Presidente do BNDES: "A reforma da Previdência vai trazer justiça social"

Para economista, novas regras acabam com privilégios históricos e impulsionam a economia

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 12/12/2017 06:00

Antônio Cruz/Agência Brasil


São Paulo —
O economista carioca Paulo Rabello de Castro assumiu o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) há exatos seis meses. Apesar de recém-chegado, fez mais barulho à frente do banco do que a maioria de seus antecessores. Nesse período, assumiu para si o desafio de mudar a imagem da instituição, desgastada por ter realizado, especialmente nos anos petistas, inúmeros projetos com empresas envolvidas na Lava-Jato. “Acabamos de fechar uma investigação e não descobrimos nada”, diz ele. “É uma estupidez atribuir malfeitos que administradores da JBS eventualmente praticaram como se tivessem sido praticados pelo banco.” Frases assim soaram como música nos ouvidos dos funcionários do BNDES, e Paulo Rabello se tornou um popstar nos corredores do banco. Inquieto, não parou por aí. Filiou-se recentemente ao Partido Social Cristão (PSC), apareceu com destaque na propaganda eleitoral da legenda na TV e seu nome acabou surgindo como provável pré-candidato a presidente. Por ora, nega que disputará o pleito, mas diz que o cenário poderá mudar mais adiante. “Não está na hora de debater essa questão, a menos que todo mundo esteja tão animado com as ideias que o partido defende que a gente se anime a propugnar isso de forma mais ostensiva.” Nesta entrevista, além de falar de política e da varredura que fez no BNDES, Paulo Rabello discute o grande tema que mobiliza o Brasil neste momento: a reforma da Previdência. Com argumentos sólidos – e do alto da experiência de quem debate saídas para o país há mais de 30 anos –, ele demonstra que a reforma traz em sua essência o conceito de justiça social. “O Brasil sempre fabricou uma sociedade de privilégios. Com a reforma, a Previdência começa a tratar os brasileiros de forma igual.”

A reforma da Previdência está prestes a ser votada. Qual será o impacto de uma eventual aprovação para o Brasil?
A reforma da Previdência é o início de um processo de verdadeira justiça social. O Brasil sempre falou em justiça social, mas, na verdade, fabricou uma sociedade de privilégios. Com a reforma, a Previdência começa a tratar os brasileiros de forma igual. Essa é a sua grande virtude.

É correto falar em justiça social considerando que muitos privilégios permanecerão?
Existe justiça social num outro aspecto fundamental. Vamos simplificar os números: a economia deverá ser de R$ 500 bilhões em 10 anos, ou R$ 50 bilhões por ano. Ou seja, a reforma libera recursos dentro do Orçamento que podem ser usados de outra forma e não para pagar privilegiados. Vamos supor que sobrariam recursos para 5 mil municípios brasileiros. Se cada município pequeno recebesse, digamos, R$ 1 milhão a mais, isso significaria um ambulatório a mais, uma escola, mais iluminação pública. Isso é justiça social.

Se a conta é simples, por que a sociedade não enxerga as virtudes da reforma?
Em dois minutos eu explico isso na televisão. A economia de R$ 500 bilhões não é tirada de ninguém. A reforma apenas adia um benefício exorbitante, que é se aposentar enquanto a pessoa malha na academia. O cara faz muito bem em malhar, desde que não seja a sociedade brasileira que pague a conta.

Leia as últimas notícias de Economia

O senhor acha que a reforma vai passar?
Se a gente conseguir explicar isso, não vejo quem votaria contra.  Até o pessoal da oposição ficaria constrangido. Hoje, as pessoas se escondem atrás de uma conversa fiada, misturando um certo desgaste da administração do presidente, por causa dos inúmeros ataques que vem sofrendo, e embolando isso no imaginário do público como se fosse uma reforma que tira direitos, o que não é verdade.

O senhor citou os ataques sofridos pelo governo Temer. Que avaliação faz da atual administração?
Só o fato de o presidente Temer colocar a gente para pensar sobre um país reformado, renovado, isso já é um mérito extraordinário. Não foi só a reforma trabalhista ou a da Previdência. Ele lançou agora uma disciplina sobre o controle dos gastos, que vai precisar de aperfeiçoamentos, mas que é um passo gigantesco. E houve também a nova Lei das Estatais, que ele conseguiu aprovar depois de tanto tempo. Fez ainda a reforma do ensino médio, que foi importantíssima. Tem muita coisa boa aí.

O BNDES foi associado nos últimos anos a diversos episódios de corrupção. Como isso afetou a imagem do banco?
A associação é injusta. Estou trabalhando duro para que o BNDES mude essa imagem. Durante muito tempo, o banco esteve fechado nas suas próprias técnicas e levando cacetada dos ignorantes que não o conhecem. Ele não é o Bradesco, o Itaú, o Banco do Brasil ou a Caixa, que gastam milhões em propaganda. Por isso as pessoas têm uma imagem distorcida.

Nos anos petistas, o banco esteve muito próximo da JBS, uma das empresas que está no epicentro da Lava-Jato.
O governo Lula não é inocente. Está muito longe disso. Agora, é uma estupidez atribuir malfeitos que administradores da JBS praticaram como se tivessem sido praticados pelo banco. O banco nem financiou a JBS. Ele entrou como sócio, o que significa dizer que levou recursos do povo brasileiro para participar de uma das empresas de proteína mais bem-sucedidas do mundo. Portanto, todo esse capital está lá. Se o banco vender sua participação, o Brasil vai ter alguns bilhões para utilizar em novos recursos.

Não houve malfeitos?
Acabamos de fechar uma investigação e não descobrimos nada, a não ser determinados erros técnicos, que ocorrem em qualquer instituição. Malfeitos, fraudes, perdas de compostura, de compromisso com a ética não foram detectados. Isso deixa muita gente desacorçoada. Aqui o cara não consegue cometer um malfeito sozinho. São 30 carimbos para aprovar um projeto. Você acha que todas as 30 pessoas estariam envolvidas? Nós vivemos hoje um clima de presunção de imoralidade. Todo mundo é presumido imoral e antiético até que prove o contrário.

Não teria sido pelo menos o caso de o banco escolher melhor os seus investimentos?
O BNDES é o banco de desenvolvimento mais lucrativo do mundo, o que tem o melhor resultado. Na verdade, deveriam estudar como, mesmo na recessão, o banco consegue escolher tão bem os seus investimentos. Nem na recessão ele é caloteado. Isso é um exemplo.

Que mudanças o senhor implementou desde que chegou ao banco?
A ideia é tornar o BNDES um banco cada vez mais regionalizado, atacar os problemas de cada região brasileira e providenciar soluções criativas.

O BNDES está abrindo escritórios regionais para isso, certo?
Sim. Nós já testamos em três lugares: São Paulo, Recife e Brasília, mas não é suficiente. No total, quero abrir escritórios em sete lugares, incluindo esses.

Abrir escritórios regionais não significa inchar a máquina do banco?
Não, porque será com o mesmo número de pessoas, cuja máquina não passa de 2.700 funcionários, o que é muito pouco para uma instituição que tem quase R$ 1 trilhão em ativos.

O senhor é um liberal, mas, por essa nossa conversa, eu diria que também é um desenvolvimentista. Essa percepção está correta?
O Roberto Campos (economista e diplomata, morto em 2001) era um desenvolvimentista que depois se dedicou ao pensamento liberal. Eu sou um liberal que me dedico ao desenvolvimentismo. O Brasil tem uma agricultura explodindo, um setor de startups que está indo muito bem. Num certo sentido, o Brasil é um cavalo com as quatro patas presas. O que é ser um desenvolvimentista? É liberar essas patas. Acho uma palhaçada a gente querer ficar dividindo o mundo em duas categorias que se opõem. No Brasil, o economista que não for desenvolvimentista nem economista é.

Muitos economistas acham que o mercado é a solução para tudo.
No Brasil, querem fechar os deficits públicos às custas do sangue do povo brasileiro, cometendo uma insanidade tributária e outra insanidade de juros. As pessoas acham que o país pode ficar quatro anos em recessão e o mercado vai dar uma resposta para isso. Não é o mercado, é o governo. O desenvolvimentista começa em recompor o papel do governo.

Qual será o grande debate político de 2018?
É saber quem está ao lado das finanças ociosas e quem está ao lado da produção do Brasil que acorda cedo para trabalhar. Do lado das finanças ociosas estão aqueles privilegiados da aposentadoria.

Por que o senhor se filiou ao PSC?
Eu costumo dizer com carinho que é o que está mais próximo de Jesus. Entenda como quiser. Significa dizer que precisamos da mensagem cristã cada vez mais. Precisamos de mais compostura, de mais solidariedade cristã, de tudo aquilo que o cristianismo propaga como comportamento recomendado. Essa virtude precisa ser propagada. A sociedade brasileira, para além da sua extrema estupidez econômica, também vivencia uma grande estupidez moral.

O senhor será candidato a presidente?
Isso não está ainda em discussão. Não está na hora de debater essa questão, a menos que todo mundo esteja tão animado com as ideias que o partido defende que a gente se anime a propugnar isso de forma mais ostensiva. O que temos que fazer é elevar a qualidade do debate econômico no Brasil e encontrar meios para dar ao país uma fase de desenvolvimento jamais experimentada.

Na propaganda do seu partido na TV, o senhor fez um discurso que parecia de oposição. Criticou a situação econômica, a falta de emprego. Não é estranho para alguém que comanda o BNDES?
O presidente Temer está modernizando o país, mas o Partido Social Cristão não quer que pensem que essa tarefa está acabada.

Como o senhor avalia a candidatura presidencial de Henrique Meirelles, que já está colocada?
Eu não vou avaliar. A gente precisa primeiro discutir ideias, projetos e propostas, e só depois fulanizar o debate.

O Brasil pós-crise será um país melhor?
A crise foi produto da sem-vergonhice nacional bruta. O Brasil é e continuará sendo um país extraordinário.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.