Ex-integrantes de gangue criam centro cultural para afastar jovens do crime

Atualmente, prestes a lançar o segundo livro contando a experiência de anos no Complexo Penitenciário da Papuda, Astro usa uma loja de lanches para atrair os jovens para o caminho do bem

postado em 27/03/2017 06:06 / atualizado em 27/03/2017 11:17

Bruno Peres/Esp. CB/D.A Press


O problema da violência urbana é um entrave para o desenvolvimento social de Ceilândia. Gangues que surgiram na cidade nos anos 1990 ainda se perpetuam e cooptam jovens para o mundo do crime. Mas antigos integrantes de um desses bandos decidiram se dedicar a impedir que a juventude siga por caminhos errados. Após pegar uma pena superior a 10 anos por tráfico de drogas, o grafiteiro Carlos Washington Corrêa, conhecido como Astro, repassa aos mais jovens o mundo sombrio de quem está atrás das grades.

Astro chegou a liderar a gangue Anjos Grafiteiros Escaladores (AGE). Para mostrar poder e influência social, ele e dezenas de moradores de Ceilândia usavam a tinta do spray para marcarem monumentos, como o Memorial JK, ministério e até mesmo o Teatro Nacional. “As pessoas entram no grafite por fama, por respeito na cidade. Os jovens veem o grafite como uma forma de espalhar sua marca pela cidade”, afirma Astro.

Engana-se quem acredita que o único problema da pichação é o dano ambiental. A atividade é uma das portas de entrada para a formação de quadrilhas, uso de drogas, tráfico e até mesmo para homicídios, frutos da rivalidade entre grupos que brigam por espaço.



“Desde a década de 1990, já temos um saldo de mais de 600 mortes de jovens aqui da cidade. A pichação é uma guerra que leva muitas vidas. Muitos veem o caminho da fama, mas só percebem o lado negativo tarde de mais. A morte é uma das consequências de quem entra neste mundo. A AGE perdeu 10 de seus integrantes, que já chegaram a 150. Mas isso foi suficiente para fazer com que ela fosse extinta. Ainda temos, no entanto, outras gangues na ativa”, descreve Astro.

A ligação de Astro com o crime começou a ser rompida com a criação do projeto Picasso Não Pichava, da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal. Na iniciativa, os pichadores desenvolvem seu potencial até chegar ao grafite, arte que é considerada uma evolução.

Atualmente, prestes a lançar o segundo livro contando a experiência de anos no Complexo Penitenciário da Papuda, Astro usa uma loja de lanches para atrair os jovens para o caminho do bem. “Nós queremos transformar isso aqui em um centro cultural. Queremos ensinar para quem está entrando na pichação que ele deve evoluir e chegar até a arte do grafite. Já o livro mostra como é complicada a rotina dentro da cadeia. Queremos levar até o governo a necessidade de investimentos na ressocialização”, completa Astro.

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