'Por trás da linha de escudos' documenta Batalhão de Choque da PM de Recife

O longa destaca questão social e cotidiano de um batalhão de choque, acionado sempre em situações extremas

postado em 21/09/2017 07:00

Ricardo Daehn

FBCB/Divulgação
 
Sem meias-palavras, o diretor pernambucano Marcelo Pedroso, que comanda o mais novo longa Por trás da linha de escudos, aponta que o filme da mostra competitiva foi feito num Estado “perverso e violento”. Pedroso tem ciência de que, radiografando a corporação policial, num documentário, se aproximou da polícia que “mais mata e mais morre, no mundo”. “Em geral, a polícia age enquanto braço de Estado. Às vezes, sem o preparo, e em meio a circunstâncias que não observam aspectos de natureza social, em problemas que envolvem uma população afundada em questões complexas”, comenta o diretor.
 
Com 60 horas de material bruto, Pedroso concebeu um filme de pouco mais de hora e meia, em torno de assunto nada afável: o exame do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco. Vista de modo coletivo, a polícia é a protagonista do longa que age em duras ações contrárias a protestos e manifestações. Nas funções, ainda é habilitada a dissipar populações em atos de reintegração de posse e dentro dos violentos campos nas disputas das arquibancadas em partidas de futebol.
 
“Pelas vestes, e com equipamentos como os escudos, formam uma força intimidadora. Os policiais são acionados em situações extremas; vistos como uma última instância, e têm envolvimento em circunstâncias de extrema passionalidade”, sublinha o cineasta.
 
“Evitamos acirrar alguns temas espinhosos de conversas, aqueles que fossem pontos de possíveis rupturas no trato (entre a equipe de filmagem e as autoridades). Houve reciprocidade, mas sem eliminarmos as divergências”, conta Marcelo Pedroso. Logo nos primeiros dias de filmagens, um soldado, que trabalhou nos bastidores de uma manifestação, fez o reconhecimento do diretor, aumentando naturais tensão e desconforto já instaladas. “Nos movimentos sociais, há contatos que são de uma fúria enorme”, pontua o cineasta, que já tomou parte de conflitos como o Ocupe Estelita (2014), movimento público contra a especulação imobiliária no Recife e que colocou em choque a população e forças de ação policial, por mais de 10 horas.
 

FBCB/Divulgação

 

Aos 38 anos, o ex-jornalista Pedroso, que atualmente desenvolve doutorado em cinema, antecipa que o documentário Por trás da linha de escudos investe em cenas de bastidores do contato entre a equipe e a polícia. Um princípio de rebelião e uma revista na Funase (Fundação de Atendimento Socioeducativo), por exemplo, colocou em flancos distintos, policiais e adolescentes envolvidos em atos infracionais. “Participamos ainda de treinamento, com os policiais, no manejo do gás lacrimogêneo. Mesmo a missão trazendo descompasso de interesses, buscamos sempre expressar um total respeito aos policiais, como trabalhadores”, observa o cineasta.
 
Premiado com o troféu Candango de melhor diretor, há três anos, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Marcelo Pedroso deixa entrever a ponta de orgulho com o celebrado longa Brasil S/A, destacado naquela edição pelo melhor roteiro. “No Brasil S/A havia a exaltação do desenvolvimentismo, presente, ao menos, no primeiro governo de Dilma Rousseff. Acho representativo que o ritmo galopante de sucesso do progresso mostrado no filme desemboque na última cena que registra justamente um eclipse”, observa o diretor.

Filmagem tensa

Exaltando o equilíbrio “difícil de concretizar”, ao entender motivações dos integrantes da polícia (“sem aderir causas, e mantendo filtro crítico”, como Pedroso diz), neste novo longa, o diretor ressalta as “filmagens tensas e delicadas”. A montagem, detida num processo que atravessou oito meses, culminou na realização extrema, pelo olhar do diretor. Ao tempo das filmagens, no auge do impeachment de 2016, o cineasta esperava por reflexo de maior agitação. O que foi captado nas ruas, nem de longe, lembrava os embates e as agitações de 2013.
 
“Na época das filmagens, notamos o registro de operações mais mornas. O momento até foi sintomático, nesta voltagem do conflito, já que tudo aconteceu, em meio à completa instabilidade, com a população muito dividida. A população estava circunscrita a um modelo de consumo que teve seu lado sombrio, e se viu o ocaso do sistema (demonstrado em Brasil S/A). Vieram as articulações políticas desastrosas e a manutenção do atual presidente”, avalia o artista.
 
FBCB/Divulgação
 
Fora da esfera da política partidária e do campo dos conflitos sociais, Marcelo Pedroso conta da felicidade do retorno ao Festival de Brasília. “O festival, por um tempo, foi uma arena de disputas, meio desfigurado na irregularidade das edições. Mas, foi redesenhado. No primeiro ano que vim, com a equipe de Amigos de risco (2007), fiquei engasgado, com a recepção de parte da crítica, que não aceitava a 'precariedade' que se provou inventiva e até combustível para o nosso cinema. Sem o clima insano de disputa, quase insalubre do passado, acho que o evento de agora fez reverberar uma carta, produzida em 2014, e que mostrou o compromisso dos diretores em dividir o dinheiro dos prêmios. É um gesto interessante e o cachê de seleção (proposto na atual organização) estimula uma edição muito rica, recheada de encontros, debates e de reflexão”, ressalta Marcelo Pedroso.


Mostra competitiva
 
Hoje, às 21h, no Cine Brasília (EQS 106/ 107), com os curtas Torre, de Nádia Mangolini (18min, 12 anos) e Baunilha, de Leo Tabosa (13min, 16 anos) e o longa Por trás da linha de escudos, de Marcelo Pedroso (2017, 124min, PE, 10 anos).

Baunilha, de Leo Tabosa (2017, 13min, PE, 16 anos).
Um ato sexual comum, realizado de maneira convencional e conservadora, sem maiores ousadias.

Torre, de Nádia Mangolini (2017, 18min, SP, 12 anos).
Quatro irmãos, filhos de Virgílio Gomes da Silva, o primeiro desaparecido político da ditadura militar brasileira, relatam suas infâncias durante o regime. 

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