Glauber Rocha teve presença marcante quando trabalhou na redação do Correio

O cineasta baiano, homenageado pelo Festival de Brasília em 2014, afirmou que, no Correio, experimentou uma outra dimensão da liberdade de imprensa

postado em 15/09/2017 09:15

Severino Francisco

Arquivo CB/CB/D.A Press

No início de abril de 1977, Glauber Rocha desembarcou em Brasília. Ele vinha a convite de dois amigos, os jornalistas Oliveira Bastos (editor-chefe) e Fernando Lemos (editor executivo) do Correio Braziliense. Chegou mais dilacerado do que nunca para morar na cidade e para iniciar uma fecunda colaboração com o jornal, que se estendeu até 1979.

Na semana anterior, a irmã, atriz e musa, Anecy Rocha, morrera em circunstância absurda, ao cair em um fosso de elevador, no prédio em que morava, no Rio de Janeiro. Desesperado, Glauber entrou em clima de paranoia.

Antes da tragédia com a irmã, ele havia comprado uma briga enorme com a esquerda, depois de retornar ao Brasil, após cinco anos de exílio. Declarou apoio ao projeto de redemocratização proposto pelos generais Ernesto Geisel, presidente da República, e Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil.

A esquerda caiu de pau, acusando Glauber de ser traidor, direitista, entreguista e louco. O cineasta, que era dramático e épico, comprou a briga e provocou: “Só existe uma diferença entre eu e um louco. É que eu não sou louco. A esquerda é de direita”. Mas o fato é que ele ficou muito abalado com a violência da polêmica.

Em texto incisivo, estampado na capa do Correio, em 7 de abril de 1977, Oliveira Bastos anunciava a colaboração de Glauber: “Ele não se esconde: se abafa, se reprime. E para não explodir, para não enlouquecer, cria, inventa, planeja, formula, associa. Numa palavra: multiplica-se, que é a forma de sua implosão interior. Como precisa de gente, de ruídos, de extravagâncias, para medir melhor a sua solidão, Glauber Rocha fez da redação do Correio Braziliense o seu laboratório de pânico”.

O diretor baiano chegou em péssimo estado físico e psicológico. No entanto, o apoio dos amigos e o espaço de liberdade para escrever o que lhe desse na veneta o reanimaram.

Logo, imaginava revoluções por minuto: “Ele percebeu mais cedo, e com espírito mais livre do que todo mundo, que o melhor caminho era deixar que os próprios militares abrissem o regime autoritário e não pela luta armada”, comentou Fernando Lemos, em entrevista ao Correio, em 2011.

Glauber fazia comícios delirantes na redação e, depois, permanecia em silêncio. A atual colunista de gastronomia, Liana Sabo, era repórter de política e se lembra de que nunca viu alguém “metralhar” em uma máquina de escrever tão rápido, usando apenas um dedo de cada mão.

“Depois que ele escrevia os artigos, os revisores ficavam enlouquecidos para encontrar Glauber, pois ele substituía algumas letras por y, z e k”, conta Liana.

O cineasta baiano, homenageado pelo Festival de Brasília em 2014, afirmou que, no Correio, experimentou uma outra dimensão da liberdade de imprensa, pois podia escrever um artigo sobre política em linguagem tropicalista: “Glauber era o jornalista 007, com licença para matar”, costumava brincar Fernando Lemos: “Ele dizia que a passagem pelo Correio havia sido tão boa que o ajudou a realizar A Idade da Terra. Glauber adorava Brasília, ficava louco com a sensação de infinito dos horizontes amplos e, embora fizesse algumas críticas a Niemeyer, gostava muito da Catedral, do Palácio da Alvorada e do Congresso Nacional”.

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