publicidade

Festival abre espaço a documentários que retratam a realidade feminina

No ano passado, a curadoria recebeu críticas sobre a baixa representatividade da mulher, além do caráter misógino de algumas produções

postado em 21/09/2016 07:00 / atualizado em 21/09/2016 10:53

Rebeca Oliveira /

Mira Filmes/Divulgação

Empoderamento feminino. O segundo dia de exibição da 49ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro tem como marca o debate em torno de questões contemporâneas femininas, como a luta pela liberdade sexual e pelo fim do assédio, e da cultura do machismo. Curiosamente, no ano passado, a curadoria do evento foi criticada pela baixa representatividade feminina entre os longa-metragens eleitos para compor a mostra.

As críticas também recaíram sobre o caráter misógino de algumas produções. A resposta veio um ano depois com a mostra A política no mundo e o mundo da política, na qual está incluso o filme Sexo, pregações e política, de Aude Chevalier-Beaumel e Michael Gimenez. O documentário questiona o conservadorismo da sociedade brasileira em relação à sexualidade, além de expor mortes em decorrência de aborto ilegal e assassinatos de transexuais (o Brasil lidera o ranking de países que mais matam pessoas trans, segundo pesquisa de ONG europeia).


Outros dois documentários também lidam com tabus, especificamente ligados à liberdade feminina. O longa Precisamos falar do assédio, de Paula Sacchetta, tem première nacional no festival e documenta as agruras que permeiam a realidade feminina. Na semana da mulher — de 7 a 14 de março —uma van-estúdio estacionou em nove locais de São Paulo e do Rio de Janeiro para ouvir os relatos de mulheres vítimas de algum tipo de assédio. O formato nômade tinha por meta facilitar o acesso de quem quisesse falar. Ao todo, 140 mulheres se sentiram motivadas.

A equipe escolheu 26 depoimentos. Eles demonstram a heterogeneidade que circunda esse tipo de crime, muito comum nas periferias aos bairros de elite, com adolescentes de 14 anos a senhoras de 85 anos, dentro de casa ou em praça pública. Máscaras criadas pela artista plástica Juliana Souza foram disponibilizadas para quem não quisesse se identificar. “Não queríamos desfocar o rosto delas, como as televisões fazem com criminosos. Isso também foi uma escolha. Queríamos marcar os motivos pelos quais elas não falam sobre isso. Elas têm medo, vergonha, se entristecem”, relembra a documentarista Paula Sacchetta.

Na corrente de debates nascidos na internet e que ganharam força no ano passado, como as bem-sucedidas campanhas virtuais #meuprimeiroassédio, #meuamigosecreto e #agoraéquesãoelas, o documentário também se alarga, com presença on-line. Trata-se de um projeto transmídia que, além do filme, conta com site www.precisamosfalardoassedio.com, no ar a partir de hoje, no qual é possível assistir a todos os depoimentos. Há, ainda, espaço para que outras pessoas mandem os seus relatos. “É algo que sabemos que aconteceu com você como mulher e com 100% de suas amigas. Fiquei surpresa quando vi um post da minha mãe. Ela nunca havia conversado comigo sobre isso”, conta a paulista.

Depois da pré-estreia na capital, o filme ganhará um formato de exibição para além do convencional: será projetado em prédios e espaços públicos de todo o país, a começar pelo Mirante 9 de Julho, em São Paulo. 

Machismo 
A cineasta recifense Dea Ferraz também optou por investigar o lugar da mulher em uma sociedade marcada por comportamentos patriarcais e machistas, em Câmara de espelhos. Convidados a participar de uma espécie de jogo, 14 homens, divididos em dois grupos, se reúnem em uma enorme caixa-preta ambientada como uma sala, em conversa informal que emula os famosos papos de botequim. O projeto começou a ser produzido antes da “Primavera das mulheres”, como ficou conhecido o movimento político gestado a partir de uma mobilização social, com grande força na internet no ano passado. “Ele nasce do desejo pessoal, claro e simples, de entender como os homens percebem a imagem feminina. Estamos mal”, evidencia.

Pesquisadora de linguagem documental, Dea realizou as filmagens em 2013 com homens, entre 18 e 80 anos, selecionados por um classificado de jornal. Eles sabiam que estavam participando de um documentário, mas desconheciam o teor da película. Além da temática, a produção de Ferraz se aproxima da de Paula Sacchetta pela técnica escolhida, que os teóricos chamam de filme-dispositivo. “Precisamos falar do assédio trata da violência explícita, física, enquanto o meu fala da violência implícita, do discurso, da mesa de bar, de casa, da rua. Mostramos a naturalização da violência. O que o filme faz quando recorta e coloca esses homens dentro de uma caixa-preta é entender a realidade que está por trás deles. A provocação existente é: você está dentro ou fora da caixa?”, elucida.

“Quando os homens estão juntos, é quase como se existisse um código de referenciamento. Eles se permitem falar qualquer coisa na frente um do outro, e não contrapõem absurdos. É o código dos machos, que permite eles falarem o que quiserem, mesmo sabendo que estavam sendo filmados. Não queria personificar o machismo neles. O problema não são eles, eles só representam a caixa social desse problema”, enfatiza a realizadora, que salienta: “Mas eles são os opressores e nós somos as oprimidas. A balança desequilibra e esses lugares precisam ficar claros. Nota-se que tudo passa pela sexualidade da mulher. A nossa liberdade sexual é um problema. Enquanto é para o bel-prazer, para a fantasia e o olhar masculino, tudo bem. Mas se ela resolve se empoderar, ela é a puta, não é permitido”, comenta.

PROGRAMAÇÃO

Sexo, pregações e política, de Aude Chevalier-Beaumel e Michael Gimenez. Às 15h, no Cine Brasília (EQS 106/107 Sul). Debate, após o filme, no foyer do Cine Brasília Entrada franca. Não recomendado para menores de 10 anos.

Câmara de espelhos, de Dea Ferraz. Às 17h, no Cine Brasília (EQS 106/107 Sul). Entrada franca. Livre para todas as idades.

Precisamos falar do assédio, de Paula Sacchetta. Às 19h, no Cine Brasília (EQS 106/107 Sul). Entrada franca. Não recomendo para menores de 18 anos.


Duas perguntas /Paula Sacchetta 

Mira Filmes/Divulgação

Ouvir casos de 140 mulheres assediadas deve ter sido missão difícil. Como se blindou para encarar matéria-prima tão delicada? 
Trabalho com documentário e escolho temas que me movam. Eu sempre acho que sou mais forte do que sou de verdade. Eu vou, faço, e depois desabo. Foi duro. Não podíamos, impunemente, colocar a van na rua e pedir “entre, conte seu depoimento e vá embora”. Uma pessoa da Secretaria de Política Pública para Mulheres oferecia encaminhamento psicológico e jurídico. Essa pessoa ficava do lado de fora da van. Eu e as meninas da produtora as colocávamos e tirávamos lá de dentro. As mulheres ficavam sozinhas, não tinham ninguém fazendo perguntas. Algumas estavam em prantos. Eu estou envolvida com o tema, mas não sou psicanalista, acolhia da forma que podia. Filmei durante sete dias e depois fiquei 10 dias de cama, tive caxumba, com quase 30 anos, por consequência das gravações. Você não passa impunemente por essas histórias de violência.

Qual o direcionamento quis imprimir à película, uma vez que  não houve interferência sua nos depoimentos? 
Ele é claramente um documentário de dispositivo. Fizemos essa escolha, não estou lá dentro, entrevistando, pautando, direcionando. Deixá-las livres e que entrasse uma de cada vez foi uma escolha e já me posiciono nisso. Na hora da edição, com 140 depoimentos, de 12 horas, tivemos que transformar em 80 minutos. Escolhemos todos os tipos de mulheres. E também todo tipo de assédio, que vai do fiu-fiu na rua ao estupro por meio de familiares. Escolhemos um fim, um corte final depois de cinco alternativas. De um lado, a gente naturaliza, e quando houve pessoas conhecidas contando se liga de que aquilo era violento, sim. Depois da exibição de cabine, mostrei-o às meninas que estão no filme. Assistimos juntas. Pensei que seria um salve-se quem puder, que muitas iam pedir para serem retiradas do filme, fiquei até com medo de perder o material por completo. A primeira coisa dita foi: obrigada. Uma delas me disse que se sentia transparente, totalmente exposta, mas em um sentido de acolhimento.

Duas perguntas / Dea Ferraz 

Trago Boa Notícia / Divulgação

Você vislumbra em Câmara de Espelhos um instrumento político? 
Acho interessante pensar que a ideia nasça em 2012 e em 2016 venha para o público, em um momento em que cada vez mais se torna urgente falar sobre isso. A gente sempre faz um filme esperando que ele chegue nas pessoas, refletindo sobre o mundo que vivem, a vida que levam, as coisas que fazem. O desejo é que as mulheres percebam essa violência e que tentem combatê-la. E os homens que possam se localizar, e optem por não querer fazer mais parte disso. Não sabemos o espaço que o filme terá, mas o desejo é que ele adentre rodas de diálogo, nos espaços de discussão e pensamento, quero que os movimentos feministas se apropriem dele para usar como ferramenta de pensamento.

Depois de muito discutido o machismo na indústria cinematográfica, o cenário mudou?
Essa representação cinematográfica da mulher pode trazer uma nova configuração social. Ha uma mobilização muito forte para tratar da mulher não só por trás, mas na frente das câmaras. Faço parte de um movimento, o Coletivo Mulheres do Audiovisual de Pernambuco. Estou engajada, são mais de 100 mulheres e, de repente, começamos a nos reconhecer, a nos perceber. Quando nos vemos coletivamente, ficamos mais fortes. Vamos começar a problematizar essas questões, o espaço da mulher em todas as frentes. Que é imagem é essa da mulher que estamos falando? Não apenas é importante, como é um desafio. O cinema é, majoritariamente, feito por homens. Esse sempre foi o olhar do homem sobre a mulher, só reforçamos essa ideia da musa, da sexualidade. Precisamos reconstruir esse olhar. É um desafio, e um desafio maravilhoso.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias Veja Mais

* * *