Brasilienses usam o ipê para declarações de amor eternizadas em tatuagens

Participe da campanha #BrasiliaCapitaldoIpe enviando os seus registros

postado em 12/09/2015 08:37

Roberta Pinheiro

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Imprimir palavras em papel não seria suficiente. Foi preciso desenhar no próprio corpo para dar forma e cor ao sentimento. “Quis grudar em mim esse amor por vocês, quis mostrar pro mundo que é por vocês que vivo e que sou o que sou (...). Esse ipê é para me lembrar das raízes de onde vim, do que eu sou e no que ainda vou me tornar. Cada assinatura que contém nos galhos só me faz ter força para seguir em frente e crescer como uma árvore. Vocês serão o meu ‘para sempre’ em tudo o que acontecer.” Com esse trecho escrito em uma carta e munida de um quadro com desenho de ipê-amarelo, a administradora Stella Martins de Araújo Meireles, 24 anos, chegou à casa dos avós para avisar o que havia feito: uma tatuagem para homenageá-los. “Mas não briguem comigo”, alertou logo de início.

Em 30 de junho desse ano, ela marcou na pele o amor da família. “Sempre quis fazer algo para eles (avós). Na casa das minhas duas avós tem o mesmo quadro de ipê- amarelo. Além disso, sempre achei a árvore praticamente brasiliense”, explica. Apaixonada por tatuagem — ela tem cinco — Stella viu um dia um desenho de árvore da tatuadora Ana Abrahão em um perfil nas redes sociais. Começou a seguir as postagens da profissional. Com o tempo, a administradora ficou encantada pela qualidade e pelo perfeccionismo do trabalho. Este ano, entrou em contato com Ana e marcou horário. Além do ipê, Stella queria trazer nos galhos da planta a assinatura dos quatro avós — Lena, Marco, Solange e Dilermando, com a letra deles. Ela procurou cartas e bilhetes antigos que os avós tinham enviado à neta. Dali retirou o que queria. Para ter a caligrafia do avô Dilermando, ela precisou recorrer a outra fonte, pois ele já havia morrido.

Depois de um ano de planejamento, sem a família saber, e de três horas de sessão no estúdio da tatuadora, quando a administradora olhou o resultado veio primeiro o susto pelo tamanho da tatuagem, mas, em seguida a admiração pela delicadeza. Um ipê-amarelo florido, com tons alaranjados para destacar na pele, e um coração no tronco. “Simboliza a minha base, o meu chão para o que vou enfrentar na vida e demonstra as minhas raízes brasilienses. Está gravado em mim”, afirma Stella.

Reação

Feita a tatuagem, era hora de mostrar aos homenageados. Com o quadro e a carta, Stella foi visitá-los. Quando viu, a vó Lena chorou e abraçou a neta. O avô Marco, que não é fã de tatuagens, leu primeiro a carta. “Depois disse: ‘Que feio’. Quando olhou direito e viu a assinatura, disse: ‘muito obrigado, mas não precisava dessa homenagem’”, relembra a administradora aos risos. Na segunda casa, a preparação foi um pouco maior, mas, ao ver a caligrafia do marido, a avó Solange não escondeu a emoção. “Estou honrada”, afirmou. Agora, Stella já pensa na próxima tatuagem. Desta vez, em consideração aos pais. “Provavelmente, será inspirada na Sagrada Família”, conta. Com mudança para a capital paulista marcada para amanhã, a administradora sabe que terá sempre ao seu lado a força da família.

Sem se conhecerem e hoje vivendo em cidades diferentes, a administradora Stella e a cientista política Thaís Frabetti, 23 anos têm muito em comum. As duas trazem nas costas um ipê como memória da família. E no caso de Thaís, a inspiração também veio de uma das avós. “Escolhi desenhar a planta porque tem um significado para a minha família. O sítio, no interior de São Paulo, em que minha avó cresceu, tem um ipê plantado”, justifica. “Além disso, é uma árvore muito comum em Brasília. Acho que não tem como ver um ipê e não lembrar a capital toda florida na época da seca”, complementa.
Em 2013, Thaís concretizou o desejo antigo. Uma amiga fez a ilustração e o tatuador adaptou. Junto da árvore roxa, escreveu “Acalentou meu coração para a vida”, em francês. Uma frase do filme Escafandro. “Adorei o resultado, fiquei bem satisfeita. Foi minha primeira tatuagem e sempre lembro a minha família quando vejo”, declara. Thaís está no Canadá fazendo pós-graduação e, quando bate a saudade de quem ficou em território brasiliense, a tatuagem não deixa de ser um refúgio. “Minha família amou. Eles ficaram bem emocionados”, relembra.

“Ipelândia”

Quem escolhe o ipê para tatuar pretende mostrar ali as suas origens. “Gosto muito de viajar. Mas, onde quer que eu esteja, Brasília será sempre o meu lar”, justifica a assessora de imprensa Daniela Coelho, 30. Há um ano, ela tatuou a árvore no braço direito. O marco foi a volta de um mestrado que fez em Londres. Daniela poderia ter recorrido aos traços de Oscar Niemeyer ou aos desenhos de Athos Bulcão, mas preferiu a planta. “Trabalho no Setor Bancário há 10 anos, aqui vejo uns ipês lindos. Além disso, desde que nasci acompanho os ciclos da árvore. Esteticamente, acho muito bonito, além de ser diferente”, afirma. Inclusive, ela apelidou o local perto do trabalho de Ipelândia.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

Com um desenho de aquarela feito por um tatuador de São Paulo, Daniela encontrou a sua maneira de celebrar a cidade. “Ele quis fazer mais alongado. Ficou com a interpretação dele, digamos que teve uma licença poética, mas adorei o resultado”, conta a assessora. Ao todo, ela tem oito tatuagens. Cada uma com um significado e com uma lembrança de um momento da vida. O ipê, mesmo não sendo exclusivamente de Brasília, é a cara da cidade. “Eles (ipês) ainda florescem na seca, época que você acha que não traz vida, mas é o contrário. Também tem isso de lembrar a superação de obstáculos, a renovação de ciclos”, comenta.

Para os tatuadores e ilustradores, a inspiração está na janela ao lado. “É diferente tatuar ipê; é uma árvore que só se destaca em determinada época do ano e que remete à questão da natureza, de que eu gosto muito. Também acho que tatuar a árvore na galera de Brasília é uma forma de prestigiar a cidade fugindo das homenagens clássicas”, diz o tatuador Pablo Hermano, 35 anos. Na maioria das vezes, a ideia já vem do cliente, mas a opinião do profisisonal, se a pessoa está indecisa, é fundamental. “Eu, por exemplo, não faço tatuagem realista, então, nesse caso, seria difícil reproduzir a foto de um ipê. Meu estilo é mais lúdico e trabalho com pontilhismo e rachaduras, então está dentro do meu trabalho e usando essas técnicas é mais tranquilo”, explica.

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A campanha do Correio Braziliense, lançada em parceria com a TV Globo Brasília, tem registrado os melhores ângulos da árvore mais conhecida — e para muitos, a mais bela — do cerrado. Desde 18 de julho, leitores e telespectadores podem marcar suas imagens. Ao fim, um caderno especial no Correio e um vídeo na TV Globo Brasília vão celebrar aquelas que melhor souberam captar a essência desse símbolo brasiliense. O leitor ou telespectador pode identificar as fotos dos ipês nas redes sociais para participar com a hashtag #BrasiliaCapitaldoIpe. Outro canal é por meio do site www.correiobraziliense.com.br/BrasiliaCapitaldoIpe. Aqueles que usam o aplicativo de mensagens WhatsApp também podem enviar as imagens.

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