O mundo conspira a favor da economia do Brasil, diz economista Tony Volpon

Para o economista-chefe do banco UBS, Tony Volpon, o PIB cresce 0,9% mesmo com a crise política, graças ao ambiente internacional favorável

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postado em 02/07/2017 08:00 / atualizado em 02/07/2017 08:21

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

O excesso de liquidez na economia global e o apetite por risco dos investidores estrangeiros mantêm o país atrativo, avalia o economista-chefe do banco UBS para o Brasil, Tony Volpon. O ex-diretor do Banco Central (BC) avalia que, enquanto não houver uma piora das condições financeiras, a recuperação da atividade continuará, mesmo que moderada. Nas contas dele, o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá 0,9% em 2017, estimativa acima do consenso do mercado.

Volpon ressalta que a alta da geração de riquezas no Brasil se sustentará diante do processo de recomposição de estoques das empresas e de um processo de estabilização das empresas, que já adaptaram a operação e os custos a nova realidade econômica. “Alguns dados mostram que temos empresas gerando lucro. Elas estão mais rentáveis”, explica.

O economista ressalta que o viés de estabilidade está lastreado na confiança dos investidores estrangeiros e em uma equipe econômica que conta com a simpatia do mercado. “Os investidores acham que a equipe ficará até o final, independentemente do que ocorrer no lado político”, afirma. Volpon ainda aponta que os brasileiros estão mais pessimistas que os estrangeiros. “Quando eles olham para os mercados emergentes, percebem que todos estão em crise. Isso ocorre na Turquia e na África do Sul. O mercado emergente paga um prêmio para que os investidores estejam nele”, diz.

O país vive a mais grave crise política da história, com um presidente indiciado por corrupção passiva . E ainda faltam 18 meses para acabar o mandato. O Brasil suporta essa crise política por tanto tempo?

Se olharmos para o mercado financeiro, os reflexos foram quase nulos. Os movimentos foram muito discretos. Temos o índice de condição financeira no UBS semelhante ao do Banco Central (BC). Quando observamos esses índices, percebemos que eles estão variando muito pouco. Portanto, diferentemente do que a gente viu em 2015, entre junho e agosto, não houve um brutal aperto nas condições financeiras. Naquele momento, havia um estado recessivo. Atualmente, não há esse tipo de aperto nas condições financeiras. Objetivamente, não tem um dado concreto para prever uma queda na economia ou de repente uma reversão nesse processo lento de recuperação.

Por que o mercado não tem reagido?

Eu acho que tem um conjunto de explicações. O cenário externo é muito bom para os emergentes. Você tem as bolsas perto das suas máximas e os juros perto de suas mínimas, com condições excelentes do ponto de vista do mercado financeiro. O mundo está crescendo mais. Vemos crescimento bom no Japão e na Europa, surpreendendo. Os Estados Unidos estão indo bem. A comoção com o Trump era um desafio, porque poderia ter colocado o dólar em alta internacionalmente, assim como os juros, o que seria ruim para os emergentes. Então, o fato de o governo Trump estar andando de lado com suas agendas mais agressivas, tem sido, num primeiro momento, algo positivo.

Estamos num cenário internacional benigno, mas também estamos vivendo a maior crise da história

Eu não tenho dados objetivos que levem para baixo minha previsão de crescimento, de 0,9% para este ano, um pouco acima do consenso. E para o ano que vem, um crescimento de 2,3%, que é mais ou menos o consenso. Eu não quero dizer que as condições financeiras são a única coisa que determina crescimento. Houve um certo erro por parte do mercado em 2016, após aquela bruta melhora nas condições financeiras pós-impeachment, e tinha muita gente que esperava ver a economia começar a crescer no quarto trimestre do ano passado. As previsões financeiras até indicavam isso. Mas, num primeiro momento, quando se tem uma mudança do cenário político, as condições financeiras são o primeiro fator que se olha, ainda que elas não sejam tudo. Neste cenário de hoje, não mudou.

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press


E não mudou por quê?

Primeiro, por causa da questão internacional.  Os investidores estrangeiros estão dispostos a dar apoio ao mercado. Não há reação semelhante à de 2015, quando houve uma decepção fiscal. Em agosto de 2015, teve aquela desvalorização da moeda chinesa que trouxe uma crise internacional. Foi a semana em que a Dilma divulgou que iria enviar um deficit para o Congresso e chocou todo mundo. De lá para cá, nós só mandamos o orçamento com deficit, ninguém mais fica chocado. Eu acho que é um quadro que exige muito cuidado em termos de fazer previsões e julgamentos. Nos últimos anos, o país passou por muitas crises, é difícil julgar se esta é a maior da história.

Então não podemos dizer que o viés é de baixa?

O viés, até que se prove o contrário, é de estabilidade. A economia está num processo lento de recuperação. Eu acho que existem certos lastros que estão dando conforto aos investidores. Primeiro, é a equipe econômica, que o mercado gosta e eu acho que tem feito um bom trabalho, apesar de ter críticas pontuais. Os investidores acham que a equipe fica até o final, independentemente do que ocorrer no lado político.

Mesmo mudando o governo?

Sim. Independentemente do que ocorra, o mercado espera que a equipe econômica fique.  Eles têm compromisso de entregar a economia para o próximo governo nas melhores condições possíveis. Independentemente do que estiver ocorrendo, seja no âmbito da política, seja no âmbito internacional. Há uma crença entre os investidores que qualquer pessoa que sente na cadeira presidencial em 2019 vai fazer as reformas. Porque não há opção. A necessidade se impõe pela objetividade dos fatos. O que pode ser discutido na campanha é como fazer essa reforma. Pode ser feita via corte de gastos, ou por aumento de receita.

Mas isso nada resolve se não tiver reforma da Previdência. 

Em 2019 e 2020, esse teto não vai valer mais de nada se não tiver a reforma.
Eu creio que há maneiras de entregar o teto sem a necessidade de se fazer a reforma. Tem uma certa folga entre 2017 e 2018 e aí tem uma maneira de constranger um pouco mais em 2019. Aprovar em 2019 e, sendo honesto, meio que empurrar com a barriga. Mas a não aprovação da reforma previdenciária neste ano não necessariamente leva a estourar o teto. Agora tem que aprovar a reforma em 2019. A classe política no Congresso já está pensando na eleição. Quando se começa o governo, se tem quatro anos para a próxima eleição. Obviamente, veremos candidatos dizendo que o país não precisa de reforma. Espero que eles não tenham espaço e que as pessoas percebam que essa reforma é necessária.

O senhor acha que não tem mais espaço para o populismo no Brasil?

Exatamente. Gastar mais dinheiro é um discurso fora da realidade. É necessário que haja um esforço para ter uma certa realidade na reforma. Eu sou otimista. Eu acho que nós devemos ter esse debate. E está no espaço para discussão. A reforma da Previdência não tem que ser essa proposta que está aí necessariamente. A reforma fiscal não tem que ser essa necessariamente. Acho que a pessoa que sentar na cadeira tem que dizer o que vai ser feito. Eu defendia isso quando estava no governo. Acho que nós estamos num processo de reforma que vai durar vários anos e passará por vários governos.

Mas agora não tem mais espaço para fracasso.

O espaço fica mais estreito. Se o governo Temer não fizer mais nada, já fez alguma coisa. O teto dos gastos já foi um passo importante, porque constrange o próximo governo em, no mínimo, fazer alguma coisa do lado dos gastos. Muita coisa precisa ser feita para aumentar a produtividade da economia e a intensa agenda que não depende de reforma Constitucional, que é mais fácil.

Uma parte do mercado espera que o governo não cumpra a meta fiscal estabelecida. Qual o nosso limite para fazer essas reformas já que o rombo é tão grande que só mais inflação controlaria as contas públicas?

Essa é a famosa tese furada da dominância fiscal. Esse mesmo debate existiu quando estive no BC. Houve uma certa paranoia em relação ao tema. Naquela época, afirmei que dominância fiscal ocorre quando o mercado perde a confiança, os investidores estrangeiros e locais deixam o país. Eles comprariam dólar, isso impactaria a inflação, o BC aumentaria juros e nada adiantaria, porque isso não se resolve com política monetária. A combinação das duas coisas causa inflação, e a economia cai ainda mais sem liquidez e isso piora a situação fiscal. Entraríamos em um ciclo vicioso. A dominância fiscal é resolvida de três maneiras: moratória, repressão financeira com, por exemplo, fechamento do mercado de câmbio, ou hiperinflação.

Mas qual o limite para a realização de reformas?

Eu não sei. O mercado pode acordar amanhã, perder a confiança no país e ir embora. Mas não acho que isso ocorrerá pela questão internacional. Tem muito dinheiro circulando. O investidor estrangeiro continua a alocar no Brasil.

O Brasil deixou de ser um bom negócio?

Acho que não. O dinheiro não para de entrar no país. O investidor gringo está muito mais otimista que o local. Essa é verdade nos últimos dois anos. Quando eles olham para os mercados emergentes, percebem que todos estão em crise, Turquia e na África do Sul, por exemplo. O mercado emergente paga um prêmio para que os investidores estejam nesses lugares.

Há risco de o país ter um terceiro ano de queda de PIB?

Creio que não. Não havendo aperto significativo nas condições financeiras, a economia deve seguir seu rumo de crescimento moderado.

O que sustentará esse crescimento moderado? É a recomposição de estoques?

Isso é uma parte. Quem sobreviveu a essa crise conseguiu se adequar financeiramente ao momento. Se estava muito alavancado, conseguiu reduzir esse problema. Ele também conseguiu controlar custos. Quem não conseguiu fazer essas duas coisas quebrou. Agora, eles conseguem crescer sem aumentar a base de custo. Alguns dados mostram que temos empresas gerando lucro e estão mais rentáveis. O mercado de trabalho parou de piorar na margem. O segundo momento é a capacidade de produzir mais. Você repõe estoques. Mas também é necessário algum horizonte de estabilidade.

A saída do Temer já está precificada?

Não. Para o mercado, o Temer fica, tem apoio do Congresso para isso, aprova a reforma trabalhista, provavelmente não faz a da Previdência. E, se conseguir, será uma reforma desidratada. A equipe econômica fica. Esse conjunto de expectativas deixa o mercado confortável com o nível de preços que está aí. O cambio não vai para R$ 3, mas também não vai para R$ 3,80. Temos um equilíbrio ainda positivo, porém instável. Por enquanto, o externo ajuda bastante.

A inflação continuará a cair no Brasil?

Houve uma mudança do regime inflacionário no Brasil por várias razões. Houve uma mudança muito benéfica. Os mecanismos de indexação e inércia devem perpetuar a inflação baixa. Tudo que era negativo vira o oposto. Se tem inflação abaixo de 4% neste ano ela se perpetuará nesse patamar em 2018. Não vejo no cenário qualquer fator que pressionasse a inflação.

Com isso, o BC cortará um ponto da Selic na próxima reunião do Copom?

Sim. O BC adotou uma postura conservadora inicial e sinalizou um corte de 0,75 ponto percentual. Mas o dólar está comportado. Ainda há tempo para a próxima reunião. Independentemente da crise política, o mundo conspira a favor do Brasil.

A decisão do CMN de mudar o regime de metas foi correta?

Sim. Levar a meta para 4,25% em 2019 e 4% em 2020 é uma oportunidade única, em função dessa quebra de regime. A inflação vai cair. Se deixassem a meta onde está, a inflação voltaria para 4,5%. Baixar a meta de uma maneira segura é correto. É uma tendência, ao longo do tempo, a inflação voltar para a meta. O governo precisa fazer as coisas quando pode e não quando quer. Podemos fazer agora. O importante é direcionar e se comprometer com um processo. Foi uma excelente sinalização para o mercado.
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