Onde os fracos não têm vez

Documentário sobre Jean Wyllys estreia no Festival de Brasília e merece crítica à altura

postado em 24/09/2016 11:47 / atualizado em 24/09/2016 11:55

CaueAngeli/Divulgacao

>> Crítica // Entre os homens de bem 

Diego Ponce de Leon 

O capítulo final de Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, lembra-nos que, “circunstancialmente, entre posturas mais urgentes”, a gente deve se permitir observar o “movimento do sol e das chuvas e dos ventos”. Foi esse apelo que me bateu enquanto assistia ao documentário Entre os homens de bem, de Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini. Uma pausa por entre debates, discussões e diálogos recorrentes, reais e midiáticos que, ferozmente, julgam-se urgentes. Jean Wyllys vive uma tempestade constante. É necessário observá-lo de longe, com calma. Sem nos apegarmos aos discursos inflamados. O longa nos convida a essa perspectiva e surpreende pela generosidade. 

Seria previsível deduzir que estamos diante de uma peça publicitária, voltada a propagar as propostas do parlamentar em caráter explicitamente eleitoreiro. Previsão equivocada. Logo no começo do longa, a parte mais representativa da bancada evangélica do Congresso diz, com todas as letras, o que pensa sobre Jean Wyllys. E não são palavras de afeto. 

Esse cuidado em abrir o contraponto permeia todo o documentário. Certa hora, é possível inclusive imaginar que aqueles que não compactuam com Jean possam também enxergar representatividade nas telas. Os registros, descobre-se, não buscam uma publicidade panfletária do deputado. Mas uma vontade de dissecá-lo. Mostrar Jean debaixo dos panos, debaixo dos ternos, debaixo dos banhos de terreiro. E deixar ao espectador a liberdade de abarcá-lo ou rejeitá-lo. 

A direção sóbria de Carlos Juliano e Caio Cavechini, e a direção de fotografia de Caue Angeli, acertam na distância que estabelecem com Jean. Aproximam-se quando interessa, mas se afastam quando percebem o risco de intervir. A quebra de imagens e a difícil tarefa da montagem entregam um mosaico digno da figura do deputado. 

Talvez, os cineastas pequem apenas no excesso de confiança. Algumas "verdades" infundadas que pesam sobre o deputado mereciam melhor réplica. Não por uma questão partidária, mas em caráter de esclarecimento. Assim como sequências despropositadas – que talvez façam sentido apenas para quem frequente o Congresso – mereciam a dispensa. 
 
Nada que desabone o valor da obra. Ao escancarar a realidade preconceituosa, patriarcal e segregadora do Congresso Nacional, Entre os homens de bem oferece uma metáfora irrefutável do cotidiano civil. Mas, do lado de cá, não há decoro parlamentar ou polícia legislativa. A agressão moral e verbal que ocupa a Câmara dos Deputados ganha formas físicas fora da Praça dos Três Poderes. O menino Alex, de 8 anos, que o diga (embora ele não possa mais dizê-lo). 

Faz-se necessário um Jean Wyllys para garantir que garotos possam lavar louça, usar saias e passar batom, se assim desejarem. E quem o diz não sou, nem o filme, mas uma senhora que se sentou ao meu lado durante a sessão. “Como é engraçado isso do conhecimento. Eu não gosto do Jean. E vim ver esse filme para me certificar disso. E encontrei outra pessoa”, revelou a senhora, que assumiu ter se indignado com a violência contra os homossexuais diagnosticada no documentário. “Homofobia não é um mito”. 

Antes da sessão, conversei com um dos realizadores sobre o propósito daquele trabalho. Carlos Juliano não hesitou: "Acredito que conseguimos fazer um filme que aborda a gravidade do avanço do conservadorismo e do fundamentalismo religioso no Brasil, sem fazer propaganda gratuita do Jean". Pois eu vim confirmar o feito. 

*Diego Ponce de Leon é jornalista, crítico e colunista do Correio Braziliense 

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