Publicidade

Estado de Minas

Edutechs: startups de educação começam a transformar o ensino

Plataformas de educação buscam difundir o conhecimento por meio de experiências, nas quais a tecnologia é ferramenta fundamental. Modelo tende a mudar o papel do professor no processo, que passará a ser o de orientar os alunos para o uso adequado dos avanços


postado em 12/02/2018 08:00 / atualizado em 14/02/2018 12:27

O modelo de educação brasileiro está ultrapassado. Focado na absorção de disciplinas teóricas, por meio de decorar datas e fórmulas, com poucos aspectos reflexivos e críticos ou relacionados à inserção no mercado de trabalho, afasta estudantes das salas de aula. A reversão desse quadro depende da multiplicação de experiências exitosas com o uso de tecnologia,  como as edutechs — startups ligadas ao setor. Com propostas interativas e personalizadas, esse modelo de ensino possibilita que estudantes encarem a didática com outros olhos.

Atualmente, as edutechs representam cerca de 12% do mercado das startups — a maior fatia do setor —, segundo dados da ABStartups, associação que representa o segmento. Para o presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa-DF), Luis Cláudio Megiorin, a tendência é de crescimento desse modelo e de mudança no papel do professor no processo. “Ele vai ser um facilitador e um orientador, neste primeiro momento, para o uso adequado da tecnologia”, analisa.

A educação brasileira ficou em penúltimo lugar em uma lista de 36 países(foto: Arte/CB/D.A Press)
A educação brasileira ficou em penúltimo lugar em uma lista de 36 países (foto: Arte/CB/D.A Press)


A proposta de uma das principais edutechs brasileiras, a Nave à Vela é criar espaços tecnológicos para os alunos por meio de parcerias com instituições de ensino. São salas temáticas, chamadas de “espaço makers”, que proporcionam uma educação baseada na inovação e na interação. “Nada mais é do que um espaço cheio de tecnologia. Tem várias bancadas de trabalho, com direito a impressoras 3D, e os alunos são incentivados a construir projetos”, explica Lucas Torres, executivo da Nave à Vela.

Adaptação

O Brasil na era das edutechs não terá outra alternativa a não ser se adaptar e adotar um modelo que convirja com a quebra provocada pelas startups, avalia Megiorin. Para ele, será preciso mudar a concepção de como as escolas preparam o ingresso dos alunos nas universidades. “Não se pode mais levar para o ensino superior indivíduos que somente detenham o conhecimento instantâneo. Para ir à universidade, tem que ter perfil acadêmico e, por isso, precisamos investir em cursos técnicos e em um modelo no qual as universidades avaliem efetivamente quem se enquadra na educação superior”, sustenta.

A integração entre startups e as instituições de ensino — sejam públicas sejam privadas — pode ser um caminho mais rápido para a revolução que o modelo pode trazer para a aprendizagem, pondera a diretora-técnica do Sebrae Nacional, Heloisa Menezes. “A educação está fincada em um pensamento industrial e linear, que trata todos os alunos do mesmo jeito. É preciso mudar para uma visão não linear, que vê cada aluno com sua capacidade e habilidades diferenciadas. E o uso da tecnologia será um diferencial nessa proposta, ajudando a tratar cada um como cada um”, analisa.

Inadequação

Com propostas tecnológicas que quebram o modelo de ensino atualmente adotado, as edutechs estão promovendo transformações que o Estado e as empresas privadas não conseguem acompanhar. Na avaliação de Torres, da Nave à Vela, isso ocorre porque a maioria das instituições ainda aposta em um modelo ultrapassado. “De gestores de escolas aos pais, é evidente para todos que o modelo de educação que a sociedade concebeu há séculos não se encaixa mais nas demandas do mundo moderno. Temos um modelo de educação do século 19, com professores do século 20 e alunos do século 21”, ressalta.

A proposta da Nave à Vela estimula que crianças aprendam sobre conhecimentos diversos em projetos práticos, como produzir armadilhas para o mosquito Aedes Aegypti, o transmissor da dengue e da febre amarela. “Isso permite a eles lidarem com conhecimentos de biologia, ao estudar sobre como atraí-lo; de estatística e matemática, para lidar com diferentes números de mosquitos ao longo do tempo e tratar esses dados; e geografia, sobre como intervir no espaço urbano para diminuir um problema de saúde”, destaca Torres.

Com o ambiente de projetos, a startup, criada há quatro anos, introduz a dinâmica de construção e a criação no currículo escolar, de maneira que as crianças adquiram uma cultura de inovação. Na opinião do executivo da Nave à Vela, o caminho para educação no país é o da prática. Não o de alunos sentados em sala, anotando conteúdo lecionado por um professor à frente deles. “A educação do século 21 tem dois grandes objetivos. Um deles é entender como o aluno pode aprender conteúdos sem decorar, mas sentindo na prática, fazendo projetos, adquirindo conhecimento experimental”, diz. Outro elemento que ele destaca é a colaboração, o trabalho em equipe, o senso de autonomia e a resiliência dos alunos.

Descoberta de potencialidades

A tecnologia ajuda não somente na aprendizagem, como também na descoberta das próprias potencialidades pelos jovens. A edutech Que Curso, por exemplo, é uma evolução dos antigos testes vocacionais. Para Ricardo Rüppell, diretor da startup,  o serviço oferecido pela plataforma tem impacto significativo na educação. “Aproximadamente 20% da evasão nas instituições de ensino superior são ocasionados pela insatisfação com a escolha do curso. Isso causa prejuízos bilionários, tanto para o setor privado quanto para o público”, explica. Por meio de uma análise profunda das respostas dos jovens, a ferramenta permite orientar os estudantes a cursarem a graduação para a qual realmente têm vocação e interesse.

 

 



O progresso das edutechs e a capacidade do Estado de se adaptar à quebra promovida por essas empresas de tecnologia serão fundamentais, não apenas para a mudança de modelo de ensino, mas também para o desenvolvimento da educação no Brasil. A difusão da inovação e do empreendedorismo exigirá, necessariamente, a participação dos governos.

 

No caminho

De acordo com o Ministério da Educação, as ações para assegurar esse processo já estão sendo adotadas, com o aumento da conectividade das escolas no país, por meio da Política de Inovação e Educação Conectada, programa que reúne um conjunto de diretrizes nacionais que tem o objetivo de capilarizar o acesso à internet de alta velocidade a todos os estados e municípios.

A pasta destaca, ainda, que a integração da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), do novo ensino médio, e do programa do ensino médio em tempo integral devem induzir e alavancar os processos de inovação e de fomento de empreendedorismo dentro do ambiente escolar.

Para o ministério, a determinação da flexibilização do currículo promovida pelo Novo Ensino Médio vai ao encontro do processo de inovação, uma vez que propõe a oferta de diferentes itinerários formativos, incluindo a oportunidade de os jovens optarem por uma formação técnica ou profissional dentro da carga horária do ensino regular. “A perspectiva é ofertar um ensino médio mais atrativo para o jovem, além da liberdade de escolher seus itinerários, de acordo com seus projetos de vida”, destaca. (RC, BSR e LC)

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade