Maternidade assistida: mães cuidam dos bebês prematuros dentro da UTI

A experiência de ter um bebê é sempre um momento singular. Para algumas mulheres, no entanto, ganha alguns predicados a mais. Elas não puderam levar seus bebês prematuros para casa e tiveram que aprender, por um tempo, a serem mães dentro da maternidade

postado em 03/05/2015 09:44 / atualizado em 03/05/2015 10:27

Olívia Meireles - Especial para o Correio /Especial para o Correio

Zuleika de Souza/CB/D.A Press


Os meses de gestação são recheados de ansiedade, expectativa e devaneios deliciosos. A mãe imagina como será a carinha do bebê, planeja o primeiro dia em casa, fantasia os afagos na hora de dormir e idealiza como será a vida com aquele novo ser. Para 90% das mulheres, esses sonhos — e outros tantos — serão realizados, bem próximo do planejado. Mas para as 10% restantes, essas fantasias serão adiadas ou nunca concretizadas. Bebês prematuros; múltiplos; portadores de alguma infecção; com problemas de desenvolvimento no sistema cardíaco, neurológico ou digestivo podem sair direto da sala de parto para uma incubadora na UTI neonatal. Muitas vezes, sem ao menos as mães terem a chance de trocar olhares com o recém-nascido. Aquela desejada maternidade deixa de ser vivenciada a dois para se tornar uma experiência assistida por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos e uma enorme equipe hospitalar.

Em instantes, o instinto maternal nutrido durante meses é substituído por uma intensa luta por sobrevivência da mãe e do filho. As conversas sobre cremes de assadura e mamadeiras dão lugar a explicações complicadas de procedimentos médicos. Não há como determinar quando os pequenos, que chegam a pesar 600 gramas, vão receber alta. Eles podem ficar poucos dias ou muitos meses internados, a depender da gravidade do problema e do tempo da prematuridade. Por isso, não há como respeitar o resguardo pós-parto, normalmente realizado por meio de cesariana.

As novas mamães precisam, e querem, estar ao lado de seus filhos para vencer uma etapa da vida que, na maioria das vezes, não estava programada. "Ninguém passa pela experiência de ter um filho recém-nascido internado sem se tornar mais humano", analisa Marisa Decat de Moura, coordenadora do serviço de psicologia da rede MaterDei em Belo Horizonte.

As marcas dessas histórias estão visíveis nas linhas de expressões do rosto e nos olhos, constantemente cheios de lágrimas, das mulheres que, algum dia, moraram dentro de uma unidade intensiva com um recém-nascido. Todas elas sabem a data exata da internação e da alta e, exatamente, a quantidade de dias que foi preciso para a recuperação do seu bebê. Algumas calculam até o número de horas de internação. Além disso, listam, sem hesitar e em ordem cronológica, todos os procedimentos realizados. Mas não são capazes de dizer o que aconteceu fora daquele mundo, durante aquele período. Enquanto o tratamento dura, o universo de máquinas apitando, sondas e tubos resumem a vida daquelas mulheres.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

Para a empresária Ana Carolina Gema, 33 anos, foram 384 horas,ou 16 dias. O pequeno Renan nasceu com 32 semanas, 40 centímetros e 1,7 quilos quando o normal seria 40 semanas, 50 centímetros e 2,5 kg. Por isso, saiu da barriga da mãe, há seis meses, direto para a mão da médica neonatologista. Dentro da Unidade de Tratamento Intensivo, ela recorda os piores e os melhores dias da sua vida. Foi lá onde ela viu, pela primeira vez, o seu desejado filho, mesmo que dentro da incubadora. Foi naquele local onde ela pegou nele pela primeira vez, apesar dele estar preso a uma sonda que limitava a movimentação e, também, ali na UTI, foi onde trocou a fralda e a roupa dele pela primeira vez, ainda que contasse com a ajuda de três enfermeiras.

"A sensação de voltar para casa sem ele sempre vai ser o pior sentimento que eu já senti. É pior do que escutar o barulho do apito do monitor de frequência, ou lembrar da sensação da luz vermelha do oxímetro no pé dele e da imagem da sonda gástrica que saía do nariz", relembra, emocionada. "O sabor sempre será agridoce. Ninguém quer ver uma criança naquela situação, mas, ao mesmo tempo, foram os primeiros momentos com o meu filho. Me encontrava radiante com o nascimento dele, mas estava concentrada em tirar ele dali e viver a vida que tanto sonhei com ele. Aquilo parecia uma pausa na nossa história que ainda estava para ser vivida."

Leia a reportagem completa na edição nº 520 da Revista do Correio.

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