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Confira a crítica do longa 'Deserto', estreia de Guilherme Weber na direção

Filme provoca uma profunda reflexão de uma sociedade em construção

postado em 28/09/2016 07:02

Ricardo Daehn

Bananeira Filmes/Divulgação

“Por que vocês, velhos, têm essa mania de se encherem de projetos?”, questiona um dos personagens do longa de estreia de Guilherme Weber, Deserto. É justo no filtro de questionamento de uma sociedade em construção, e a caminho do germinar de vícios e ruínas, que o retrato de uma trupe de artistas se afirma no longa-metragem. A exemplo de Manderlay, de Lars von Trier, há papéis redefinidos para cada um dos errantes artistas que protagonizam o filme. Depois de desistir de caçar ouro, num ermo sertão, o grupo disposto num “faroeste de palhaços” (como cantado numa das músicas da fita) esbarra num milagre de fonte que jorra água.


Alinhado à exploração de temas da transformação da arte num espaço definido, que segue a linha sensível de italianos como Ettore Scola (A viagem do Capitão Tornado) e Giuseppe Tornatore (O homem das estrelas), Weber incorpora brasilidade de longas centrados em arte como Cabaret Mineiro (1980) e Os pobres diabos (2013). Livremente baseado em Santa Maria do Circo, Deserto tem arrasadora direção de arte a cargo de Renata Pinheiro (Tatuagem) e uma fotografia deslumbrante, cuidada por Rui Poças (o português de Tabu, por exemplo).


Abordando a inclemente passagem do tempo, Deserto reserva a Lima Duarte um monólogo precioso, em que define a velhice como “um massacre” e expõe o desapego da contemporaneidade com o todo, com o contexto (valorizam os “estribilhos”, no lugar do “poema”). Fazendo valer os ingresso (caros), o cinema de Weber tem substancial diálogo com o teatro e se esbalda nas interpretações de Magali Biff, Everaldo Pontes, Márcio Rosário e Claudinho Castro. Sem negar o que seja desagradável — há racismo, demonstração de segregação, por preconceito e falência do grupo, pela falta de comunhão —, Weber comanda uma profunda reflexão.

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