Queda dos juros para 8,25% é dada como certa pelo Banco Central

Analistas temem que política de cortes na taxa básica não se sustente sem a aprovação da reforma da Previdência e com a continuação da crise política. Apesar disso, as apostas são de que a Selic recue mais nas reuniões de outubro e dezembro e atinja até 7% ao ano

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postado em 04/09/2017 06:00

Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press


O corte de um ponto percentual na taxa básica de juros (Selic) na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que começa amanhã e termina na quarta-feira, já é amplamente esperado pelo mercado. Com a decisão, os juros cairão para 8,25% ao ano, o nível mais baixo desde maio de 2013. Entretanto, há dúvidas sobre como os diretores do Banco Central (BC) se comportarão nos dois últimos encontros, em outubro e dezembro. A maioria dos analistas avalia que a Selic terminará o 2017 entre 7,5% e 7% ao ano. Mas, reservadamente, têm demonstrado preocupação com a sustentabilidade desse processo, diante da falta de reformas, como a da Previdência. Alheios ao debate, consumidores reclamam que os empréstimos continuam caros e os bancos mantêm a restrito o acesso ao crédito.

O temor do mercado, mesmo que negado por boa parte dos economistas, está claro na curva futura de juros, que sobe há dois meses. Na prática, o indicador sinaliza que os investidores esperam juros mais altos a longo prazo. As apostas levam em consideração, basicamente, dois fatores: a aprovação da reforma da Previdência e a eleição de 2018.

Considerada essencial para o reequilíbrio das contas públicas a longo prazo, a possibilidade de votação das mudanças na aposentadoria diminui na medida em que o governo terá de concentrar esforços para barrar a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, já sinalizou que enviará ao Supremo Tribunal Federal (STF) um novo pedido para investigação do chefe do Executivo, e o tema precisa do aval da Câmara dos Deputados. Caciques de diversos partidos alertam que o capital político de Temer tem diminuído a cada votação. Para piorar, muitos reclamam que os acordos fechados  com o Planalto não foram cumpridos.


Esquerda


Sobre o pleito do próximo ano, o medo de analistas de mercado, empresários e investidores é de que o Brasil venha a ser governado por um presidente de esquerda, que deixará de lado as reformas para se dedicar a uma agenda populista. Sem controle sobre esses dois cenários, a equipe do presidente do BC, Ilan Goldfajn, teria de adotar uma postura conservadora, frear o processo de queda de juros e, eventualmente, subir a Selic, já que os investidores cobrariam um prêmio de risco maior para aplicar no país.

Por hora, esse quadro está reservado a pequenas rodas, que têm preferido exaltar o ambiente favorável para o Brasil, com abundância de liquidez internacional — dólar comportado diante das dificuldades do governo Donald Trump de imprimir uma agenda expansionista —, inflação mais próxima de 3%, o piso da meta, e taxa de desemprego que não pressiona os preços, sobretudo do setor de serviços.

Por outro lado, consumidores ainda esperam o repasse das quedas de juros aos contratos de financiamentos. Em julho, a taxa do cheque especial estava em 321,3%, o mesmo patamar de igual período do ano anterior, conforme dados do BC. O crédito pessoal não consignado registrou alta de 125% ao ano, em junho, para 132,2% no mês seguinte. O consignado para trabalhadores do setor privado mantém juros anuais de 42,1%, e recuaram apenas 1,2 ponto percentual nos últimos 12 meses. O rotativo do cartão de crédito alcançou taxa média de 504% ao ano, alta de 2 pontos percentuais nos últimos 12 meses.

Apesar de toda incerteza sobre o futuro do país, o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, espera que a Selic chegará a 7% ao ano no fim do ciclo de cortes de 2017. Essa estimativa leva em conta diminuição de um ponto percentual na reunião que termina depois de amanhã, uma redução de 0,75 ponto no encontro marcado para 24 e 25 de outubro e uma última queda de 0,5 ponto em dezembro. “Acreditamos que o banqueiro central será bem-sucedido na estratégia de colocar o juro real abaixo da taxa neutra da economia, a fim de estimular a demanda agregada”, diz.

Na opinião dele, o processo de desinflação, sobretudo de preços livres, é a principal justificativa para que o BC mantenha o ritmo de corte de juros. Oliveira ressalta que a lenta recuperação da economia favorece esse processo e, sem surpresas negativas, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) terminará o ano em 3,2%. “Vemos gradual aceleração da taxa de inflação a partir do 3º trimestre de 2017, que não comprometerá o cumprimento da meta para a inflação em 2018 com Selic em 7% ao ano”, explica. Com isso, a taxa de juros real chegaria a 3,27%.

O corte de um ponto percentual na Selic é consistente com a perspectiva de estabilização da atividade, seguida por uma recuperação gradual, com grande ociosidade no mercado de trabalho e inflação comportada, avalia o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita. Entretanto, ele aposta que a autoridade monetária sinalizará a estabilização das condições econômica, em um ambiente em que a taxa de juros real já se encontra em patamares historicamente baixos e expansionistas. “Isso deve permitir uma redução do ritmo de corte da taxa Selic a partir da próxima reunião, em outubro”, comenta.

Os integrantes do Copom, avalia Mesquita, devem enfatizar que o ritmo de cortes dos juros dependerá da evolução da atividade econômica e das projeções de inflação. “Em outras palavras, acreditamos que a política monetária deve avançar, após a reunião de setembro, para uma fase de calibragem do ciclo de corte de juros”, destaca.

Nas contas do Itaú Unibanco, após o corte de um ponto percentual, o BC fará duas reduções de 0,5 ponto nas reuniões de outubro e dezembro, além de um corte adicional de 0,25 ponto no início de 2018, o que levaria a Selic a 7% ao ano. “Caso o comitê prefira fazer um resseguro quanto à sustentabilidade da recuperação econômica, poderia antecipar um pouco a trajetória até 7%, mas a continuação do ciclo de cortes para abaixo desse nível requereria novas surpresas baixistas na inflação ou na atividade econômica”, afirma.

Cautela


Na opinião do diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa, diante da dinâmica de crescimento econômico gradual e das surpresas da inflação, a autoridade monetária cortará os juros em um ponto percentual na reunião que começa amanhã. “Declarações recentes do BC indicam que o Copom vê o atual nível de juros reais como expansionista e que os modelos do BC apontam para inflação próxima à meta de 2018, com Selic ligeiramente abaixo de 8%.”, comenta.

Nesse cenário, ele leva em conta que o IPCA de agosto registrará alta de 0,28%, o mesmo nível esperado antes do anúncio do aumento de impostos sobre combustíveis. Entretanto, Barbosa destaca que a equipe de Ilan Goldfajn será cautelosa e não levará a taxa a 7% ao ano no fim do ciclo, como estimam diversos economistas. “Por isso, esperamos que o Copom encerre esse processo em 7,5% ao ano”, destaca.
 
 
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