2018 deve ser o ano da consolidação da indústria automobilística

Para isso, empresas esperam a manutenção das bases econômicas e a aprovação do Rota 2030

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postado em 08/01/2018 06:00 / atualizado em 07/01/2018 22:13

Jair Amaral/EM/D.A Press
 
São Paulo – Depois de três anos seguidos de resultados negativos, 2017 foi para a indústria automobilística brasileira uma espécie de redenção. Com vendas totais de 2,24 milhões de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus, o que representa crescimento de 9,2% ante 2016, e produção de 2,7 milhões (alta de 25,2%), o setor automotivo encerra o ano comemorando, mas preocupado com 2018 — apesar de as projeções indicarem resultados ainda melhores que 2017.
 

“São números para festejar, mas não se pode esquecer que ainda temos uma capacidade ociosa muito grande, de 47% em toda a indústria automotiva. Em caminhões, está próximo de 75%”, pondera o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Antonio Megale.

Pelas projeções da Anfavea, as vendas devem chegar a 2,5 milhões de veículos e a produção, a 3 milhões de unidades, alta de 11,7% e 13,2%, respectivamente. Se os números forem confirmados, será o retorno ao patamar de crescimento de dois dígitos alcançados antes da crise econômica. Em 2013, as vendas atingiram 3,8 milhões de autoveículos, o recorde do setor.

“Achamos que o mercado interno vai começar a dar os primeiros sinais de uma recuperação mais vigorosa, ainda melhor do que aconteceu este ano e, com isso, vamos continuar aumentando a produção”, diz Megale. O executivo estima, porém, que as montadoras só conseguirão repetir os números recordes de quatro anos atrás entre 2022 e 2025.

Para chegar aos resultados previstos para 2018, Megale espera que as condições econômicas mantidas até agora permaneçam ao longo do ano. Segundo ele, o período eleitoral é uma incógnita, mas não deverá trazer grandes preocupações, apesar da indefinição dos candidatos que vão concorrer à presidência. Mesmo que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, concorra em outubro, Megale acredita que 2018 será melhor do que 2017 não apenas para o seu setor, mas para toda a economia. “O ano passado foi complexo, mas trouxe inúmeras oportunidades”, afirma.

O executivo diz esperar que a equipe de Meirelles, mesmo com uma eventual candidatura presidencial, seja mantida até o fim do governo. Sobre a recente saída de Marcos Pereira do Ministério da Indústria e Comércio (Mdic), considerado um dos “aliados” para a aprovação do Rota 2030, o novo regime automotivo que vai substituir o Inovar-auto, Megale declara que a Anfavea continuará trabalhando com a equipe econômica para que o novo programa seja anunciado até o fim de fevereiro.

Nesse sentido, e sem dar detalhes sobre as mudanças que serão feitas, Megale afirma que o próprio presidente Michel Temer comprometeu-se com o anúncio do programa no próximo mês. Megale salienta, entretanto, que o Rota 2030 é um programa que prevê a organização do setor a médio e longo prazos e que não haverá nenhuma medida protecionista.

Segundo o presidente da Anfavea, o que está previsto é um apoio maior a investimentos em pesquisa e desenvolvimento, estimulando assim projetos relevantes de inovação. Megale, porém, diz não saber se alíquotas do IPI do Inovar-Auto serão mantidas. “O importante é que metas de segurança e eficiência energética serão preservadas até 2022. Ressalto que não podemos ficar sem o Rota este ano, porque todo país que tem uma grande indústria automobilística e um mercado gigante como o nosso precisa de programas desse tipo”, diz ele.

A melhora nos números de produção e venda repercutiu positivamente no nível de emprego das empresas do setor. Os| indicadores subiram 4,6%, passando de 121 mil trabalhadores em dezembro de 2016 para os atuais 126,7 mil.

O aumento dos níveis de emprego levou as montadoras a recontratar os profissionais que estavam afastados, seja pela suspensão temporária de contrato (lay-off), seja  pelo Programa de Proteção ao Emprego (PSE). O projeto do governo federal permite a redução de salários e horas trabalhadas em momentos de retração da atividade econômica, mantendo assim o trabalhador vinculado à empresa.

Pelos dados da Anfavea, em dezembro de 2016 cerca de 9 mil trabalhadores tinham algum tipo de restrição na jornada de trabalho, número que caiu para 1.885 em dezembro de 2017. “Isso mostra a importância desses programas na questão de flexibilidade do emprego. Todos os postos foram preservados”, garante Megale. Houve também um avanço nas vendas de carros elétricos e híbridos em 2017. Apesar de ainda representar em um volume muito pequeno, foram comercializadas 3,3 mil unidades, número três vezes maior do que em 2016.

De acordo com o balanço divulgado pela Anfavea, a indústria virou o ano com um estoque 219,1 mil unidades, número suficiente para 31 dias. No setor, a marca considerada ideal é de 30 dias. Os números positivos vêm de todos os lados. As vendas em dezembro totalizaram 212,6 mil veículos, o segundo melhor resultado do ano. A rápida recuperação da indústria automobilística mostra que não é preciso muito esforço para o setor voltar a acelerar. Basta a economia do país tirar o pé do freio para os carros saírem das concessionárias.

"Achamos que o mercado interno vai começar a dar os primeiros sinais de recuperação mais vigorosa, ainda melhor do que aconteceu este ano e, com isso, vamos continuar aumentando a produção”
Antônio Megale, presidente da Anfavea

A mil por hora

O quadro mostra o aumento das vendas da indústria... (em mil unidades)

2017 2.24
2016 2.05
2015 2.57
2014 3.50
2.013 3.80
Em 2017, crescimento de 9,2% ante 2016

... a alta da produção...

2017 2.70
2016 2.16
2015 2.43
2014 2.70
Em 2017, crescimento de 25,2% em relação a 2016

...e a explosão das exportações

2017 762
2016 520
2015 417
2014 334
Crescimento de 46,5% em relação a 2016
 

Empresas buscam novos mercados

As exportações de veículos bateram o recorde histórico da indústria automobilística em 2017. Foram 724,6 mil unidades, um crescimento de 48% em relação aos 488,8 mil embarcados entre janeiro e dezembro de 2016. Na comparação com 2005, quando foram exportadas 725 mil, a alta foi de 5,1%. Em valores, foram US$ 12,8bilhões, contra US$ 8,9 bilhões em 2016, alta de 44,4%.

“Estamos vivendo uma fase muito boa nas exportações, e isso ajudou bastante no aumento da produção e na geração de empregos”, disse o presidente da Anfavea, Antonio Megale, que aposta em um novo recorde em 2018, com mais de 800 mil unidades exportadas.
 
Edésio Ferreira/EM/D.A Press
 

Em 2018, os resultados positivos serão reflexo também dos acordos de intercâmbio comercial com países da América do Sul. Megale cita o fechamento recente do acordo com a Colômbia, que prevê para este ano uma cota de 25 mil veículos por mês, livres de impostos. Ao contrário de outros anos, Megale diz que a exportação de veículos é um negócio que veio para ficar. As montadoras, cada uma à sua maneira, estão prospectando e abrindo mercados em vários continentes, além da América Latina.

Luiz Carlos Moraes, vice-presidente da Anfavea, diz que alguns fabricantes já estão tentando fechar negócios com caminhões no Oriente Médio e ns África. Mudança de foco em função de um mercado interno menor, câmbio favorável e melhorias tecnológicas nos veículos produzidos no Brasil foram apontados como os principais fatores para a disparada dos embarques, em especial aos países vizinhos que tiveram crescimento econômico. Argentina e Uruguai são os principais parceiros, com mais de 80% do total. Para este ano, a previsão da Anfavea é de exportar 800 mil unidades.

A importação de veículos, tradicional fantasma para as montadoras instaladas no Brasil, também cresceu e já representa 10% das vendas. Para 2018, quando as alíquotas de importação deverão cair bastante, a Anfavea prevê que esse mercado cresça 5%. 
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