Conheça os artistas plásticos que marcaram a história de Brasília

O Correio selecionou quatro nomes de artistas de ontem e de hoje responsáveis por levar a cidade para a cena nacional da arte brasileira

postado em 21/04/2017 00:00 / atualizado em 21/04/2017 01:38

Brasília nasceu predestinada às artes visuais. Quando Oscar Niemeyer vislumbrou sua selva de curvas de concreto, incluiu uma quantidade enorme de obras de arte notáveis. Seria natural, portanto, que a semente rendesse frutos.

 

A utopia que permitiu a construção de uma capital no meio de um planalto deserto também alimentou a produção artística local e alguns expoentes ajudaram a levar a cidade para o resto do país como um símbolo de vanguarda, modernidade e contemporaneidade bem distantes do clichê da burocracia, escândalos e desvios que pairam sobre a Esplanada.

 

O Correio selecionou quatro nomes de artistas de ontem e de hoje responsáveis por levar a cidade para a cena nacional da arte brasileira. Nascidos no Planalto Central ou não, eles fizeram da terra vermelha seu ateliê e sua fonte.

 

Athos Bulcão

 

Athos Bulcão nasceu no Rio, foi assistente de Cândido Portinari no trabalho da Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, estudou em Paris, mas foi em Brasília que se tornou um pioneiro. Ele já trabalhava com Niemeyer quando começou a colaborar nos projetos da capital, por volta de 1957.

 

Fundação Athos Bulcão

 

Fez tantos painéis e intervenções na arquitetura da cidade que acabou conhecido no mundo inteiro como uma espécie de número dois no modernismo brasiliense. Dos azulejos geométricos e coloridos aos painéis em mármore e outros materiais, Athos deu uma cara para o interior de muitos prédios públicos e residenciais da cidade.

 

Gê Orthof

 

Brasília entrou na vida do artista em 1960, um ano antes de ser inaugurada. Gê tinha apenas 2 anos e guardou lembranças como a poeira, a terra vermelha e, sobretudo, o vazio. Até hoje, o artista garante que sua forma de estar no mundo tem a ver com esse vazio. Brasília ficou entranhada em Gê, assim como memórias familiares e coletivas.
 
Arquivo Pessoal
 
A partir delas, nem sempre fatos vividos pessoalmente, ele cria as instalações mais curiosas da produção brasiliense. Há muito de visto, vivido e ouvido na obra de Gê e isso toca tanto as pessoas que o nome do artista ganhou projeção nacional e internacional.
 
A obra do artista já esteve em exposição em importantes instituições internacionais como o Centro de Arte Moderno de Madri, o Museum of Fine Arts Gallery, em Boston, e nos mais renomados museus brasileiros, como o de Arte Moderna do Rio de Janeiro, os de Arte Moderna e de Arte Contemporânea de São Paulo, e a Fundação Armando Álvares Penteado.
 
No exterior, a lista de pequenos centros culturais que requisitaram o trabalho de Gê nos últimos dois anos é extensa. Los Angeles, Barcelona, Bruxelas, Jacarta,  Nova York, Londres e Bratislava são algumas das cidades que já receberam o trabalho do artista. Orthof leva Brasília para fora porque parte de seu imaginário está aqui. “Ele reputa que muito da formação do primeiro tempo que morou em Brasília, na infância, está presente na produção não como coisa nostálgica mas como algo que estabelece cicatrizes”, explica a curadora e historiadora Marília Panitz. “E essa projeção para fora se deve a um trabalho que tem coerência enorme. O trabalho do Gê se estabeleceu como uma linguagem e tem uma marca.”
 

Milton Marques

 
Milton é o arquiteto das engenhocas obsoletas. Adora transformar engrenagens de velhos eletrodomésticos e aparelhos eletroeletrônicos em instalações cheias de poesia e de reflexões sobre a vida contemporânea. Milton é também o nome brasiliense mais presente nas mais importantes exposições coletivas do Brasil. O artista levou o nome da cidade para eventos como a Bienal do Mercosul, na qual esteve em 2005, Bienal Internacional de Arte de São Paulo, para a qual foi convidado em 2004, para a Arco, a mais importante feira de arte da Europa, e para a Feira de Frankfurt, dedicada aos livros mas na qual Marques representou o Brasil.
 
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A
 
Ele também foi um dos nomes selecionados para o Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo em 2007. Além disso, a obra do artista faz parte do acervo do prestigiado Clube da Gravura do MAM/SP. “Meu trabalho tem muita coisa de adaptação, não só de técnica, mas de um sentimento de adaptação que eu sentia e que era a parte viva do trabalho”, explica.
 
Marília Panitz lembra que o artista vem de uma trajetória de experiência e rompimento de regras que permite um enorme exercício de liberdade e ironia. Marques passou pelo coletivo Corpos informáticos antes de mergulhar no trabalho individual e Marília acredita que a experimentação vem dessa vivência. “Ele cria engenhocas poéticas cuja função é só essa. É uma marca que comenta nosso mundo de hoje”, explica Marília. “A projeção dele se dá por essa descoberta, porque no momento em que começa a expor e é visto, as pessoas vêm buscar o trabalho dele aqui”.
 

João Angelini

João Angelini é de Planaltina e isso é importante. Cresceu rodeado de uma paisagem de contornos diferentes do Plano Piloto, mas estudou na Universidade de Brasília (UnB) e começou a trajetória artística em um meio pautado pela contemporaneidade e pela experiência coletiva. Os trabalhos realizados com o grupo goiano EmpreZa ajudaram a levar o nome de Angelini para o cenário nacional.
 
Ana Rayssa/Esp.C.B/D.A Press
 
Hoje, ele chega a ser confundido como um artista goiano mas, dependendo da situação, gosta de lembrar que é de Brasília.  “Essa identidade do artista de Brasília também passa por um compromisso de participar da história da cidade. ”
 
Para Renata Azambuja, historiadora de arte e curadora independente, a projeção nacional de artistas como Angelini e Gê Orthof se dá por duas razões. “É o posicionamento do artista em relação ao sistema de arte e o fato de a poética estar sempre atualizada. Por isso, precisa estar dentro de uma rede de relacionamentos”, diz.
 

Valores com a marca candanga

Impossível escapar de Oscar Niemeyer e Lucio Costa quando se trata de elencar nomes que projetaram Brasília no mundo. Os criadores, obviamente, colocaram sua criatura no pedestal e fizeram o mundo admirá-la. Mas eles não estavam sozinhos. Muitos colaboradores ajudaram a dar continuidade à cidade, que não poderia ficar engessada e foi modificada ao longo de seus 57 anos, algumas vezes na marra e a contragosto, outras na doçura e com cuidado.
 
Além da dupla criadora, nomes como Milton Ramos e José Filgueiras Lima executaram projetos que ajudaram a promover a capital no Brasil e no exterior.
 
Zuleika de Souza/CB/D.A Press
 
Hoje, pelo menos duas gerações se encarregam de projetar a cidade com a participação em concursos, prêmios e exposições. Não são, necessariamente, herdeiros da arquitetura modernista de Niemeyer e nem das ideias urbanísticas de Lucio Costa.
 
Um dos nomes mais conhecidos é o de Sérgio Parada, responsável pelo projeto de reforma do Aeroporto Internacional Juscelino Kubitscheck. Curitibano, ele veio para Brasília nos anos 1970 e trabalhou para empresas de arquitetura e engenharia antes de montar o escritório. A lista de concursos ganhos pela equipe de Parada é extensa e inclui o aeroporto de Wuxi, na China e o Pavilhão do Brasil na Expo Milão de 2015.
 
De gerações mais novas, destacam-se nomes como Daniel Mangabeira e Bruno Campos. Arquiteto associado do escritório BLOCO, Mangabeira vê no trabalho da equipe uma influência da arquitetura moderna de forma geral, mas não especificamente a de Niemeyer.
 
Quando saem da cidade, a pergunta mais frequente ouvida pelos arquitetos é “como é projetar numa cidade planejada por Oscar Niemeyer e Lucio Costa?”. “Ao mesmo tempo que a gente responde que não foi aluno deles, explicamos que há um enorme respeito. Mas, de certa forma, há também uma liberdade propositiva. A gente vive em uma cidade que é foco de muitas críticas e elogios, mas isso nos deixa menos amarrados”, explica Mangabeira.
 
Bruno Campos, do escritório MOÓCA, é outro nome da nova geração que tem circulado em cenários importantes da arquitetura internacional. Em 2009, ele foi colaborador da Agência Renzo Piano Building Worskshop e trabalhou em projeto em Malta. Piano é um dos nomes mais importantes da arquitetura contemporânea no mundo e assina projetos como o Centro Georges Pompidou, em Paris, e o Whitney Museum, em Nova York.
 
Quando olha para o trabalho dessa turma, o arquiteto Nonato Veloso, professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB), encontra uma forte influência da arquitetura paulista. É a produção que vem na esteira de Paulo Mendes da Rocha, ganhador do prêmio Pritzker em 2006 e nome mais importante da atual arquitetura brasileira. “Ele dá o tom em São Paulo e nas outras capitais”, diz Veloso. Segundo o professor, a cara da arquitetura brasileira hoje é muito focada nas técnicas construtivas. “Elas ficam mais explícitas, seja no concreto aparente ou na estrutura metálica.”