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Filhos de fundadores do Cinema Novo têm os pais como figuras inspiradoras

Alice de Andrade começou a trabalhar no cinema ao lado do pai aos 15 anos

postado em 26/09/2016 07:30 / atualizado em 25/09/2016 20:25

Nahima Maciel

Filmes do Serro Ltda/Divulgação


Às vezes, Alice de Andrade se questiona sobre o próprio esforço para manter viva a obra do pai. Joaquim Pedro de Andrade é um dos fundadores do Cinema Novo, mas como era muito discreto, pouco extrovertido e bastante modesto, não aparecia tanto. “Hoje, quando se fala em Cinema Novo, quase não se lembra dele”, lamenta Alice. Com o pai, ela aprendeu a ir ao cinema e a estudar os filmes à exaustão. E para o pai, ela brigou pelo restauro de 14 filmes hoje protegidos e guardados em cinematecas no exterior. O legado de Joaquim Pedro para Alice foi um aprendizado que começa atrás das câmeras e segue pela vida afora. Já para Eryk Rocha, o contato com a obra do pai começou aos 11 anos. A herança, ele acredita estar entranhada no seu modus operandi. Glauber Rocha ajudou a fundar um estilo de fazer cinema que inspira Eryk até hoje. Filhos de diretores fundamentais para a noção de um cinema brasileiro, Alice e Eryk são também herdeiros de uma obra concreta que ajudaram a ajudam a preservar e divulgar.

Realizadora de três longas e 14 curtas, Alice de Andrade começou a trabalhar no cinema ao lado do pai aos 15 anos, como assistente de câmera em filmes de publicidade. “Para ganhar dinheiro”, lembra. “Ele era uma pessoa que tinha muita fantasia, era muito generoso, muito querido”. O vírus mesmo, ela só contraiu aos 18, durante as filmagens de A floresta das esmeraldas, de John Boorman. Alice era responsável por selecionar os figurantes. Andava pela rua com cartões e câmeras, numa época em que o contato era feito por fax.

Como assistente, ela trabalharia ainda ao lado de Ruy Guerra, Murilo Salles, Cacá Diegues, Walter Lima Jr. e dos franceses André Téchiné, Sophie Tatischeff e Olivier Assayas. Ao mesmo tempo, estreou na direção nos anos 1990 e, em 1994, ganhou os prêmios de melhor roteiro e melhor direção no Festival de Brasília com Dente por dente, um curta com Ney Latorraca e Evandro Mesquita. Em 2004, ela dirigiu o Diabo a quatro e, em 2010, o documentário Memória cubana.

A diretora tem ligação especial com Cuba e com a França. Na ilha caribenha, ela estudou cinema e ajudou a restaurar o cinejornais do ICAIC. É de Cuba que vem Vinte anos, longa selecionado para Mostra Competitiva. Na Europa, trabalhou em muitos documentários para televisão. Há cinco anos, Alice mora no Rio de Janeiro. Em termos de linguagem cinematográfica, ela encara a própria obra como muito distinta daquela produzida pelo pai. A maior influência está no processo de produção. “Ele me transmitiu esse rigor e essa âncora na realidade, essa necessidade de pisar firme no chão antes de ir para a fantasia. Isso significa pesquisa. Não só literária, como de campo”, diz.

O interesse por contar histórias populares também é um ponto de confluência entre Joaquim Pedro e a filha. Mas Alice não gosta quando é comparada ao pai. Ela conta que, ao lançar O diabo a quatro, foi criticada por fazer um filme alienado. “Disseram que o filme não era político. Ora, nada não é político. Era um filme político para empregadas, porteiros e babás, não para críticos de cinema”, avisa a diretora, que acha as comparações reducionistas.

Durante o trabalho de restauro dos filmes de Joaquim Pedro, ela entendeu como uma obra cinematográfica pode ter várias camadas. “Foram quatro anos assistindo aos filmes 200 vezes e posso dizer que nunca me cansei de nenhum. Não canso de descobrir e redescobrir coisas dentro dos filmes. Eram feitos com rigor extraordinário, cada um tem uma linguagem própria e uma verdade, todos foram feitos assumindo riscos e dentro da própria obra, os filmes dialogam, se negam, se reinventam. É muito rico”, garante. Quando começou o trabalho, os filmes estavam guardados na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) e boa parte estava tão deteriorada que até o som era inexistente. Graças ao patrocínio de R$ 2 milhões da Petrobras a obra pôde ser inteiramente recuperada. “Isso aconteceu porque se criou um vazio na Cinemateca com o Plano Collor, ela ficou entregue às baratas . E agora a gente teme que aconteça a mesma coisa”, lamenta a cineasta.

Formação estética materna


Eryk Rocha tinha 3 anos quando o pai, Glauber, morreu, em 1981. Ele não tem lembranças da convivência com o pai. Foi a mãe, a também cineasta Paula Gaitán, a responsável pela formação estética do diretor de Cinema novo, apresentado na abertura do 49º Festival de Brasília. Eryk prefere deixar para os críticos e “pensadores” a tarefa de encontrar laços entre a obra do pai e a própria produção. Se eles existem, ele não repara muito. “Acho que está muito incorporado. Não fico pensando, na hora de fazer um filme, se tem a ver com isso, com meu pai, minha mãe ou meu avô. Não. São energias que estão muito dentro, são mais rápidas que meu raciocínio. Então a coisa flui”, explica.

Diretor de seis longas de documentários, dois deles sobre o movimento do qual Glauber Rocha foi uma das expressões máximas, o cineasta nascido em Brasília há 38 anos, enquanto o pai filmava A idade da terra, encontra na obra de Glauber mais uma inspiração do que uma influência. “Não me sinto uma continuação nem do Cinema Novo nem do meu pai. Funciona muito mais como provocação, como uma iluminação. Não é uma continuação nem uma reprodução. Isso não me interessa nem um pouco”, diz.

O interesse pela obra do pai, no entanto, está explícito na produção de Eryk. São dois filmes sobre o movimento que gerou filmes como Terra em transe e Deus e o diabo na terra do sol. Além de Cinema novo,  ele fez também Rocha que voa, sobre os anos do pai durante o exílio em Cuba.

Revelações


Mas Eryk não se sente predominantemente influenciado pelo Cinema Novo nem enxerga o nome do pai como um peso que gere cobranças. A origem está diluída em uma família de artistas. A mãe cineasta — e premiada em Brasília em 2013 por Exilados do vulcão —, o avô poeta e a irmã cantora  — Ava Rocha tem sido considerada uma das revelações da música brasileira — são faróis importantes na produção de Eryk. Ele descobriu a obra do pai aos 11 anos, quando começou a ler os ensaios de Glauber sobre cinema. Quatro anos depois, assistiria ao primeiro filme, A idade da terra. Mas foram o russo Serguei Einseinstein e o italiano Luchino Visconti que levaram Eryk a estudar cinema em Cuba. No pacote de influências, ele leva uma bagagem variada, contaminada sim pelo Cinema Novo, mas também pelo cinema de invenção de Rogério Sganzerla e por outros movimentos internacionais.

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