Ceilândia é berço de artistas das mais variadas expressões

A cidade mistura paixão e militância, versos e ritmos

postado em 27/03/2017 06:01 / atualizado em 28/03/2017 10:32

Bruno Peres/Esp. CB/D.A Press


O mundo dá voltas, meu amigo... Quem diria que Ceilândia, surgida no meio da poeira, do barro vermelho e das tábuas velhas vindas de barracos da vila do I.A.P.I, do Morro do Urubu — entre tantas outras localidades esquecidas da capital — se transformaria numa das cidades mais importantes do Distrito Federal. As voltas que o mundo dá, meu amigo...



Hoje, Ceilândia é resolvida, de bem com a vida, apesar das mazelas na saúde, na educação e na segurança... Herança de tantos desgovernos. A cidade resiste e insiste em manter sua principal vocação: LUTADORA! É assim a Ceilândia... E o reflexo disso está justamente na cultura efervescente, de militância mesmo. Cheia de artistas populares que ocupam ruas, praças e palcos.

Rendo homenagem aqui ao poeta principal, o que mais representou e representa as artes ceilandenses: Francisco Morojó, o Pezão, morto em 2003. Amigo de versos, gostava de encantar as mulheres, as “principezas”, com poemas viscerais como este:


Não quero ser

o vigário de sua matriz

nem tão pouco

o operário de sua filial.

Quero ser apenas

uma banquinha de camelô

num ponto bem situado de sua alma,

onde eu possa vender

todos os sonhos...



O paraibano Pezão instaurou, por decreto poético, a conexão direta Conic-Ceilândia. O poeta-alfaiate-nômade criava também batas de algodão cru tão únicas quanto a sua poesia. Ai de ti, Ceilândia, se esquecer o legado de Francisco Morojó...

E, por falar em conexão, basta admirar o cartão-postal da cidade: a caixa d’água coroada de parabólicas. É a Ceilândia globalizada, antenada no mundo. Era ali, desde os primórdios da cidade, segundo o rapper Japão, que os moradores se encontravam, conversavam e se conectavam, enquanto enchiam suas latas de água na bica.

Como do mundo é o pub Garagem Forte Cultura, no P Norte. “Um ambiente completamente diversificado onde o que conta é a boa música, atendimento impecável, pessoas com um papo sadio, seja na música, seja na política. Nada de preconceito, seja de gênero, número ou grau”, destaca Jeff Sena, guitarrista, há 20 anos, da banda Terno Elétrico, uma das principais da cidade.

Sobrevivência

A pegada cultural não para no Garagem Forte, segue pelo Tapera Rock Clube, pelo Túnel do Tempo, pela Casa do Cantador, e se agita ainda mais nos sambas da Comunidade e da Guariba...

“É uma questão de sobrevivência cultural, os nordestinos e os imigrantes de outras regiões chegaram aqui trazendo elementos de seus estados de origem, por isso essa farofa periférica e artística”, diz uma das figuras mais conhecidas da militância cultural da cidade, Emerson Rodrigues da Silva, ceilandense de raiz.

DJ Jamaica também deu seu recado: “Nós, do forró, do rap, do reggae, de qualquer área, somos militantes das antigas. Quantas bandas surgiram e acabaram, e nós estamos aqui, resistindo. Acho que o pessoal que mantém viva a cultura da Ceilândia precisa ser reconhecido. Fazer cultura em Brasília ainda é visto como algo desrespeitoso, de segunda categoria, o que é um erro político e social absurdo. Nós temos nosso valor!”.

Rene Bonfim, integrante de um dos grupos de forró mais conhecidos no DF, o Paraibola lamenta o descaso das autoridades quando o assunto é investir em cultura. “Os grupos de forró, por exemplo, continuam com o pires na mão. E olha que o forró é um dos fortes segmentos da cidade. Precisamos de mais apoio”, argumenta Rene, que também faz parte do grupo Caco de Cuia.

Apesar da falta de recursos, quem visita a Ceilândia tem a sensação de que todo mundo se conhece, se conecta de alguma forma, seja no futebol do terrão, nos bailes charme, no forró, no rap, no reggae e no repente.

Foi no balanço do reggae que conheci Laércio Rubato, o cara à frente da Geração Roots Cei, banda formada por seis integrantes, sendo quatro de uma mesma família. Assim como a linguagem atual do rap, eles levam uma pegada voltada à conscientização social com muito suingue. Para Laércio, “a periferia comporta expressões como o reggae e o rap juntas, uma não tira a legitimidade da outra”.

Com 32 anos de carreira, o cantor e compositor Sérgio Pereira chegou em Ceilândia em 1977, e nunca mais deixou a cidade. Gosta da noite agitada e da variedade artística que encontra. “Quando cheguei aqui, não existia nem o Corpo de Bombeiros do centro. No fim de 1979, início de 1980, me mudei para o P Norte, onde era daquele jeito, ‘poeira ou lama’, os lotes não tinham muros e se enxergava a cidade de uma ponta à outra, sem interrupção da imagem. Até que melhorou bastante de lá pra cá. É assim a minha cidade.”

Sérgio faz parte também da equipe Cine 23, projeto criado para fazer cinema à sua maneira. “Lançamos, ano passado, o filme de média metragem A lição, que está disponível no YouTube. Confira!”

Teatro na praça

Cheios de energia, mas cansados de esperar políticas públicas voltadas às artes cênicas, o Coletivo Barril decidiu partir para o ataque e, a Shakespeare, resolveu ensaiar a céu aberto na Praça do Cidadão.

Camila Helen, coordenadora das oficinas, em parceria com a casa de cultura Jovem de Expressão, na EQNM 18/20, curte esse boom de atores e atrizes na cidade. “O teatro aqui vem ganhando corpo e visibilidade, graças a iniciativas como a nossa, que se espalham por várias regiões. Estudantes de outras cidades fazem cursos com a gente”, afirma a jovem atriz-militante.

São várias cidades numa só, P. Sul, P. Norte, Setor O, Guariroba, QNM, QNN, QNO, QNR, Expansão, Sol Nascente... Cada qual com seu ritmo, com sua identidade... Mas todos conectados de alguma forma.

É assim a Ceilândia, forjada com esperança e luta, muita luta... Evoé! Diró, Sérgio Atitude, Barbarella, Nanci, Chico de Assis, Jamaica, X Câmbio Negro, Williams (do fã clube de Zé Ramalho), o pessoal da Asforró, Sem Destino, Menino de Ceilândia, João Break, Adirley Queiroz e tantos outros nomes de valor!



"Acho que o pessoal que mantém viva a cultura da Ceilândia, precisa ser reconhecido"
DJ Jamaica, rapper



"O teatro aqui vem ganhando corpo e visibilidade, graças a iniciativas como a nossa"
camila Helen, atriz

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