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Walter Carvalho

Crítica de Um filme de cinema: A inquietude (in)compreendida

Leia a crítica do longa-metragem de Walter Carvalho

postado em 17/09/2015 07:34

Diego Ponce de Leon

A partir da indagação “por que você faz cinema?”, Walter Carvalho conduz 14 entrevistas com nomes significativos da chamada sétima arte — termo que o documentário parece refutar. Em Um filme de cinema, além de dar voz a diretores com quem trabalhou, Walter convoca cineastas consagrados para adentrar um debate — por vezes com ares filosóficos — acerca do cinema.

Não se trata de uma homenagem, vale ressaltar. E a expectativa de que o longa sirva como tal pode frustrar o espectador. Trata-se, em linhas gerais, de provocações, de reflexões sobre a natureza da tela, das lentes, do trabalho. Ou seja, Walter não se propõe a responder perguntas, mas a ampliá-las.

No decorrer do longa, Walter extrai depoimentos latentes, que alternam entre o melancólico e o sublime. Entre as entrevistas, o húngaro Béla Tarr se destaca pela expressividade. Propositalmente registrado em preto e branco — de forma a relacioná-lo com sua obra, sempre em tons de cinza — Tarr diz não saber nada sobre o ofício, após três décadas de cinema, mas fala com propriedade sobre algumas escolhas.

Entre as confissões, é belo escutá-lo discorrer sobre as tomadas longas e o quanto elas se mostram fundamentais na concentração do ator e, consequentemente, em uma entrega natural. “Não gosto do artifício da atuação. Prefiro que a pessoa simplesmente seja”, diz.

Entre as memórias afetivas, nosso cânone Ariano Suassuna traz um momento de descontração ao lembrar a primeira experiência em uma sala de projeção, quando assistiu ao “pior filme” da sua vida. Por outro lado, Héctor Babenco recorda uma “remota lembrança” ao evocar uma película que assistiu aos 6 anos de idade e que, talvez, tenha resultado em sua primeira masturbação. Confissões que podem surpreender um espectador virgem (em termos de cinema), mas que não assustam os iniciados, acostumados à franqueza (por falta de outra palavra) de Babenco.

Próximo ao fim, uma celebração ao clássico italiano Cinema Paradiso. Uma opção sentimental de Walter, que deve desagradar os críticos mais convencionais, mas que certamente dialoga com o público. Principalmente, com aqueles que não costumam optar pelo documentário ou por trabalhos ditos experimentais. E é fundamental estabelecer essa relação e, de alguma forma, aproximá-los.

Há ainda a objetividade de José Padilha, a viagem transcendental de Ruy Guerra, a sobriedade de Lucrecia Martel... que reagem aos questionamentos de Walter. Mas não espere sair da sala com resoluções. O objetivo nunca foi esse. O próprio Walter afirma que “a arte não é feita para alcançar sua expectativa. A arte é feita para estimular o que você não enxerga”. Em Um filme de cinema, ele honra o pensamento e nos abre um pouco mais os olhos. Mesmo que eles continuem entreabertos.

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