Incorporadoras se arriscam em projeto nacional

Depois de dois anos difíceis, empresas lançam projeto nacional que envolve consumidores, cobram mais crédito dos agentes financeiros e pavimentam a retomada que já começou

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postado em 29/11/2017 06:00 / atualizado em 29/11/2017 15:11

Carlos Moura/CB/D.A Press


São Paulo — Luiz Antonio França, presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), gosta de contar uma história que demonstra a força do setor. A Macy’s, uma das maiores redes de lojas de departamentos dos Estados Unidos, começou a sofrer nos últimos anos a concorrência do comércio eletrônico. Se não fosse o seu extraordinário patrimônio imobiliário, que garante receitas expressivas e regulares, a Macy’s não estaria mais funcionando. Em outras palavras: o que sustenta hoje a empresa não é o negócio em si, mas o lastro imobiliário. “Isso mostra por que esse ramo é tão importante e como ele é vital para a solidez das empresas e do próprio país”, afirma o executivo.


Se, nos Estados Unidos, a grande crise de 2008 atingiu especialmente os bancos, no Brasil, os malfeitos  econômicos dos últimos dois anos acertaram em cheio as incorporadoras. Com a queda da renda dos brasileiros e o sumiço do crédito, não havia como lançar e vender imóvel. Os números confirmam o baque sofrido pelo setor. Em 2014, 2,5 milhões de pessoas estavam empregadas em atividades ligadas a negócios imobiliários. Em 2017, o número é de 1,3 milhão. Os lançamentos caíram de 1 milhão de unidades, em 2013, para encerrar 2017 com 400 mil unidades.

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Mas a página da crise parece ter sido virada. Um indicador desenvolvido pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) em parceria com a própria Abrainc comprova que o cenário mudou. O índice que aponta se as condições do mercado são favoráveis atingiu 4,1 pontos (numa escala de 0 a 10) em outubro. Há um ano, o indicador estava em 2,6 pontos. “A retomada já é perceptível”, diz França, da Abrainc. “Registramos seis meses consecutivos de alta na confiança da construção.”

Para Eduardo Zylberstajn, economista da Fipe, 2018 trará oportunidades para as incorporadoras. “Com juros mais baixos e regras dos jogos mais previsíveis, a tendência é que os negócios voltem com mais força.” Quando fala em regras previsíveis, Zylberstajn refere-se especialmente à Caixa, que frequentemente muda o teto dos financiamentos imobiliários, alterando os índices entre 80% e 90%. “A cada três meses, acontece alguma mudança”, diz o especialista. “Em países desenvolvidos, isso raramente acontece.”

O mercado brasileiro guarda algumas peculiaridades. Mais de 70% das vendas são de imóveis populares, característica que faz com que o grosso do dinheiro esteja na baixa renda. Não à toa, as empresas de construção que desenvolvem moradias populares e que estão enquadradas no Minha Casa Minha Vida responderam por dois terços dos lançamentos e das vendas do terceiro trimestre, entre as 11 incorporadoras listadas na Bolsa de Valores de São Paulo. Juntas, gigantes como MRV, Tenda e Direcional lançaram empreendimentos com valor de vendas estimado em R$ 2 bilhões, um avanço de 55,5% na comparação anual.

Para o mercado como um todo, o terceiro trimestre frustrou a expectativa de empresários, que esperavam uma recuperação mais consistente depois de uma leve reação do número de lançamentos e vendas de imóveis nos meses de abril, maio e junho. Os dados do terceiro trimestre, divulgados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), mostraram que os lançamentos caíram 12,2%, e as vendas, 7,4% na comparação com os três meses anteriores. No acumulado do ano (janeiro a setembro), as quedas são de 8,6% e 1,5%, respectivamente. “A recuperação esperada para este ano terá que ser adiada para 2018”, diz José Carlos Martins, presidente da Cbic.

De olho nas boas perspectivas para o ano que vem, a Abrainc lançou ontem, em São Paulo, uma campanha nacional chamada “Do Mesmo Lado.” A ideia é unir empresários e consumidores e mostrar que o incorporador enfrenta os mesmos desafios de todos os brasileiros. “O Brasil não pode se dar ao luxo de dividir as pessoas”, diz o empresário Rubens Menin, presidente do Conselho de Administração da MRV Engenharia, a maior construtora residencial da América Latina. “A sociedade deve desejar uma coisa só, que é o bem de toda a nação.” Em 2017, a MRV continuou acelerando. No terceiro trimestre, registrou lucro líquido de R$ 202 milhões, alta de 43,4%  em relação ao período anterior.

Nos próximos dias, o setor continuará debatendo saídas para se tornar mais robusto. Entre amanhã e sexta-feira, o Instituto Justiça & Cidadania promoverá, em Brasília, o seminário “Reforma Trabalhista e os Impactos no Setor Imobiliário”, que terá a participação de magistrados, especialistas e entidades do setor.  Para o ministro do Tribunal Superior do Trabalho Alexandre Agra Belmonte, não há dúvida de que a reforma provocará efeitos positivos. Segundo ele, a regulamentação da terceirização, os contratos temporários mais elásticos e as novas regras sobre banco de horas e ajuste de horas extras vão facilitar as relações trabalhistas e, assim, impulsionar o setor.
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