Conheça a tríade sagrada da música erudita feita em Brasília

A cidade se tornou referência na música erudita graças a nomes como Neusa França, Levino de Alcântara e Claudio Santoro

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:39

A história da música erudita em Brasília começa com três nomes. Sem Claudio Santoro, Levino de Alcântara e Neusa França, a capital provavelmente não se tornaria uma das referências na formação de instrumentistas brasileiros. Eles são a tríade sagrada da música erudita feita em Brasília e exportada para o resto do país. São nomes que já chegaram no Planalto Central ancorados no adjetivo grande e, daqui, mostraram ao mundo que a mesma utopia que guiava intelectuais de áreas como educação e arquitetura também contaminou a música.

 

Edy Amaro

 

O maestro Levino de Alcântara começou nos anos 1960 o embrião do que se tornaria a Escola de Música de Brasília (EMB). Centro de referência de formação de músicos, a instituição foi inaugurada em 1974 e desde então coloca o nome de Brasília no mapa da música erudita nacional. A excelência na formação pode ser constatada nos resultados. Há nomes egressos da EMB nos quatro cantos do mundo e, principalmente, Brasil afora. De lá saíram, por exemplo, o violoncelista Gustavo Tavares, que toca com a Ópera Nacional da Noruega, e Leonardo Neiva, barítono que, em 2009, ganhou o Prêmio Carlos Gomes de melhor cantor lírico do Brasil.

 

 

Levino morreu em 2014 e deixou um dos maiores legados da música erudita de Brasília. Entre as convicções do regente estava a de que a música tinha a capacidade de mudar as pessoas. “Ele acreditava que a criança tinha que aprender música pois se tornaria uma pessoa melhor”, conta a cravista Ana Cecília Tavares, que estudou com o maestro e hoje é uma referência na prática do cravo no Brasil. “No começo da EMB, ele estabeleceu regras para a matrícula no instrumento. O aluno não poderia cursar piano ou violão nos dois semestres iniciais. Ele tinha que escolher um instrumento de orquestra. Assim, o interesse por esses outros instrumentos aumentava. Muitos alunos daquela época foram chamados para tocar em orquestras de outras cidades”, diz Ana Cecília, que também se tornou professora da EMB.

 

Antonio Guerra Vicente, violoncelista aposentado da OSTNCS e da Universidade de Brasília (UnB), lembra que a EMB exportou muitos músicos para outras regiões brasileiras e para o exterior. “Acho isso interessante porque mostra a qualidade do trabalho que é feito aqui, mas também a falta de espaço para os artistas realizarem seu trabalho”, avalia o professor, que é filho do compositor José Guerra Vicente. Para além do trabalho de professor, Antonio levou Brasília para todo o Brasil com o trabalho desenvolvido primeiro com o Quarteto de Cordas da UnB (1972-1985) e depois com o Quarteto de Brasília, há 31 anos em atividade e formado por Ludmilla Vinecka (violino), Glêsse Collet (viola) e Claudio Cohen (violino).

 

O violinista Sérgio Righini aponta a EMB como embrião para a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, fundada pelo maestro e compositor Claudio Santoro no início dos anos 1980. Santoro fez de Brasília uma eterna filha. O compositor já era reconhecido como um dos grandes nomes da música de vanguarda brasileira quando decidiu adotar o sonho de Juscelino Kubitschek. “Santoro era um grande compositor e deixou muitos seguidores na área de regência, além de ter gravado suas sinfonias com grandes orquestras da Rússia”, lembra Righini, violinista aposentado da OSTNCS. A convite do maestro, passaram pela capital grandes nomes da música brasileira, gente como Nathan Schwartzman, Rogério Duprat e Nise Obino, professora de Nelson Freire. Esse contato ajudou a projetar o nome da orquestra no resto do Brasil.

 

Bruno Peres

 

Neusa França também foi um ícone da cidade. Pianista formada pelas mãos de Magda Tagliaferro, Neusa veio do Rio de Janeiro para Brasília em 1959. Acompanhava o marido, Oswaldo França, procurador federal que, eventualmente, dava expediente como barítono. Acostumada a saraus frequentados por Lamartine Babo e Jacob do Bandolim, a pianista logo movimentou a vida musical de Brasília. Escreveu o Hino de Brasília, formou dezenas de pianistas e foi, ela mesma, a primeira pianista da orquestra fundada por Claudio Santoro. Ao lado do maestro Levino, ajudou a fundar a EMB e atraiu os olhares dos protagonistas do cenário musical carioca, que passaram a frequentar os saraus do apartamento da Asa Sul quando estavam em Brasília. “Na época que ela veio não havia nada e ela fez os festivais para projetar a cidade”, lembra a pianista Alda de Matos, professora a EMB. “Ela fez uma escola de piano e transformou Brasília em um local de pianistas de orquestra.”

 

 

Músicos para exportação

Arquivo pessoal
Leonardo Neiva, Gustavo Tavares e Rodrigo Lima fazem parte de uma geração formada na cidade mas cujo talento encontrou eco em palcos maiores, para os quais carregam sempre o nome de Brasília. Neiva foi inteiramente formado em Brasília, especialmente na EMB. Passou por dezenas de cursos de verão até ser descoberto como um barítono versátil graças ao Barbeiro de Sevilha, de Rossini. O cantor já subiu ao palco acompanhado da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), na Sala São Paulo, e já se apresentou em Santiago (Chile), Toulouse (França) e Lisboa (Portugal), além de Itália, Espanha, Estados Unidos e Colômbia. “Costumo dizer que, ao olhar o horizonte de Brasília, por ser uma cidade na qual você consegue ver o horizonte porque não tem arranha-céus, consigo ter a inspiração suficiente para ganhar o mundo. Acredito que Brasília tenha essa magia”, explica o barítono.

 

A EMB também foi a referência do violoncelista Gustavo Tavares. Ele estudou na escola na década de 1970 e deixou o Brasil quando cursava o primeiro ano no Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB). Foi para a Alemanha estudar com Antonio Janigro, que também foi professor de Antonio Meneses. Na época, Tavares já havia se tornado solista da OSTNCS sob a batuta de Santoro. “Trabalhei intensamente não só com Cláudio Santoro, a meu ver um dos gênios maiores da música brasileira, mas também com outros músicos extraordinários como Camargo Guarnieri, César Guerra-Peixe e Alceo Bocchino. É claro que todas essas experiências seguem tendo muita importância para mim como músico, ainda mais pelo fato fato de eu incluir com frequência a música desses e de outros compositores brasileiros nos meus projetos, e isso é algo que eu “carrego” comigo pelo mundo”, conta. Em 1995, o violoncelista se uniu ao clarinetista cubano Paquito D´Rivera e ao pianista Pablo Zinger para formar o Triângulo Trio, com o qual gravou seis discos dos quais um foi indicado ao Grammy. Hoje, o violoncelista mora na Noruega e toca com a orquestra da Opera House de Oslo.

 

Foi na UnB que Rodrigo Lima finalizou os estudos em composição. Nascido em São Paulo e criado em Goiânia, o músico é hoje um dos professores da Academia de Música da Osesp e dá aulas de composição na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP). Premiado em seis concursos e festivais, é uma das jovens promessas da música contemporânea brasileira e gosta de olhar para o próprio país como fonte de inspiração. Suas composições aparecem em 10 discos gravados nos últimos 11 anos. No catálogo de Lima, figuram hoje 47 composições, um número considerável para um compositor de 40 anos. De Brasília, ele levou, principalmente, a experiência interdisciplinar. “As referências são muitas, sobretudo da UnB, porém, acho que a principal foi o espírito pluralista e a vocação interdisciplinar da universidade. Tudo isso foi muito enriquecedor e possibilitou uma formação e uma visão de mundo menos engessada e mais humanista” explica o compositor, que estudou com duas referências da música de vanguarda, Sérgio Nogueira e Conrado Silva.