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AMEAÇA NA SALA DE AULA

Simples ideias vencem o duelo contra as drogas

Escolas públicas localizadas no Areal, em Águas Claras, e em Taguatinga são uma prova de que, com o envolvimento da direção, de professores, de alunos e pais e da comunidade, é possível combater o consumo e até mesmo o tráfico de entorpecentes

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postado em 06/09/2012 08:00 / atualizado em 05/09/2012 17:45

Iano Andrade Lucélia Cristina Toledo, orientadora pedagógica da Vila Areal: alunos unidos no combate às drogas

Quando a situação parece difícil demais para ser superada, a criatividade e a tenacidade podem ser poderosas ferramentas para transformar um lugar. Se essas qualidades aparecem dentro de uma escola que duela contra a violência e as drogas, ações simples, mas bem direcionadas, são capazes de promover melhorias até então inimagináveis na vida de estudantes e professores. Entre tantas histórias tristes de colégios sitiados pelo tráfico e de vidas perdidas para o vício ou pela criminalidade que vive na esteira da droga, há experiências de cidadania bem-sucedidas sendo desenvolvidas em escolas do Distrito Federal. Um colégio que vem conseguindo bons resultados é o Centro de Ensino Fundamental Vila Areal, no Areal, uma região pobre em Águas Claras. Professores inconformados com a ofensiva do tráfico resolveram contra-atacar. Como a presença da polícia só resolvia o problema pontualmente, eles decidiram apostar em trabalhos sociais para livrar estudantes do vício. Deu certo. Há um ano, o centro educacional deixou de ser conhecido na comunidade como “colégio do medo” e tornou-se referência. A transformação teve início com um tímido projeto. Elaborado pela coordenadora pedagógica, Lucélia Cristina Rosa Toledo, o “Educar em Valores” conseguiu dar um novo rumo à escola. A ideia é simples, mas eficiente. Consiste em estimular os jovens a participar ativamente de temas que envolvam o combate às drogas e à violência. Lucélia e a direção da instituição chamaram palestrantes que trabalham o tema em sala de aula. “Percebemos o quanto eles ficam envolvidos quando trabalhamos temas relacionados à realidade que eles vivem”, ensina Lucélia. A instituição percebeu que, para manter os seus alunos longe dos entorpecentes, era preciso envolver os pais de cada um deles. Alguns docentes abriram mão do sábado com a família para desenvolver um trabalho social na escola. Tudo junto com os pais. Notaram com isso que grande parte da violência externada por meninos e meninas em sala de aula era reflexo da educação que recebiam em casa. Ou seja, a essência do problema vinha de berço. Durante as reuniões, descobriu-se que alguns alunos são órfãos. Muitos perderam os pais por causa de conflitos envolvendo a guerra do tráfico na região. Com um contexto familiar marcado pela tragédia, acabavam descontando na escola as decepções e fracassos na vida pessoal (leia depoimento). Palestra O Centro Educacional 6 de Taguatinga Norte é outra instituição cujos projetos têm conseguido colocar um freio no consumo e o tráfico dentro e nos arredores da instituição. O diretor, Gúbio Barros Cardoso, já se recusou a ministrar uma disciplina porque a sala de aula estava tomada pelo mau cheiro de maconha. “Chegou um ponto em que o professor estava dando aula, e os alunos, traficando ela janela”, conta. O panorama começou a mudar quando o iretor e os professores passaram a ficar mais próximos dos lunos. Gúbio, por exemplo, usou o futebol para estreitar o frio relacionamento entre mestre e aprendiz. Toda quinta-feira, ele chama dezenas deles para jogar bola na quadra da instituição. Entre uma partida e outra, observou que muitos não tinham afeto. “Muitos alunos problemáticos ficaram mais disciplinares e passaram a respeitar os professores”, conta. Na segunda-feira, a direção da escola viu algo que parecia impossível. Mais de 500 alunos, muitos considerados problemáticos, assistiram quietos a uma palestra com duração de quase duas horas. Antes, várias tentativas de manter a massa estudantil concentrada em uma atividade se mostravam em vão. O feito foi possível graças ao trabalho desenvolvido pelo grupo Sempre Haverá Esperança (SHE), que se apresenta em escolas públicas e privadas de todo o país promovendo palestras e peças teatrais. Com uma linguagem voltada para o público adolescente, os seis integrantes arrancaram aplausos e lágrimas da plateia. Durante a abordagem, o coordenador do SHE, Jean Carlos Rosa, citou matérias publicadas pelo Correio e fez um alerta: “Evitem se envolver com drogas. Não decepcionem a mãe de vocês”. Ajuda O Sempre Haverá Esperança se apresenta há 20 anos em escolas públicas do país. Eles não têm qualquer tipo de apoio do governo. Conseguem se manter por meio da venda de ingressos e CDs das apresentações. Desde 2010, o SHE está no DF. O grupo pode ser acionado pelo (61) 8245-2242. O SHE não cobra cachê da escola. DepoimentoPlantando uma semente” “Acho que tenho uma missão a cumprir nessa escola. Há alguns anos, sofri ameaças por parte de um pai que eu havia denunciado por agredir os filhos. Fiquei afastada 15 dias. Depois, tentei transferência, mas não consegui. Então, passei a acreditar que eu tinha que desenvolver um trabalho aqui para tentar mudar a realidade desse lugar e dessas crianças. Aí comecei a procurar parceiros e fiquei dois anos insistindo para trazer uma ONG para dar palestras aqui. Até o dia em que consegui. Acho que estamos plantando uma semente que vai dar frutos fora da escola. Eu amo o que faço e sei que vou longe com esse projeto. Você tem que dar o melhor para quem não tem nada”. Lucélia Cristina Rosa Toledo, orientadora pedagógica da Vila Areal

 

 

 

 

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