Fusões e aquisições voltam a crescer e confiança no Brasil é retomada

A retomada da confiança dos investidores, o impacto da Operação Lava-Jato e o sucesso das fintechs impulsionaram as transações em 2017 e devem gerar bons negócios em 2018

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postado em 29/12/2017 06:00 / atualizado em 28/12/2017 22:29



São Paulo — O ano de 2017 deverá fechar com mais de 800 operações de fusões e aquisições de empresas, crescimento de 9% na comparação com 2016, quando foram realizados 740 negócios. A estimativa é da consultoria KPMG, que ainda não tabulou todos os dados relativos a 2017. David Bunce, sócio da KPMG, adianta que as estatísticas e os resultados colhidos até agora mostram crescimento consistente do volume de transações e refletem o retorno do otimismo dos investidores.

“Não tenho dúvida de que estamos diante do início da retomada da economia e da melhora das condições macroeconômicas “, diz ele, lembrando que, com as finanças nos eixos, o Brasil voltou ao radar dos investidores internacionais. Se as projeções se confirmarem, será o melhor resultado desde 2014, quando foram registradas 818 transações desse tipo no país.

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Nos primeiros nove meses de 2017, a KPMG contabilizou 584 operações. Desse total, menos de a metade (261) se deu no âmbito doméstico, ou seja, contou com a participação exclusiva de compradores e vendedores brasileiros. Só no terceiro trimestre (julho a setembro), a associação entre companhias nacionais resultou em 92 operações, 42% acima do registrado no mesmo período de 2016. Segundo a KPMG, esse foi o principal motor do avanço de fusões e aquisições no país – mais uma prova da recuperação da confiança dos investidores.

Além das transações domésticas, é interessante destacar o elevado número de empresas brasileiras que compraram corporações estrangeiras no exterior. De janeiro a setembro, foram fechados 38 negócios, mesmo número de operações realizadas em todo o ano de 2016. Isso demonstra a força renovada das companhias nacionais, que recuperaram o fôlego para fazer investimentos fora do país.

Embora o número de transações envolvendo a compra de empresas estrangeiras por brasileiras seja grande, o sócio da KPMG explica que foram operações menores, focadas na expansão do próprio negócio, que impulsionaram os resultados de 2017. Muitas empresas, diz o executivo, adotam essa estratégia para aumentar a capilaridade de suas exportações. “Não houve grandes aquisições feitas por brasileiros fora do país, como ocorreu anos atrás”, diz.

As estatísticas da consultoria mostram o efeito das investigações da Operação Lava-Jato nos negócios de compra e venda de empresas. O setor mais afetado foi o da construção, que esteve no centro de diversos escândalos envolvendo políticos graúdos. Com os desdobramentos da Lava-Jato, algumas dessas empresas tiveram que se desfazer de seus ativos para aliviar os prejuízos gerados pela crise de credibilidade que as atingiu. Em 2017, o movimento foi observado em diversos ramos de atividade. “Não é a maior parte das transações, mas faz parte importante da estatística e representa uma oferta que a gente não queria registrar”, afirma Bunce.

Sobrevivência 


Entre as organizações afetadas pela Lava-Jato, ele cita a J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, presos desde setembro. A J&F vendeu, por R$ 3,5 bilhões, o controle da Alpargatas para um grupo de investidores formado por Cambuhy, Itaúsa e Brasil Warrant. Para preservar a JBS, a maior empresa de proteína animal do mundo, o grupo J&F se desfez também da Vigor (vendida por R$ 4,3 bilhões) e de metade da Itambé (R$ 600 milhões), duas marcas consagradas no setor de laticínios, além de passar adiante as operações da JBS no Mercosul, por R$ 1 bilhão. A Camargo Correa também vem se desfazendo de vários negócios para sobreviver à Operação Lava-Jato. No início do ano, anunciou a venda da Loma Negra, uma das mais tradicionais cimenteiras da Argentina.

Fora da Lava-Jato, merece destaque a compra das operações de varejo do Citibank no Brasil pelo Itaú Unibanco, anunciada em outubro do ano passado, mas só aprovada em outubro último pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), pelo valor de R$ 710 milhões. O Itaú também adquiriu 49,9% do capital da XP, a maior corretora do país, por R$ 5,7 bilhões. Detalhe importante: a XP vinha incomodando os grandes bancos com uma forte campanha de “desbancarização” dos investimentos.

O setor de tecnologia e de empresas de internet, que tem como uma espécie de divisor de águas a compra da XP pelo Itaú, vem se destacando nos últimos anos no mercado de fusões e aquisições. Novos negócios devem continuar a movimentar o setor ao longo de 2018, como resultado do crescimento das startups na área financeira, as chamadas fintechs.

Segundo Bunce, há muitas empresas pequenas de softwares que acabam seduzindo grupos maiores, além de consultorias que estão em ascensão e certamente são interessantes para os rivais. “Muitas gigantes usam a compra de um concorrente que incomoda como uma estratégia defensiva”, diz o sócio da KPMG. Nesses casos, diz ele, é melhor ter o adversário por perto e sob controle do que deixá-lo crescer e prosperar. Como as fintechs estão em alta, os bancos tradicionais certamente serão responsáveis por novas aquisições em 2018. Isso é bom para a economia e para o país.
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