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Educação que vai além da sala de aula

Simulação da ONU e do STF desperta o interesse de jovens em escola do DF por assuntos polêmicos da agenda mundial

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postado em 26/04/2013 16:38 / atualizado em 29/04/2013 11:12

Gustavo Aguiar

Natália Borgo/ Divulgação
Pedro Milhomem tem 12 anos e uma grande missão: precisa convencer representantes de países do mundo inteiro de que, para evitar uma guerra nuclear sem precedentes na história, Cuba deve desativar os mísseis enviados pela União Soviética ao país caribenho. “Não, não voltamos aos tempos da Guerra Fria”, tranquiliza o garoto, vestido num terno perfeitamente ajustado para o seu 1,50 m de altura. "Isso é só uma simulação. E hoje eu sou John F. Kennedy 'em pessoa'. Um pouco mais baixinho, é claro."

Como Pedro, cerca de 460 alunos das três unidades do Colégio Leonardo da Vinci se encontram na sede da instituição em Taguatinga para participar da 7ª Simulação das Nações Unidas – OnuVinci. A atividade, complementar às aulas tradicionais da escola, busca estimular os alunos do 8º ano do fundamental ao 3º ano do ensino médio a se aprofundarem em assuntos importantes da agenda mundial.

Eles simulam debates que reproduzem discussões de organismos nacionais e internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU, a Organização Mundial da Saúde e até o Supremo Tribunal Federal, corte máxima da justiça no Brasil. Além desses, há uma agência de comunicação, um comitê voltado para estudantes interessados na área de jornalismo, que fazem a cobertura jornalística de todo o evento.

Mesmo que na brincadeira, os estudantes se tornam por alguns dias ministros, delegados, advogados, diplomatas e presidentes, cuja tarefa é decidir questões que podem modificar a vida de pessoas ao redor do mundo todo. O uso de armas biológicas ou os desafios do desenvolvimento sustentável, a crise financeira atual e os problemas da saúde pública no mundo são algumas das questões em debate. 

Como é de costume nesse tipo de atividade, o figurino deve ser impecával para manter o ar de reunião oficial. Os participantes entram de verdade no espírito da simulação: amigos de longa data se tratam de maneira formal e com o máximo de decoro; delegados de países muçulmanos, por exemplo, usam indumentárias que marcam a posição religiosa e política da nação que representam. Ao final do evento, os alunos, voluntários nesta atividade, devem entregar um documento apresentando soluções para o problema discutido.

Rotina de líder
De manhã tem aula normal, mas, durante três tardes, até amanhã (27), Pedro deixará de lado os cadernos e a mochila para pensar como o 35º presidente americano fez na vida real durante a crise dos mísseis de Cuba, em 1962. O conflito foi o momento de maior tensão da Guerra Fria, mas tem estimulado a curiosidade de Pedro, do 8º ano, há mais de duas semanas.

“Estudei tudo o que pude sobre o assunto para me sentir preparado e discutir com argumentos de gente grande. Aqui é como se fosse tudo de verdade, e dentro da reunião fica todo mundo meio tenso”, confessa.

O jovem conta que, apesar da pouca idade, sempre se interessou pelo trabalho da ONU, e encontrou na simulação uma forma de se aproximar das atividades que, um dia, pretende exercer profissionalmente. “Ainda não sei o que quero fazer, mas simular é muito legal. Acho que vou acabar escolhendo alguma profissão parecida com o que fazemos aqui. Além de eu aprender um monte de coisa, perdi a timidez de falar em público e agora organizo melhor minhas ideias quando falo”, enumera. 

Pedro precisou voltar correndo para a reunião no comitê da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), do qual participa: “acabei de emitir uma ordem militar bloqueando os mísseis. Quero ver o que vai acontecer.”

Educação sem fronteiras
Para o coordenador do projeto na escola, o professor de geografia Farid Aguiar, utilizar modelos da ONU é uma forma eficiente de estimular os jovens a se interessarem por assuntos de interesse global. “Eles se envolvem de verdade com o tema, assumem o papel que representam, e aprendem muito mais em três dias de debates do que durante um bimestre de aulas.”

Simulações como essa são muito tradicionais em escolas americanas e europeias, e existem desde os anos 1920, inspiradas pela antiga Liga das Nações. Modelos de organizações são considerados verdadeiros laboratórios de ciências sociais, onde estudantes podem desenvolver técnicas de oratória, política e diplomacia, além de aprender sobre temas específicos.

Na OnuVinci, por exemplo, enquanto o Comitê de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento discute o problema das guerras biológicas, o fictício STF julga autorização para a venda de um medicamento que tem como composto ativo o principal componente da maconha.

Paulo Henrique Correia, 17 anos, aluno do 3º ano do ensino médio, assume que, desde que simulou um comitê da ONU pela primeira vez, não consegue mais não participar dos modelos que aparecem. “Esta é a quinta vez que participo, e não pretendo parar”. Para ele, a experiência é mais enriquecedora que muitas atividades em sala de aula.

“Desenvolvemos habilidades que não conhecíamos antes, e que são fundamentais para qualquer formação de qualidade.” Saber ouvir,  falar na hora certa, usar o vocabulário adequado e aprender a negociar são apenas alguns dos aprendizados do rapaz. “Sem contar os amigos que fazemos nessas atividades.  Entramos em contato com pessoas de outras turmas, de outras séries, e discutimos todos de forma igual.”

Como a simulação interna do colégio capacita os melhores a participarem de modelos intercolegiais, Pedro aproveita modelos para fazer amigos além dos muros da própria escola. “Já participei de algumas em Brasília, e conheci muita gente nova, o que é ótimo para mim. Ajuda a sair um pouco da bolha”, revela.

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