Brasília daria um filme! Você não acha?

Produtores e cineastas mantêm o foco em torno da vocação cultural da cidade

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:41

O alicerce para a vocação cinematográfica de Brasília veio com nomes de peso, na esteira da visionária concepção de Darcy Ribeiro para uma sétima arte a ser estudada na UnB. De Paulo Emílio Salles Gomes, com viés teórico, até a prática das mais recentes, com o apelo nostálgico de público visto em O último cine drive-in (2015), comandado por Iberê Carvalho, Brasília e o cinema têm uma história que daria um filme.

 

Sempre na vanguarda, a capital empoderou mulheres. Como no caso de Mallú Moraes, produtora das fitas de Geraldo Moares, entre as quais Círculo de fogo (1990), No coração dos deuses (1999) e O homem mau dorme bem (2009). Cibele Amaral, antes da estreia em longa (com Um assalto de fé), foi realizadora que viu o seu Momento trágico (2003), valorizado com quatro prêmios Kikitos no Festival de Gramado.

 

À diretora Betse de Paula coube registrar, na base da graça, a burocracia e criação artística, como nas comédias O casamento de Louise (2001) e Celeste & Estrela (2002). Tirando arte e emoção do reciclar de lixo, a realizadora Tânia Quaresma deu voz a marginalizados, com o documentário Catadores de histórias, premiado com três Candangos, na última Mostra Brasília do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

 

Na base da multiplicidade, do fazer artístico (exposto na vitrine anual do Festival de Brasília) ao popular e rentável, o cinema de Brasília consolidou, entre outros tópicos, a verve roqueira da cidade, em dois títulos: Somos tão jovens (de Antonio Carlos da Fontoura) e Faroeste caboclo (de René Sampaio), que em 2013  totalizaram lançamentos atendidos por mais de 3 milhões de público.

 

Por fim, quem quiser saber a cara do cinema da capital tem à frente exemplares de fitas arrojadas como o premiado Rosinha, de Gui Campos, além de rostos caros ao espectador candango, entre os quais, o do bonachão Andrade Júnior e os versáteis atores Murilo Grossi, Juliano Cazarré e Rosanne Mulholland, de fitas como A concepção (2005) e Meu mundo em perigo (2007).

 

AE/Reprodução

 

“O movimento de cinema proposto pelo Paulo Emílio Salles Gomes, não apenas na atuação dele dentro da UnB, é praticamente de clarividência. O cinema local vai sendo solidificado, tendo como pedra de toque a visão simbólica de Emílio, com as perspectivas de Brasília estabelecer grandeza de corpo, numa escala de importância nacional”, observa Vladimir Carvalho. O embrião do público exigente e crítico, sempre participativo do Festival de Brasília, pode ser visto como herança da veia de Paulo Emílio. Em 1963, na estruturação da Faculdade de Comunicação da UnB, Pompeu de Sousa trouxe nomes como o de Paulo Emílio e Nelson Pereira dos Santos para um quadro de ensino do audiovisual. Da prática cinematográfica ao fortalecimento de uma matriz ideológica na sétima arte, Paulo foi dos nomes fundamentais na criação do Clube de Cinema de Brasília, ao que se seguiu o estabelecimento da 1ª Semana do Cinema Brasileiro, que culminou no tradicional festival.

 

Arquivo pessoal

 

“O Márcio foi o cara que encarnou a função de produtor de cinema, pela cidade. Ele sabia, como poucos, estruturar e lançar um projeto de cinema. Alinhava propostas de arte com a máquina governamental, para alcançar os meios materiais de execução de um filme”, comenta o diretor Vladimir Carvalho, ao falar do amigo morto em novembro passado. Autor do longa A última estação (2012), Curi teve obras marcantes em parceria com destacados diretores da capital, entre os quais Renato Barbieri (Cora Coralina — Todas as vidas), Mauro Giuntini (Simples mortais) e Ronaldo Duque (Araguaya — Conspiração do silêncio), além de André Luiz de Oliveira (de Louco por cinema). No meio cinematográfico, Curi era dado como arguto conhecedor das leis e se tornou um grande batalhador por recursos junto a entidades como a Ancine.

 

Antonio Cunha/CB/D.A Press

 

Passada a diáspora de 1965 na Universidade de Brasília, o professor paraibano Vladimir Carvalho deu andamento à segunda fase do curso de cinema, ao lado de colegas como Fernando Duarte e Geraldo Sobral. A “improvisada” trajetória de docente foi concorrente à parte da representativa carreira de diretor. “Fiz os filmes que fiz, por ter vindo a Brasília. Sem a cidade, eu não existiria como cineasta”, conta o ex-professor. Aos 82 anos, Vladimir Carvalho é quem define a maior particularidade da obra dele, que desemboca numa trilogia de longas em torno da capital. “Em Conterrâneos velhos de guerra (1991), tratei de dilemas da construção de Brasília; já em Barra 68 — Sem perder a ternura (2001), tive a militância de mostrar um bem quase destruído pela ditadura, que era a UnB e, finalmente, Rock Brasília — Era de ouro (2011) tem integrantes das bandas como Plebe Rude, Capital Inicial e Legião Urbana mostrando a revolta juvenil que trouxe o perfil genuíno do rock, um dos mais fortes aspectos da cultura local”, demarca.

 

Paprica Fotografia/Divulgação

 

Foi uma sucessão de curtas-metragens que deram chão para o voo internacional do diretor brasiliense José Eduardo Belmonte, recentemente premiado em Cannes (no MPIDrama Screenings), com a inédita série Carcereiros. Sempre arrojado, o diretor de 46 anos, formado pela UnB, assinou obras como Subterrâneos (2003) e A concepção (2005), tendo a capital como pano de fundo, enquanto títulos como Se nada mais der certo (2008), premiado no Festival do Rio, e Meu mundo em perigo (2010) trouxeram mudanças de locação. Billi Pig (2012) e O gorila (2012) insinuaram leveza nas criações do cineasta que, com o longa Alemão (orçado em R$ 4 milhões), atingiu quase 1 milhão de espectadores nos cinemas.

 

Antonio Cunha/CB/D.A Press

 

Saído de uma área rural de Brazlândia, em 1977, Adirley chegou em Ceilândia. Engajado, ele tem reativado a postura que repudia a amputação cultural. Por meio de oficinas de cinema, Adirley fortaleceu um coletivo de produção audiovisual. A carreira foi pavimentada aos poucos: o brilho veio com o curta Rap, o canto da Ceilândia (2005); reafirmou o conteúdo social, com Dias de greve e, com o média Fora de campo integrou o É Tudo Verdade. Mas foi com longas impactantes como A cidade é uma só?, premiado em Tiradentes, e Branco sai, preto fica (premiado nos festivais de Brasília, Mar del Plata e Cartagena), que se inscreveu no cinema.

 

Carlos Moura/CB/D.A Press

 

No mix do cinema do piauiense Brazza, coube de tudo: faroeste, policiais, matadores, a alta burguesia local e ainda a máfia tupiniquim. Na marra, Brazza (morto em 2003) aprendeu o fazer da sétima arte, na Boca do Lixo, ao passar uma década em São Paulo. Tendo chegado à capital, em 1964, o cineasta bombeiro se afirmou com sete longas, entre os quais Os navarro e Matador de escravos, num esquema em que sempre acumulou funções no set. Erros de continuidade e momentos hilários compõem a trajetória do cineasta do Gama, com pontos altos como No eixo da morte e Fuga sem destino.

 

Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press

 

Chegada à capital, em 1972, a baiana obcecada por Glauber Rocha é das mais participativas cinéfilas do templo do Cine Brasília. De cineclubista à programadora de filmes, especialmente no período de conscientização da classe sindical, Berê não mede esforços para registrar informações em obras que se tornaram referência para Brasília, como no caso de Brasília 5.2 — Cinema e memória, 30 anos de Cinema e Festival e Luz, câmera, mesa e ação: O cinema brasileiro na cozinha.