demanda na economia que justifique afirmar que há uma retomada. “O consumo das famílias e os níveis de desemprego ainda estão em uma situação terrível”, destacou.

O economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), endossa a leitura de Perfeito. “Ainda não há nada a ser comemorado. Tem meses em que esses índices melhoram, em outros, pioram. Não há nenhuma indicação que, de fato, a economia esteja retomando o crescimento. Parar de cair é diferente de subir”, disse. Para ele, a Selic real, ou seja, descontada a inflação, que está em torno de 6,75% ao ano, ainda é muito alta e mostra que o BC não conseguiu reduzir a taxa em um ritmo suficientemente rápido. “Essa é a razão pela qual não temos nenhuma reação na economia. Chegamos ao fundo do poço, mas ainda estamos presos lá”, reforçou.


Desafios

 
No varejo, já é possível observar alguma recuperação, avalia o economista-sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes. Ele observa que a combinação favorável de desaceleração dos preços com o cenário de crédito menos caro tem auxiliado na retomada, mas acredita que ainda há desafios pela frente, como a lista do Fachin, a relação de políticos atingidos pelas delações de executivos da Odebrecht. “A reação econômica pode ser comprometida se a regeneração das condições de consumo sofrer impactos dos escândalos políticos”, ponderou.

Com dezenas de parlamentares incluídos, a lista, na avaliação de Bentes, pode comprometer o avanço das  reformas em tramitação no Congresso. Se as mudanças na Previdência não avançarem, o ajuste na política fiscal será comprometido, freando, paralelamente, o ritmo de redução dos juros. “Aí, a recuperação da economia será postergada e virá de forma muito mais lenta”, disse.


Visão positiva

 
Maior instituição financeira privada do país, o Itaú Unibanco vê sinais de melhora na economia. Em fevereiro, o indicador pelo qual a equipe econômica do banco estima a variação da atividade econômica no país, chamado de Pibiu, subiu 2,6% em relação a janeiro. Para o Itaú, o resultado reforça a visão positiva sobre a atividade do primeiro trimestre, ainda que indicadores já divulgados sugiram retração econômica em março. A alta foi a quarta consecutiva nessa base de comparação. Em relação ao mesmo período do ano anterior, porém, o índice registrou queda de 1,7%. Em 12 meses, a retração é de 4,1%.
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