Após sinais de recuperação, ainda é lenta a retomada da venda de imóveis

Apesar da queda nos juros, o aquecimento não é maior porque saldo das cadernetas de poupança se recupera de retiradas superiores a depósitos, e saques em contas inativas do FGTS reduziram recursos da Caixa para empréstimos habitacionais

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postado em 23/09/2017 08:00 / atualizado em 23/09/2017 08:31

Pedro Ventura/Agência Brasília
 

Depois de sinais claros de recuperação, o mercado imobiliário voltou a sentir um baque. A Caixa Econômica Federal, principal fonte de empréstimos habitacionais, reduziu o ritmo de liberação de crédito, sobretudo com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A retomada que era esperada para este ano pelos especialistas do setor, por conta de taxas de juros em queda e oferta reduzida de imóveis novos, deve se consolidar apenas em 2018.



Na avaliação de José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), os dois lastros do financiamento habitacional tiveram baixas significativas. “A caderneta de poupança, faz um bom tempo, vem sangrando muito, com saques bem acima dos depósitos. Uma forma de compensar isso foi por meio do FGTS, com a criação das linhas de crédito pró-cotista (linha que permite que qualquer pessoa que tenha conta no fundo possa pegar empréstimo)”, explicou.

Porém, o FGTS também teve saques extraordinários este ano, com a medida do governo de liberar as contas inativas. Foram mais de R$ 44 bilhões em retiradas. Uma determinação do Ministério das Cidades, editada em agosto, também afetou a concessão de empréstimos. A Instrução Normativa 32/2017 determinou que a Caixa dividisse o valor global do orçamento do FGTS para habitação, de R$ 71,7 bilhões em 2017, pelo número de meses para garantir a oferta o ano inteiro.

As imobiliárias da capital sentiram os efeitos do ritmo menor na liberação de crédito pela Caixa. Na Ferola Empreendimentos Imobiliários, a informação é de que o problema é no sistema do banco. “Estou com um caso de um cliente que teve seu crédito aprovado, mas, na hora de gerar a minuta, não houve liberação dos recursos. Tentamos entrar no sistema da Caixa e não conseguimos. A orientação que o banco nos deu foi ficar insistindo para fazer a reserva da verba”, afirmou uma atendente que preferiu não se identificar. Vanusa Vasconcelos, da área de vendas da Imobiliária Real, disse que, “a partir da semana que vem, a Caixa vai reduzir a margem de financiamento.”

O diretor comercial da Imobiliária Lopes Royal, Rogerio Oliveira, destacou que a fase crítica das linhas de poupança já passou. “Houve uma equilibrada, não só na Caixa, mas nos demais bancos que usam recursos da caderneta”, disse. Oliveira afirmou que, como a taxa de juros está em queda, os bancos privados estão mais agressivos, com apetite para emprestar. O problema maior, disse ele, está nos imóveis mais baratos, até R$ 240 mil, que se enquadram no programa Minha Casa Minha Vida, com recursos de FGTS. “Antes, a Caixa permitia financiar até 90% do valor e, há um mês, passou a operar apenas 80%. Além disso, fechou a linha pró-cotista há dois meses”, disse.

Conforme Oliveira, a Caixa também aumentou o rigor na análise de crédito. “O banco nunca explicou por que dificulta a aprovação. É uma estratégia, ainda que não admitida, de restringir o financiamento”, acrescentou. Rubens de Souza, dono da Imobiliária Varandas, compartilha da mesma opinião sobre maior restrição de crédito. “Antes, a Caixa era mais liberal. Nossas vendas são em pequena escala, a maioria feita à vista, por isso, o reflexo é pequeno. Mas colegas de empresas de alto porte, que lidam com financiamentos, estão sofrendo bastante para fechar os negócios”, contou.

Hugo Coutinho, diretor comercial da Thais Imobiliária, ressaltou que a empresa está recorrendo a bancos privados. “A Caixa não tem mais crédito para emprestar. Desde o começo do ano, nós prevíamos uma certa dificuldade, por isso passamos a focar nossa carteira com outras instituições. O Bradesco, por exemplo, está aprovando 80% do imóvel financiado e eles ainda têm crédito”, alertou.

Orçamento mensal

Procurado, o Ministério das Cidades afirmou que a Caixa é responsável por explicar o que está ocorrendo com a concessão de empréstimos imobiliários. A assessoria do banco confirmou que a IN 32/2017 da pasta estabelece um orçamento mensal para utilização de recursos do FGTS. “Houve adequação dos sistemas internos para atender à resolução”, justificou, em nota. A Caixa garantiu que os financiamentos não estão suspensos e serão “devidamente contemplados de acordo com a execução do orçamento mensal”.

Apesar das reclamações, a contratação de crédito imobiliário em 2017, conforme o banco, está  20% superior à de janeiro a agosto do ano passado. “A Caixa já emprestou mais de R$ 62 bilhões até o momento. Considerando o orçamento anual e o ritmo de contratação, o banco adotou a estratégia de execução mensal do orçamento para todas linhas de crédito imobiliários”, reiterou. O orçamento de 2016 foi de R$ 81 bilhões.

“Antes, a Caixa permitia financiar até 90% do valor e, há um mês, passou a operar apenas 80%. Além disso, fechou a linha pró-cotista há dois meses”

Rogerio Oliveira, diretor comercial da Imobiliária Lopes Royal

 

 

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