Manutenção da baixa inflação depende do controle dos gastos do governo

Preços devem acelerar um pouco nos próximos 12 meses, mas país vive o ciclo de inflação mais baixo em duas décadas

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 25/12/2017 06:00 / atualizado em 25/12/2017 07:22

Carlos Moura/CB/D.A Press


O Brasil vai viver o mais longo ciclo de inflação baixa em duas décadas. Após uma das mais severas recessões da história, os preços desaceleraram e fecharão 2017 com alta de 2,8%, abaixo do piso da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3%. Diante de um mercado de trabalho ainda combalido, e sem perspectivas de que a demanda crescerá mais rápido do que a oferta, as expectativas são de que, em 2019, já com o Brasil sob novo comando, a média de elevação de custos no mercado de bens e serviços fique em um patamar de 4,25%, coincidindo com a meta inflacionária do CMN para o período. No entanto, alertam analistas, para que o custo de vida permaneça sob controle, o próximo presidente da República precisará implementar uma política econômica sólida, que busque assegurar o equilíbrio fiscal.

Até 2019, economistas preveem que os preços seguirão uma natural tendência de aceleração. Isso não é visto como algo ruim, uma vez que se parte de um patamar baixo — inferior ao piso da meta — e que esse movimento se dará devido a uma reação da economia. Com a atividade econômica retomando o fôlego e gerando mais empregos, a massa de rendimentos disponível para o consumo naturalmente será reaquecida.

Em decorrência da aceleração econômica, a Rosenberg Associados prevê carestia de 3,8% para 2018. No ano seguinte, a projeção aponta para alta dos preços de 4,25%, calcula o analista de inflação da consultoria, Leonardo Costa. “É mais um movimento da retomada da atividade mesmo”, aponta. Nem por isso o caminho do próximo governante será fácil.

Risco de adiamento


Caso o presidente Michel Temer não consiga que o Congresso Nacional aprove a reforma da Previdência no primeiro semestre de 2018, são grandes as chances de o projeto ficar para o sucessor do peemedebista. Para Costa, a probabilidade de a proposta ficar para 2019 é grande. “Não está contemplada no nosso cenário a votação para 2018. Depois que o Jucá [Romero, líder do governo no Senado (PMDB-RR)] encerrou a questão da votação há duas semanas, houve uma bela remarcação pelo mercado”, justifica.

O governo federal, no entanto, nega estar derrotado na Câmara. Na última semana, Temer afirmou que “jamais desistirá da Previdência”. O peemedebista diz buscar a reforma pensando na economia e no bem-estar social dos brasileiros. Mas há, também, objetivos eleitorais envolvidos. O governo aposta na vitória no Congresso Nacional as fichas para garantir uma recuperação mais acentuada da economia em 2018, e, com isso, ter mais motivos para bancar e eleger um candidato da base nas eleições.

Independentemente de ser aprovada em 2018, ou em 2019, a promulgação da reforma da Previdência é de fundamental importância para manter a inflação em um baixo patamar não apenas nos próximos dois anos, mas também no próximo ciclo político. Sem a mínima sinalização de esforço para estancar o aumento dos gastos públicos — que é, atualmente, puxado, sobretudo, pela Previdência Social —, o Brasil pode enfrentar um quadro de fuga de capitais.

A iminência de os investidores não sentirem confiança no Brasil levaria muitos a aplicarem no mercado externo. Nesse caso, o efeito mais prático seria o aumento do dólar em relação ao real, resultando em pressão inflacionária. Em caso de aumento dos preços, o Banco Central (BC) acabaria elevando a taxa básica de juros (Selic), efeito que, naturalmente, tornaria mais caro tomar crédito. Em um contexto desses, os investimentos pelas empresas tenderia a se retrair, comprometendo o aumento da oferta na economia.

Desemprego


O desequilíbrio entre a oferta e a demanda provocaria, então, um aumento da inflação. A que nível o custo de vida poderia chegar em 2019 em um cenário como esse ainda é difícil imaginar, mas comprometeria o ciclo de baixa nos anos seguintes. Entretanto, o cenário é bem positivo, avalia o economista Roberto Ellery, professor da Universidade de Brasília (UnB).

Em uma situação de aprovação da reforma, com o governo conseguindo convencer a sociedade e o mercado que há uma trajetória de estabilidade fiscal, a recuperação da demanda tenderia a não ser inflacionária. “O problema da inflação acontece quando a demanda cresce muito mais rápido que a oferta”, sustenta. Ainda que a retomada dos investimentos seja gradual, Ellery pondera que não seria difícil assegurar o equilíbrio inflacionário.

“Foram dois anos de queda da economia. Ainda tem uma grande capacidade ociosa. Em um primeiro momento, o que deve ocorrer é o crescimento conjunto da oferta e da demanda. Ao mesmo tempo em que as pessoas comprarão mais, também haverá mais produção. Quando andam juntos, não tem muita pressão inflacionária”, pondera Ellery, analisando que a recuperação econômica em si não traria a inflação de volta.

Estabilização

A estabilização da dívida pública deve ser uma obrigação para qualquer governo que assumir o posto ocupado atualmente pelo presidente Michel Temer, apontam analistas. Atualmente, a proporção entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro está próxima de 75%. “É preciso dar sinal de estabilização aos mercados para conseguir tempo para fazer o que tem que ser feito. Se perder isso, acabou. A inflação volta a subir, assim como os juros”, adverte o economista Roberto Ellery, professor da Universidade de Brasília (UnB).
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.