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Ameaça na sala de aula

Droga avança sobre território escolar

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postado em 03/09/2012 10:14 / atualizado em 03/09/2012 11:37

Monitoramento eletrônicoemcentro de ensino de Taguatinga: há câmeras espalhadas inclusive nos banheiros
O tempo em sala de aula não se limita mais ao ensinamento de disciplinas básicas. Entre uma matéria e outra, as escolas do Distrito Federal precisam se desdobrar para serem mais um agente no combate às drogas, dentro e fora dos muros da instituição. Com poucos recursos, professores e diretores presenciam diariamente o envolvimento de estudantes com o uso e até com o tráfico de entorpecentes, um caminho que não raras vezes termina em prisão ou morte. Ainda que as estatísticas não descrevam por completo a realidade do ambiente de ensino, elas indicam a proximidade crescente entre esse submundo e os alunos. Cenário que vem se tornando comum, tanto na rede pública quanto na particular.

A invasão das drogas nas instituições de ensino é tema de uma série de reportagens que o Correio publica a partir de hoje. Levantamento feito pela Secretaria de Segurança Pública a pedido do jornal revela que, de janeiro a julho deste ano, cresceu 13% a quantidade de ocorrências relacionadas ao uso de substâncias ilícitas em um raio de até 100 metros das 1.095 unidades educacionais distribuídas na capital brasileira (veja arte). Em 2012, a polícia já flagrou 661 pessoas consumindo maconha, cocaína ou crack nas imediações ou dentro de escolas. São seis casos por dia letivo — devido à greve, de janeiro a julho foram 105 dias com aulas —, fora o consumo que passa despercebido das autoridades. A cidade que mais concentra o delito é Ceilândia, com 75 ocorrências.

O crescimento é mais acentuado nas instituições particulares, onde o número de ocorrências aumentou 15% nos primeiros sete meses do ano. Nas escolas públicas, a alta é de 12%. Apesar de o número de usuários flagrados seguir uma alta, os registros policiais apontam uma redução de 8% no tráfico no perímetro escolar entre 2011 e 2012. Ainda assim, foram 239 flagrantes de venda de entorpecentes ao redor das escolas, média superior a duas prisões por dia letivo (leia mais na página 32).

Os muros não conseguem evitar a transposição desse cenário para dentro da sala de aula. Na última semana, o Correio visitou oito escolas de quatro cidades. Em todas elas, em maior ou menor intensidade, servidores travam uma batalha diária para impedir que estudantes se envolvam, usem ou trafiquem drogas portões adentro. Um levantamento feito em 2010 pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) — a pesquisa mais recente disponível—mostrou que praticamente um terço (31,6%) dos 2.425 estudantes ouvidos experimentaram algum tipo de entorpecente pelo menos uma vez na vida.

As escolas procuram levar palestrantes para conversar sobre as consequências do vício, instalam câmeras por todas as partes — inclusive nos banheiros —, pedem a presença da polícia, mas não é incomum que os gestores tenham de deixar o colégio no meio do turno para acompanhar estudantes à Delegacia da Criança e do Adolescente. E fazer isso exige tempo, dedicação e recursosmuitas vezes não disponíveis, principalmente na rede pública de ensino.

Em algumas escolas, o problema de alunos viciados é tão grave que os educadores já adotam a estratégia de controle de danos. “Chegou a umponto que nosso maior problema não é mais falar para eles pararem de usar droga. Hoje, eu tento educar para que eles tenham horários. Digo: ‘não fume (maconha) antes de entrar na escola’, porque fumam de manhã e já chegam agressivos para a aula”, desabafa o vice-diretor de uma instituição
pública de Taguatinga que atende mais de 2 mil jovens. Muitos deles têm passagens por unidades de internação para menores infratores e estão em liberdade assistida.

Monitoramento
Nesse centro de ensino, há câmeras espalhadas por todos os lados, até mesmo nos banheiros, onde já houve vários flagrantes de uso de maconha e cocaína. Os episódios vão parar no “livro preto”, ata de ocorrências da escola, e na sequência seguem para delegacias especializadas ou comuns, quando o estudante émaior de idade. “Esse ano eu já perdi a conta de quantas vezes desci para a delegacia. Por violência, droga e por aí vai”, conta o gestor. Há dois anos, a unidade tem presença fixa do Batalhão Escolar, mas ainda assim não é suficiente para evitar o consumo de narcóticos, principalmente maconha, nas esquinas da quadra e em becos próximos ao colégio

Homens da PM estão sempre no pátio de um centro educacional de Ceilândia localizado em uma região bastante conhecida por usuários e traficantes de crack, maconha e cocaína. As janelas da escola são gradeadas e nenhuma passagem fica destrancada. Cada um ali dentro conhece uma história trágica que começa ou termina com vício ou venda de narcóticos. Há dois meses, um menino de 13 anos, matriculado no 6º ano, foi executado com 11 tiros na
frente de casa. A principal suspeita é acerto de contas. “Eu mesma já tinha visto esse menino sair daqui com policiais por causa de droga. Eu tinha pavor dessa escola, mas penso que histórias assim me dão força para continuar. Esses meninos têm que tirar algum futuro da escola. Se eu conseguir salvar dois ou três de uma sala com 30, ganhei meu canto no céu”, diz uma professora de geografia.

Emaltanas particulares

Engana-se quem pensa que o uso de drogas está restrito ao universo do ensino público. Pelo contrário. As instituições particulares já são palco de quase 40% dos flagrantes de consumo de entorpecentes emumraio de até 100 metros das escolas do Distrito Federal. E, proporcionalmente, neste ano a incidência de uso de substâncias ilícitas cresceu mais nas redondezas dos estabelecimentos privados. Nos colégios do governo, os flagrantes passaram de 363 para 407, uma elevação de 12%. Já nas entidades particulares, o aumento foi mais significativo, de 15%: passou de 221 para 254 ocorrências.

Aescalada das drogas nos colégios pagos desperta a atenção do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do DF (Sinepe- DF). No intuito de evitar perder alunos para o tráfico, a entidade passou a desenvolver projetos com todos os agentes que trabalham direta ou indiretamente com os estudantes. Por meio de um curso custeado pelo sindicato, docentes e até porteiros aprendem como abordar estudantes sob efeito de entorpecentes. “Acreditamos que conseguir fazer com que o aluno diga ‘não’ é mais fácil do que tentar resgatá-lo. Temos trabalhado em cima de projetos pedagógicos que façam os jovens se interessarem mais pela escola e, consequentemente, não se envolvam com atividades ilegais”, ressalta a presidente do Sinepe, Fátima de Mello Franco. (AS e SA)
 

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