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Athos Bulcão restaurado

Painéis do artista e professor passarão por uma reforma, graças a um investimento de R$ 373 mil. Produtos químicos removerão as manchas nas cerâmicas, que serão depois retocadas com tinta. Escola Classe na Asa Norte é a primeira a ganhar a melhoria

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postado em 12/03/2013 19:00 / atualizado em 12/03/2013 12:48

Isabela de Oliveira /

Ronaldo de Oliveira
Por mais de 40 anos, o painel de Athos Bulcão que estampa a fachada da Escola Classe 407/408 Norte enfrentou os efeitos do tempo. Com muito esforço e pouca técnica, as sucessivas
administrações da unidade tentaram amenizar as marcas que as décadas deixaram na arte “do homem que fazia azulejos”. Os murais do Mercado das Flores, na Asa Sul, e do Instituto de Saúde Mental, no Riacho Fundo, também sofrem com os efeitos de anos sem cuidados preventivos. Diante da necessidade de resguardar o legado de Bulcão, R$ 373 mil serão investidos na recuperação das composições, que devem estar prontas até o fim de outubro.

A Escola Classe 407/408 será a primeira contemplada da parceria firmada entre a Fundação Athos Bulcão e o Conselho Federal Gestor do Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, vinculado ao Ministério da Justiça. A unidade de ensino, que hoje funciona em período integral e atende 180 alunos, 25 deles especiais, foi projetada em 1965 por Milton Ramos. A área externa é recoberta por três tipos de azulejos: um branco, um preto e outro branco com um terço preto. No entanto, infiltrações e rachaduras deixam o painel, um dos 200 instalados em construções públicas de Brasília, quase irreconhecível.

“O estado de conservação chegou a um ponto que me deixa preocupado. Há piores, mas essas ficaram mais de 40 anos sem reparo. A obra de arte precisa de manutenção periódica”, explicou Wagner Matias, técnico em conservação e restauração responsável pelo trabalho.

Ana Paula Poças Zambelli, diretora da escola, desenvolve um projeto de educação patrimonial com os alunos há oito anos. “Fica difícil ensinar as crianças sobre preservação se o nosso patrimônio está danificado. E não foram elas que estragaram, foi o tempo. A gente até tenta cuidar, mas olhando o trabalho dos profissionais, vemos que é preciso mais do que boa vontade”, completou a professora.

João Pedro Câmara, 10 anos, descreve o artista: “É o homem que fazia azulejos, além de pintar, e eu aprendi que é o maior artista de Brasília”, explicou o aluno do 5º ano. As crianças não escondem o orgulho. “A nossa escola é de um artista que tem trabalhos em toda a cidade. Dá vontade de ser que nem ele, porque mexer com tinta é a melhor coisa que existe”, acredita Liryel Macedos dos Santos, 10 anos. “É legal pensar que ele fez isso pensando na gente, e a gente ainda nem era nascido”, destacou João Pedro.

Hidrojateamento

Ricardo Moreira integra a equipe de restauração. “O objetivo é manter o que já existe, sem danificar”, explica. Primeiro, a pintura do mural em concreto na lateral da escola terá a tinta removida por um processo de hidrojateamento. As cerâmicas passarão por uma limpeza, que removerá, com uso de produtos químicos e máquinas, todas as manchas. Os restauradores substituirão poucas peças, difíceis de encontrar.

O técnico em conservação Wagner Matias acrescenta que a maioria será reparada por um processo parecido com o de obturação dentária. “Pincelamos com tinta da mesma cor e fazemos os retoques para deixar o azulejo lisinho”, detalhou. Segundo ele, o trabalho na escola deve terminar dentro de quatro meses.

Na Asa Sul, escondido no Mercado das Flores, outro painel de Bulcão (ver Memória) está deteriorado. Maria José Pereira Barbosa, que trabalha no local desde 1986, conta que a cerâmica jamais passou por uma restauração. “Com certeza, após esse trabalho de recuperação, veremos mais turistas e até venderemos mais. Aqui, temos clientes de todos os tipos, felizes e tristes, pois muitos vêm homenagear parentes que morreram”, destacou a empresária. Ela lamenta que o Mercado seja pouco conhecido na cidade. “Talvez a gente não dê tanto valor, porque vê todo dia, mas crianças vêm com os pais à escola só para ver isso aqui”, relatou a cearense.

O último painel a ser restaurado é o do Instituto de Saúde Mental, em Riacho Fundo I. A composição de 40m² foi redescoberta em 2004 e, desde sua criação na década de 1960, quando foi construído o edifício, jamais passou por reparos.

Memória
Parceiro de Niemeyer

O escultor, pintor e professor Athos Bulcão nasceu em 1918 no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. Aos 21 anos, largou a Faculdade de Medicina para se dedicar às artes plásticas e foi apresentado a Portinari, de quem foi assistente no Mural de São Francisco de Assis, na Pampulha. A parceria com  Niemeyer surgiu em 1943, quando o arquiteto encomendou o projeto para o Teatro Municipal de Belo Horizonte. Em 1957, a convite de Niemeyer, foi requisitado do MEC para a Novacap e, no ano seguinte, mudou-se para Brasília. Athos Bulcão estava em tratamento contra o Mal de Parkinson desde 1991 no Sarah Kubitschek e morreu, aos 90 anos, após parada cardiorrespiratória em 31 de julho de 2008.
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