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Desafios para 2017 Desafios para 2017 Desafios para 2017 Desafios para 2017

Henrique Meirelles reconhece que houve frustração após a posse de Temer

Meirelles confessou ter enfrentado "muito ceticismo", dentro e fora do país, quando assegurava que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que limita o aumenta dos gastos à inflação do ano anterior seria aprovada ainda neste ano no Congresso, como de fato ocorreu em 13 de dezembro

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Minervino Junior/CB/D.A Press
 

Apesar de atravessar “a maior recessão da sua história”, fruto “de uma crise doméstica”, que gerou um “avassalador” deficit fiscal de R$ 170 bilhões neste ano, o Brasil deve assistir a uma sacudida na economia em 2017, com a retomada do emprego a partir do meio do ano, e crescimento da atividade a partir de 2018. O prognóstico foi feito pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ao participar do Correio Debate — Desafios para 2017, promovido na última quarta-feira, 14, pelo Correio Braziliense.


“Estamos num processo difícil, mas bem-sucedido”, disse Meirelles, preocupado em detalhar os motivos pelos quais a atividade econômica ainda não deslanchou, deixando a sensação de frustração geral na sociedade. “Muitos esperavam que, com o aumento da confiança no país, a recuperação seria imediata e nós já estaríamos crescendo fortemente. Por que isso não aconteceu ainda?”, perguntou. E respondeu: “Houve demora no enfrentamento da crise atual”.


Segundo Meirelles, no mundo inteiro, o padrão é a crise ser debelada ao se tomar medidas adequadas rapidamente. “O país  se recupera e pode retomar o crescimento rápido”, frisou. A crise brasileira teve início no fim de 2014 e só começou a ser combatida, de fato, no fim de 2016. Quase dois anos de crise. “E isso é um problema, porque muitas empresas já foram afetadas, liquidadas, em recuperação judicial e com demissão em massa”, continuou.


O ministro foi enfático: “A reorganização empresarial e do parque produtivo não acontece do dia para a noite. É um processo mais lento”. Na avaliação dele, “as famílias ficaram muito endividadas e, num primeiro momento, elas procuram diminuir as dívidas e não consumir”. A boa notícia é que “o nível de endividamento das famílias está caindo, mas ainda não voltaram a consumir por cautela. Então, ao longo do tempo, a demanda vai crescer”.

 

Pacote

Outros economistas presentes ao debate reafirmaram a tese apresentada pelo ministro, no sentido de que, antes de 2014, houve uma forte expansão do crédito no país. Em função disso, a crise teria pego empresas e famílias fortemente endividadas, e o desemprego agravou as dificuldades em saldar financiamentos bancários, por exemplo.

 


“Não devemos fugir da realidade. E a realidade é a seguinte: nós estamos na maior recessão da história do país. E temos que enfrentá-la”, prosseguiu Meirelles. Ele citou que, no passado, “já se fez esforços fiscais no Brasil, com cortes temporários de despesas e aumentos permanentes de impostos”. Mas o deficit só cresceu. Entre 2008 e 2015, as despesas públicas aumentaram 56,6% (acima da inflação), enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 18%.


Na avaliação do ministro, a estimativa do deficit fiscal deste ano para R$ 170 bilhões, em sua opinião “não é apenas alto, é enorme, avassalador”, levou em conta uma série de despesas que não tinham dotação prevista no Orçamento da União. Isso inclui aluguéis em atraso de embaixadas no exterior e contribuições atrasadas a organismos internacionais, cujos representantes lhe apresentavam a cobrança e, “embaraçadamente”, ele verificava que não tinham previsão de pagamento orçamentário.


“A vantagem, a partir do deficit realista, foi o aumento da confiança, permitindo que o país voltasse a se recuperar”, disse Meirelles. Ele assegurou que o país já se encontra “num processo de superação dessa crise. E as previsões são unânimes de que o Brasil vai crescer durante o próximo ano, principalmente quando medirmos trimestre contra trimestre”. O ministro ressaltou que a estimativa da equipe econômica é de expansão  de 2,8% do PIB no último trimestre de 2017, comparado ao último trimestre de 2016.

Ceticismo

Meirelles confessou ter enfrentado “muito ceticismo”, dentro e fora do país, quando assegurava que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que limita o aumenta dos gastos à inflação do ano anterior seria aprovada ainda neste ano no Congresso, como de fato ocorreu em 13 de dezembro. “Uma vitória extraordinária”, saudou. A limitação das despesas do governo por até 20 anos foi crucial para o governo estancar a gastança e focar, agora, em medidas microeconômicas, “de simplificação da vida das empresas, das pessoas”, para aumentar a capacidade do país em produzir e para crescer com maior velocidade.

 


“É a primeira vez, em 28 anos, que se limita constitucionalmente o crescimento do gasto público no Brasil”, afirmou o ministro. “Não estamos apenas fazendo mudanças na área fiscal, que é a base. Estamos indo além, se não, continuaríamos caminhando de uma crise para outra com insegurança”, justificou. Na visão dele, as medidas para ajudar a desimpedir a produção, como a renegociação de dívidas tributárias pelas empresas anunciada na última quinta-feira, já estavam em estudo, aguardando apenas o sinal verde na limitação de gastos públicos. Para ele, é vital reduzir o excesso de burocracia para destravar iniciativas nos negócios. “O Brasil precisa facilitar a vida dos brasileiros”, arrematou.


Segundo estudos do Banco Mundial (Bird), com o qual o governo fez convênio para tocar as novas medidas, o Brasil ocupa o 120º lugar num ranking sobre capacidade de empreender (doing business). “Pela primeira vez estamos enfrentando isso diretamente”, afirmou Meirelles, que garantiu: “o programa de ajuste segue normalmente, sem interrupções e sem soluços, e, com certeza, será bem-sucedido”, a despeito da instabilidade acirrada pela crise política. O objetivo do governo de Michel Temer para 2017 é a recuperação da economia, com a consolidação do ajuste fiscal, estabelecendo as bases para o avanço dos anos seguintes. “Esperamos o avanço gradual do crescimento nos próximos anos”, reiterou.


Diante das tímidas previsões de crescimento dos analistas financeiros para o ano que vem, Meirelles concordou que não se pode esperar um dinamismo muito forte, não num primeiro momento. “Como nós caímos muito neste ano, a recuperação parte de um ponto muito baixo”, ponderou. Mas o país encontra-se num processo de saída da crise, assegurou o ministro, com confiança dos investidores e dos empresários, com inflação em queda e sinais de retomada do crescimento.


“Existe um provérbio chinês, cujo ideograma é o mesmo para crise e para oportunidade. Acho que pode ser uma inspiração para nós brasileiros, porque a crise que vivemos pode ser uma oportunidade para uma mudança histórica e para construirmos um Brasil melhor”, mencionou. No entender dele, 2017 certamente será, substancialmente, melhor do que este ano. “E, o mais importante, é que terminaremos o próximo ano crescendo, vivendo num ambiente e num clima completamente diferente, com muito mais otimismo, fisionomias muito mais sorridentes”. (Especial para o Correio)

 

 

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