'Vazante' é um dos filmes que abrem a mostra competitiva

O longa é exibido na noite de sábado (16)

postado em 16/09/2017 07:00 / atualizado em 15/09/2017 20:13

Ricardo Daehn

Inti Briones/Divulgação

 
A leveza de uma conversa com a diretora Daniela Thomas contrasta com o filme de estreia dela, na direção solo, a fita de época em preto e branco Vazante, que trata da temática da escravidão, e entra hoje, na mostra competitiva. A pergunta que não cala é a do por que somente na quinta experiência em cinema ela investiu na direção solitária, sem o regular parceiro Walter Salles? “Acho que minha terapeuta pode te dar melhores explicações sobre isso!”, diverte-se Thomas, sem esconder o orgulho pelo novo feito. “Não como esteta ou narradora, mas, como realizadora, ainda acho uma das tarefas mais hercúleas esta de juntar escrita e direção”, comenta.
 
Vazante, coprodução entre Brasil e Portugal (participante com um quinto do investimento), custou R$ 6 milhões, arrebanhados ao longo de seis anos captação. “Ao lado da minha participação na condução da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos (com Fernando Meirelles e Andrucha Waddington) o Vazante é como um irmão, que chegou a ser feito, simultaneamente. Foi a mesma pessoa, no caso, eu, gestando ambos, na mesma gravidez”, brinca.
 
Enquanto estar nos Jogos Olímpicos — na direção artística da cerimônia vista por 3 bilhões de pessoas — se tornou algo comparável a “uma escalada do Everest”, a visão de Daniela Thomas reveste a produção do longa Vazantecomo uma experiência menos estressante. Na primeira exibição no Brasil, durante o festival, o longa demandou intensa pesquisa detida na vivência entre quilombolas. “A história começa com o patriarca Antonio como protagonista, mas é a menina, de 12 anos, desposada por ele, e interpretada pela Luana Nastas quem desponta, na sequência. Em sessões para amigos, me disseram que a menina joga luz nas histórias paralelas, pela capacidade do olhar dela. Antonio é míope, e percebe vidas alheias apenas atravessando a vida dele”, comenta Daniela Thomas.

 

A atriz Luana Nastas, pelo que conta a diretora, despontou na mais tradicional forma, por meio de testes, logo na primeira leva de cinco aspirantes a atriz de Vazante. No processo do longa, impossível não falar de Walter Salles (o eterno colaborador): ele esteve presente, nas várias revisões do roteiro e indicando a participação do diretor de fotografia Inti Briones e sugerindo cortes no material. “Ele é meu padrinho, minha escola de cinema foi conviver com ele”, diz a diretora. Outro mestre promete estar nos corredores do Festival de Brasília: o diretor Nelson Pereira dos Santos. “Acho que assisti a Vidas secas, umas 50 vezes. Apertei a mão do Nelson Pereira, uma vez — trocar um papinho, até que não seria mal”, arremata.

Qual foi o fundamento visual, prioritário, em Vazante?
A gente quis assegurar que o elenco selecionado tivesse uma expressão que transmitisse a energia da época, já que o filme tem por ambiente o século 19. Insistimos para que os negros, que interpretam os escravos, por exemplo, fossem arregimentados de sociedades quilombolas que ainda vivem na região em que filmamos (Serro, Minas Gerais). Interagimos, ao todo, com nove centros de sociedades que vivem em regime especial. Toda a senzala da fazenda representada no filme veio dali.

Vazante explora, em especial, situações desiguais que envolvem personagens femininas...
Quando eu filmei, estávamos noutro país e noutro mundo. Agora, os temas desenvolvidos me pegaram: quero que eles tenham dimensão para além do que tem repercutido nas capas de jornal. O cinema tem a qualidade metafísica de não apenas representar o momento, mas atravessa a duração do momento que está sendo vivido pela sociedade. O filme trata da miscigenação brasileira. Na minha perspectiva, ela foi feita pelo assédio, pelo estupro, pela exploração das mulheres. Principalmente das negras, mas também das brancas. Com certeza, isso vai ressonar, vai ecoar, neste momento. Tudo será amplificado, dado o temas serem os do momento.

De onde veio o ímpeto por um filme histórico?
Eu fiz História, por dois anos, em 1977. Pulei de marxismo rapidamente para o cinema. Antes do teatro, fiz cinema em Londres, em 1979. Sempre tive muito fascínio pela história dos meus ancestrais. Penso que não posso passar pela vida sem deixar um registro de uma linhagem de pessoas. Meus pais me contaram muitas histórias do interior mineiro. Eu tento contar a história do Vazante, há mais de 10 anos. Li Casa Grande e Senzala (de Gilberto Freyre), O trato dos viventes (de Luiz Felipe de Alencastro), História da vida privada no Brasil (vários autores) e A paz na senzala. Fui no Sérgio Buarque de Holanda Joaquim, no Joaquim Nabuco — leio tudo isso há 10 anos. Com uma amiga da UFF, a Hebe Mattos, veio o reforço para a primeira ideia do filme. Depois a Mary Del Priore se encarregou de dar mais repertório para contar a história com verossimilhança.

Como é a tua relação com a capital? Que gosto tem estar no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro?
São tantas camadas... Brasília é o palco das coisas mais absurdas que eu já vivi na minha vida inteira. Há os maiores descalabros, há coisas aviltantes, assustadoras, e ao mesmo tempo, tem um Festival incrível, numa cidade de arquitetura excepcional, como uma utopia experimentada e assentada. Sou fascinada por Brasília, ao extremo.

Qual o objetivo maior, com Vazante?
Acho que o cinema substitui a memória em grandes momentos da vida da gente. A gente quase se projeta nas histórias. O Brasil tem uma carência de imagem de cinema do seu passado. Gostaria de botar uma pedrinha nessa calçada. Quero falar de onde viemos e da mancha do patriarcalismo. Hoje a gente ainda vive sob este prisma, parece que não conseguimos avançar muito. Sou cinéfila, queria fazer um belo filme; algo potente.

Por que você apostou no preto e branco, na concepção de Vazante?
O preto e branco, em cinema, me prende mais a atenção. Quando vemos imagens como as do O abraço da serpente (representante colombiano do Oscar, em 2016), temos uma grande atração pelo cinema. A questão da época — o pacto de suspensão de crença — para mim, se efetiva no preto e branco. Ele te desafia a deixar a tua realidade do cotidiano. Saem as referências imediatas. Busquei uma história dura, seca, com uma pegada rústica dada pela falta de cores.
 
Qual cena mais te impressiona?
Para mim, foi muito delicado pedir para refugiados do Mali, que encontrei em São Paulo —pessoas que passaram por longas viagens, que abandonaram a família, na tentativa de continuar vivo —, pedir para que elas interpretassem escravos no filme, presas a correntes e que andassem descalças num terreno pedregoso, e que enfrentassem cenas debaixo de chuva. Foi muito sofrido propor isso para eles. Eles foram muito parceiros: fizeram questão de representar essa história, e se sentiram honrados. O porto de escravos, para se ter ideia (em termos de história), era o Rio de Janeiro! Os escravos do Serro (MG) andavam 700 quilômetros a pé! Há uma cena em que os pés dos escravos e dos burros, de alguma forma, se relacionam. É desta forma que foram compreendidos por aqui: como uma força de trabalho que não tem humanidade. Eu falar isso é grotesco e terrível, mas mostrar, no cinema, de forma forte e delicada, me deixa muito orgulhosa.

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