Sabores

Brasiliense se rende ao consumo de hortaliças e frutas orgânicas

Como consequência, número de produtores certificados cresce na capital. Uma boa forma de aliar qualidade de vida e consumo sustentável

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:41

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

Os orgânicos ganharam os campos candangos e a mesa do brasiliense. O faturamento do verde, que é livre de agrotóxico e sai da horta direto para o prato, aumentou aproximadamente 40% em 2016. O dado é da Associação Agro-orgânica, que também registrou acréscimo de 70% na procura de agricultores convencionais para se filiar à entidade. “Automaticamente, esses produtores estão se adequando às condições de ser um cultivador de orgânicos certificado. Como resultado, o consumidor passa a ter itens diferenciados, saudáveis e livres de agrotóxicos — que faz tanto mal ao homem”, destaca o presidente Cláudio Farias. Segundo dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do DF (Emater), no DF, há pelo menos 160 mil compradores eventuais e 40 mil, frequentes.

 

Produtor orgânico há dois anos, Josecler Gomes Moreira é dono do Sítio São Pedro, na região Boa Vista, na Fercal. Ele encarou o desafio de plantar, depois de receber o terreno como herança. Hoje, produz 40 tipos de alimentos entre folhosos, frutas e legumes. Os produtos são vendidos para o Mercado Orgânico, para a Associação de Produtores Orgânicos (AgroOrgânica) e para quem mais estiver interessado em alimentos saudáveis. “O produto orgânico não é apenas o livre de agrotóxico. É o vindo de um produtor que respeita o meio ambiente e seus funcionários. Que respeita, no mínimo os 20% de reserva ambiental obrigatória e cuida das nascentes da propriedade”, ensina. Josecler ressalta, ainda, a importância da verificação do selo de garantia de Produto Orgânico Brasil.

 

Para quem escolheu ter uma vida urbana com qualidade e saúde, uma boa opção é apostar na compra de fornecedores de confiança. Pensando nisso, a empresária Tatiana Carvalho, 29 anos, resolveu mudar os ingredientes da família. E foi além. Ela percebeu ali uma oportunidade de negócio e criou a Horta In Casa Delivery. Há dois anos, passou a pesquisar produtores orgânicos certificados e a fazer entregas na casa dos clientes. Assim, tornou-se uma intermediadora desse processo. “Entrego os produtos frescos três vezes na semana. Meu cuidado é buscar produtores de confiança e entregar bons alimentos para quem, às vezes, não tem tempo de ir atrás disso”, comenta.

 

E são essas frutas e verduras do Sítio São Pedro escolhidas por Tatiana que acabam na mesa da personal Graziela de Paula Ricardi, 40. Além da busca por saúde, ela conta que decidiu participar desse sistema para estimular a agricultura familiar. “Eles são ecologicamente corretos e, consequentemente, causam menos impacto no meio ambiente. Com a ajuda do consumidor, há mais oportunidade para pequenos produtores e estímulo à economia local e do Entorno”, diz.

 

Já a servidora pública Marta Brenda Bastos, 34, começou a procurar pelos produtos orgânicos quando a filha, Bianca Bastos, 1 ano e 8 meses, iniciou a introdução alimentar. Hoje, a pequena come frutas e verduras por vontade própria. “Desde então, evitamos industrializados e processados e comemos mais produtos naturais. Faz tempo que não compramos algumas coisas no supermercado. As próprias frutas são da feira. Isso reflete uma mudança em casa. A gente adoece muito pouco e minha filha quase nada”, destaca. 

 

Horta urbana

 

De manhã cedo, o senhor José Luís Mesquita, 90, chega ao lote de esquina, cercado por um alambrado verde e muitas árvores. No portão, que passa o dia aberto, uma placa indica o nome do local: Horta Girassol. Lá, ele planta, cuida e colhe os inúmeros tipos de hortaliças, frutas e verduras, que são vendidas a preço de custo para pessoas da comunidade. Tudo que está plantado nos 5 mil metros quadrados é orgânico, nada com agrotóxico ou produtos químicos. Ele faz isso todos os dias há quase 13 anos, depois da morte de uma vizinha por hantavirose, em agosto de 2004. A área que hoje abriga várias plantações e três nascentes totalmente recuperadas, antes, era ocupada por um lixão, que levava doença para moradores.

 

O sustento de seu José vem da venda dos produtos, que melhorou após a implementação do programa Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA) — uma organização sem fins lucrativos que constrói projetos agrícolas baseados na comunidade para garantir um futuro a pequenos empreendimentos agrícolas. Com apenas R$ 1, é possível levar um pé de alface. “Mas também ajudamos pessoas que não podem comprar. Doamos alimentos para as famílias que não têm condições”, conta. Localizada no Morro Azul, em São Sebastião, a maior horta urbana comunitária do DF uniu os moradores e hoje leva informação e aprendizado para escolas e hospitais.

 

Por causa dos preços acessíveis, a coordenadora da Horta Girassol, Hosana Alves do Nascimento, conta que todos os dias recebe visita dos moradores até de outras regiões. “Cobramos apenas o necessário para nos sustentar, um preço justo para uma alimentação saudável”, destaca. O projeto recebe apoio da Emater, que tem como público-alvo os agricultores familiares. “A demanda por esses produtos cresce de 25% a 30% ao ano. Estamos ampliando a oferta de assistência técnica nessa área de produção, bem como as formas de certificação, o que gera mais postos de trabalho, produzindo alimentos em harmonia com a conservação ambiental”, ressalta o presidente da instituição Argileu Martins da Silva.

 

Há dois anos, o corretor de imóveis Marcelo Guimarães, 45, conheceu a horta e não parou mais de comprar. Utiliza os produtos carinhosamente plantados pelo senhor José Luís para uma animada feijoada que oferece à comunidade toda sexta-feira, no centro de São Sebastião. “É um trabalho bem-feito. Eles ensinam as crianças como plantar e fornecem saúde.”

 

775 hectares

Total da área cultivada de orgânicos no Distrito Federal, em 2015

 

260 propriedades

Certificadas ou em processo de certificação para receber o selo de produtor orgânico da Emater

 

6,9 mil toneladas/ano

Produção estimada de hortaliças e frutas orgânicas no DF em 2015