Pequenos negócios locais ganham espaço no mercado brasiliense

Produtores, como André Batista e a família Maeda investem em ingredientes típicos para atrair a clientela

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 00:39

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

 

Às 9h30 de 21 de abril de 1960, Juscelino Kubitschek abria as portas de Brasília para famílias de todo o país. Aos poucos, mães e patriarcas, vindos das mais várias regiões do país, adotaram a nova capital como lar e a transformaram em um reduto da diversidade. Cinquenta e sete anos depois, a cidade presencia a aparição da terceira geração candanga e esbanja o florescimento de uma identidade genuinamente brasiliense.

 

Individualidade esta que é percebida na cena artística, no linguajar e, principalmente, na gastronomia. Com temperos provenientes de todos os estados do Brasil (e do exterior), a capital cria e recria receitas com potencial — modéstia à parte — para revelarem-se tão icônicas quanto os traços arquitetônicos brasilienses que encantam o mundo. Hoje, quem vem a Brasília, além de guardar na memória as obras de Oscar Niemeyer e a imensidão azul do céu, carrega no paladar o gosto dos sabores candangos.

 

Essa singularidade é resultado das empreitadas de dezenas de amantes da culinária que, além do aspecto comercial, importam-se com as sensações despertadas ao saborear bons pratos. É o caso de André Batista, que iniciou, em 2014, uma produção de linguiças. Farto de produtos industrializados e similares, com a marca Cacciatore Charcutaria, o cozinheiro oferece ao público, por R$ 20 (600g), três variações inusitadas do embutido, feitas de forma integral em sua propriedade: de barriga de porco com defumação a frio; de chorizo de Rueda com vinho tinto, páprica e ervas à de pimenta-jalapenho com cominho.

 

“Brasília carecia de um produto bom, com diferenciais. Senti a existência de um nicho no mercado que, se preenchido, poderia me beneficiar e agradar ao público”, pontua André. Diante das possibilidades, ele arregaçou as mangas, listou fornecedores e abriu espaço para a criatividade. O processo, com o tempo, tornou-se simples e produtivo.

 

As delícias fazem sucesso na Mercearia Colaborativa, da qual o cozinheiro é sócio. Ao todo, ele vende 200kg de embutidos por mês (para donas de casa e restaurante). O cardápio já foi bem maior: eram 12 sabores diferentes e 1,2 tonelada de linguiça entregues ao consumidor por mês. Mas, como o produto é totalmente tratado de maneira artesanal, para manter a qualidade em alta, André optou por diminuir o negócio. Uma questão de respeito ao cliente.

 

 

O apreço pelas receitas é estampado nos braços: ao lado direito, tatuagens de facas antigas e, ao esquerdo, imagens de vacas, porcos e carneiros. “Fiz gastronomia pela profissão, claro, mas também pelo amor. Quero que o consumidor sinta isso ao provar meus embutidos”, brinca.

 

Qualidade em primeiro lugar

 

Carlos Vieira/CB/D.A Press

 

O zelo durante a produção dos alimentos, inclusive, é consenso entre os que estão à frente da cozinha brasiliense. Na sorveteria Oni-Uno, cada fruta levada à máquina de mistura é cortada pela proprietária do estabelecimento, Vanessa Jair. Mas a mistura dos ingredientes é a última etapa. Antes disso, a moça retira das prateleiras de frutarias — ou das caixas de produtores locais — as bananas, maracujás, mangas, amoras e afins previstas para as receitas. Também é ela quem busca o leite fresquinho em fazendas do território candango.

 

Satisfeita, com todos os componentes em mãos, segue para a pequena loja, situada no subsolo da quadra 103 do Sudoeste. No laboratório, a criatividade não tem limites: misturas e mais misturas. Afinal, “dá para fazer sorvete de tudo”, como Vanessa gosta de ressaltar.

 

Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

 

A empreitada começou em 2015. Amante de gelatos, a moça desbravou cursos em São Paulo para tornar-se apta a produzir os próprios sorvetes, que inclui frutas da região. Há dois meses, deixou de lado a ortodontia, profissão que garantia a renda mensal, e se jogou no novo negócio. “Faço questão de participar de todas as etapas. Tudo é feito com muito carinho. É importante que o cliente se lembre de cada sensação despertada pelo meu sorvete”, destaca orgulhosa.

 

O empenho, claro, rende frutos. O gelato é daqueles que instigam pela cremosidade e sabor. Novas experiências estão a caminho. Entre os possíveis gostos, os candangos castanha de baru, cajá-manga e baunilha do Cerrado estarão no cardápio. “As pessoas pedem bastante. Elas gostam de ter à disposição sabores locais”, acrescenta. O valor dos potinhos varia entre R$ 6 e R$ 14. O estabelecimento fica de portas abertas de terça-feira a domingo, entre 12h e 20h.

 

Inspiração

 

E, para garantir a singularidade dos sabores, a participação em cada etapa da produção também é considerada necessária pela dupla, mãe e filho, Luci Maeda e Ricardo Maeda. Na estância que leva o sobrenome de mãe e filho, a 30km do centro da capital federal, eles preparam o Doce de Leite D’Alice. Todo o processo ocorre na propriedade — da pastagem das vacas à colagem dos selos nos potes de entrega.

 
 
Antes de dar início ao projeto, a família buscava novos formatos de investimento, a fim de tornar a fazenda autossustentável. Durante a procura, Luci, cujo sonho consistia na criação de um vasto rebanho de vacas, encantou-se com a raça leiteira Jersey. A qualidade do leite alegrou o paladar da empresária, que viu na qualidade do animal a oportunidade de otimizar uma receita de família. A inspiração veio da mãe, dona Alice, uma doceira de mão cheia, que, até meados de 1990, fazia sucesso com a venda de quitutes em Minas Gerais — o carro-chefe das vendas, claro, sempre foi o doce de leite.
 
A exemplo da matriarca, Luci encanta, desde 2013, os consumidores com a iguaria, hoje, aperfeiçoada: são 150kg vendidos ao mês. “Com a produção concentrada na estância, controlamos todas as etapas e conseguimos manter a qualidade. Além disso, estamos próximos de obter o selo de produto orgânico”, salienta Ricardo.
 
A única parte motorizada, ao longo do processo de fabricação, é a retirada do leite, que ocorre por meio do ordenhamento mecânico. As demais etapas são realizadas de maneira artesanal. “Existe uma preferência do consumidor em relação aos insumos com essa característica. Por exemplo, fornecemos o produto a diversos restaurantes. Logo na porta, os proprietários anunciam que o alimento vem do próprio DF. O cliente tem a noção de que é algo mais fresco e de maior qualidade”, argumenta o produtor.
 

Em busca do queijo ideal

 
A queijeira Marina Cavechia. “Há um tempo, estava com uma amiga e, ao provar determinado queijo, interrompi a conversa para entender a maravilhosidade daquele sabor. É isso que quero propiciar aos meus clientes: eles precisam sentir um gosto do qual irão se lembrar pelo resto da vida. Assim como eu”, deslumbra-se.
 
Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press
 
Para concretizar o sonho, Marina dedica-se ao estudo de queijos artesanais há pouco mais de um ano. A fim de obter experiência, com malas nas costas, ela percorreu dezenas de propriedades que se dedicam à produção do produto em Minas Gerais e em São Paulo. Em contrapartida, cada um dos ingredientes utilizados nas mais variadas receitas próprias provém do Distrito Federal: do queijo ao lúpulo.
 
A individualidade do queijo candango — um projeto pessoal de Marina —, entretanto, não depende apenas do leite retirado de vacas criadas em território brasiliense, da ordenha bem-feita ou de temperos encontrados no Cerrado. O “terruá” é um mix, proveniente de características ambientais, como temperatura da região, umidade, bactérias e afins.
 
 
“É por isso que o queijo Canastra só é Canastra, quando feito na Canastra. Se você tentar produzi-lo em Brasília, da maneira mais tradicional possível, não dará certo”, compara. O esforço de Marina em buscar o sabor brasiliense na produção de queijo continua. É um trabalho diário. Ela está bem perto.
 
Marina exalta o trabalho dos produtores locais. “Os alimentos oferecidos são mais frescos; o cliente conhece quem produziu o prato ou o ingrediente. Isso agrega valor e garante uma experiência diferente. A população tem percebido isso. Tanto é, que os produtores se sentem incentivados. Por isso, os negócios ligados à gastronomia têm crescido e a economia local, passado por um boom”, complementa.
 
O empenho desses — e de outros — produtores e chefs de cozinha é parte imprescindível para o funcionamento da engrenagem da gastronomia local. O aumento da criação desperta o interesse do público e, consequentemente, instiga o aprimoramento das receitas, além da criação de novos sabores. É por essas e outras que, aos 57 anos, se Brasília fosse um restaurante, já serviria entrada, prato principal e sobremesa derivados de um cardápio próprio e singular.