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O BÊ À BÁ DA VIOLÊNCIA »

Território da insegurança

Dois alunos baleados em escolas públicas somente este ano são exemplos de um problema constante nas unidades de ensino

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postado em 31/03/2014 10:55 / atualizado em 31/03/2014 12:50

Adriana Bernardes , Manoela Alcântara

Marcelo Ferreira
Em todo o Distrito Federal há 1,2 mil instituições de ensino públicas e privadas. Para cuidar delas, há um efetivo de 462 policiais militares do Batalhão Escolar. São cerca de 150 trabalhando diariamente ao mesmo tempo. A unidade especializada em atender ocorrências nas escolas registrou 640 casos de violência ano passado — média de quase duas por dia. Apesar disso, o comandante do batalhão, o tenente-coronel Fábio Aracaqui de Sousa Lima, nega que os colégios do Distrito Federal sejam violentos. “O clima é de medo porque só os atos violentos são propagados. Os bons acontecimentos não são divulgados. O que existe são casos isolados”, afirma.

O comandante tem mapeadas as escolas com focos de problemas, mas não revela os nomes por acreditar que a exposição provoca ainda mais prejuízos. Elas ficam em Ceilândia, Planaltina, São Sebastião e Plano Piloto. As operações do Batalhão Escolar demonstram que, às quintas, sextas e segundas-feiras, a apreensão de armas é maior. Cerca de 90% delas estão nas mãos de quem tem menos de 18 anos. "Eles levam para se exibir, mostram aos colegas, contam o que pretendem fazer ou o que fizeram com aquilo (arma) no fim de semana”, explica Sousa Lima.

No ano passado, o Batalhão Escolar atendeu 636 queixas, contra 647 no mesmo período de 2012. As 10 ocorrências mais flagradas são uso e porte de drogas, brigas, lesão corporal, ameaça, porte ilegal de arma de fogo, roubo, desacato, porte de arma branca, furto e tráfico de drogas. O levantamento das armas apreendidas por região administrativa coloca Recanto das Emas, Ceilândia, Planaltina, Samambaia e Gama como as cinco campeãs de ocorrências.

Apesar das ocorrências, tanto o representante da PM como integrantes da Polícia Civil garantem que boa parte dos problemas que ocorre dentro das instituições de ensino não são casos de polícia. As situações de risco seriam evitadas com medidas simples, como o controle de entrada e saída de alunos; a exigência do uniforme; vigilância por parte de funcionários da instituição de ensino sobre o que acontece do muro para dentro e vigilância patrimonial.

Desde que foi baleado no Caseb,em 28 de fevereiro, João*, 14 anos,  não pisou mais no colégio. “Nem vai. Não para aquela escola. Vou procurar uma vaga para ele em outro lugar”, afirma, categórica, a mãe dele. Vânia*, 32, auxiliar de serviços gerais  não consegue entender quais circunstâncias motivaram a tentativa de assassinato. “Ele (João) me disse que foi por ciúmes de uma menina com quem estava ficando. Quem atirou tinha namorada, mas parece que gostava era dessa. Já ouvi tantas histórias que nem sei em que acreditar”, admite a mãe, evitando lembrar as outras explicações.

Investigadores da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) I  (Asa Norte) confirmam que a tentativa de assassinato contra João foi vingança. “O autor disse ter sido ameaçado com uma faca ou estilete no dia anterior pela vítima, que queria roubar seu tênis. Essa versão é confirmada por uma testemunha”, informa a delegada Mônica Ferreira, chefe da DCA I. A história contada por João à mãe é outra.

João está um ano atrasado nos estudos, segundo Vânia, por causa da guerra de gangues de Planaltina. “Ele vivia sendo ameaçado na entrada do CEF 4 porque moramos em um bairro inimigo de quem vive perto do centro de ensino. Não ia deixar meu filho correr esse risco e o tirei da escola. Isso é comum. Em todas os colégios de Planaltina, as pessoas vivem com medo. Este ano, consegui vaga no Plano e olha no que deu”, lamenta. Vânia diz que o filho pôs um ponto final no relacionamento que teria motivado o crime. “Ele não é doido de continuar com isso (namoro)”, impõe Vânia.

Intervalo
Em Santa Maria,em 13 de março, Pedro*, 15 anos, foi baleado no pé dentro do Centro de Ensino Fundamental 209. Os criminosos entraram pelo portão da frente e saíram sem sofrer qualquer tipo de abordagem. “Estava na hora do intervalo. Dois meninos entraram correndo e um atirou para baixo. A bala pegou no meu pé. Não conheço nenhum deles”, reclama a vítima, um estudante de 15 anos, matriculado no 7 ºano do ensino fundamental.

Ano passado, ele assistia às aulas pela manhã, mas, por ter sido reprovado algumas vezes, manteve uma distorção entre série e idade e acabou transferido para o período noturno. Matriculado no ensino de jovens e adultos (EJA), o adolescente nem pensa em voltar a estudar. “Só volto se conseguir vaga pela manhã. À noite, não precisa nem de uniforme. É muito perigoso. Desejo me formar logo, mas não quero correr risco de vida dentro da escola”, argumenta o rapaz.

* Nomes fictícios em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente4



Cinco perguntas para

Miriam Abramovay,
especialista em violência escolar

Gustavo Moreno
 

 

Por que ocorre a violência nas escolas?
As características da escola mudaram completamente nos últimos anos. Antes, há 30 anos, por exemplo, era uma instituição mais de elite. Essa massificação da educação fez com que o colégio se tornasse um local para todos. A chamada cultura de rua entrou para os colégios. E essa é uma cultura violenta. No entanto, temos uma escola do século retrasado para crianças, adolescentes e jovens que são do século XXI. Não houve uma adaptação na linguagem, no modo de ser, de agir. O colégio não aceita o modo de falar e agir desses jovens. Não entende a música, as ideias, o modo de se vestir. Os símbolos juvenis, como o boné, não são aceitos pela escola. Isso causa uma tensão e uma relação que não impulsiona o jovem a gostar da escola, a zelar por ela.

São problemas originados nos colégios?
Algumas vezes sim, outras não. Existem conflitos diferentes. Os problemas que vêm de fora da escola se chocam com os do cotidiano, no qual existe uma relação muito tensa entre professores e alunos. Em geral, não é uma relação de amizade, de ensino e aprendizagem, mas algo muito tenso. Existem as dificuldades de os alunos aceitarem o que é a escola e de os professores ensinarem. Na escola, não há só autores de violência. São todos vítimas: professores, alunos, diretores, pais.

O que pode ser feito?
Primeiramente, é preciso saber o que acontece nas escolas. É necessário ter um diagnóstico. Fiz dois estudos sobre gangues aqui em Brasília, durante quase três anos. Um dia, cheguei a uma escola e vi pichado “Lua”. Lua é uma das gangues de Brasília. Perguntei: ‘Quem pichou?’. A diretora respondeu: ‘Foi o Lua. Eu já o suspendi duas vezes’. Eu disse: ‘Diretora, o Lua é uma gangue, não um menino. Se tem alguém com esse nome aqui é uma coincidência’. Isso nos da uma ideia do nível de não conhecimento do que acontece no cotidiano da escola.

Adianta polícia?

Não. Nós temos uma tendência à judicialização da educação, em vez de se pensar em programas completos, em medidas efetivas, com a participação de todos os atores da escola. É um erro pensar que é possível trazer um elemento de fora para contornar o que está acontecendo. Em Nova York, havia uma escola com muita violência há uns 15 anos. Levaram a polícia para dentro dela. A violência duplicou. Por quê? Com controle de armas, detector de metais, mochilas transparentes, deu-se o fenômeno inverso. Os adolescentes tentavam enganar os professores, e a relação da juventude com a polícia é muito complicada. Colocar a polícia dentro da escola é a confirmação de que a instituição não dá conta de resolver os problemas. A escola é um ambiente de socialização.

O que mudaria esse comportamento?
Se eles (alunos) sentissem que a escola é um espaço deles. Se tivesse alguma política interna e externa para melhorar a interação com os alunos, a realidade seria diferente. Alguns dramas que acontecem dentro da escola, podiam ser usados a favor dos docentes, dos diretores. O celular, por exemplo, é um drama. Evidentemente, você não vai dar espaço para o aluno ficar mandado mensagem o dia inteiro. Mas é possível pensar numa forma de utilizar o celular, a internet, para fazer algum tipo de trabalho. Tem que haver mudanças. Os professores precisam levar para as salas de aula coisas interessantes. Não digo que ter um computador por aluno vai resolver, pois é preciso saber utilizá-los. A tecnologia não vai mudar completamente, mas algumas iniciativas poderiam tornar a escola mais interessante.


Memória

28 de setembro de 2012

Um professor de educação física do Caseb foi flagrado no Parque da Cidade fumando maconha com os alunos. Cinco estudantes de 15 e 16 anos estavam acompanhados do docente na hora em que policiais os avistaram. Os militares faziam a ronda no estacionamento do parque e levaram todos para a delegacia. Eles encontraram uma balança de precisão com o educador. A suspeita é de que ele vendesse drogas aos menores.

18 de maio de 2011
Três pessoas espancaram um adolescente de 15 anos em uma parada de ônibus, na Entrequadra da 710/711 Sul. Com o uniforme do Caseb, o estudante presenciou um assalto no local e correu. Ao ver que os três assaltantes entraram em um ônibus, voltou para a parada, mas foi espancado por amigos e familiares da vítima assaltada. Ele sofreu escoriações leves e ferimentos na cabeça.

Julho de 2010
Um adolescente de 15 anos foi espancado por 13 meninos, em um ponto de ônibus a 300 metros do Caseb. A prima dele, com 12 anos à época, não gostou quando dois dos agressores começaram a chamá-la por um apelido. Ela discutiu com eles e Caio Rodrigo Lessa tentou defendê-la. Ao saírem da escola, os dois se dirigiram para a parada. Lá, acabaram surpreendidos pelos desafetos, armados com paus e pedras. As agressões só pararam quando o menino desmaiou. A mãe pediu a transferência da escola no mesmo dia.

7 de Fevereiro de 2009
A Polícia Militar apreendeu cerca de 40 adolescentes suspeitos de participarem de uma briga no Parque da Cidade. Eles teriam marcado o encontro pela internet para um acerto de contas. Com idade entre 12 e 18 anos, os adolescentes de escolas particulares tradicionais chegaram à Delegacia da Criança e do Adolescente em dois ônibus, com 20 lugares cada. Em depoimento, contaram ter ido ao local para assistir a uma luta entre garotos de grupos rivais.

 

 

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