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Correio Braziliense

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Movimento para ensinar a paz

A decisão de atrair os pais às unidades de ensino foi fundamental na transformação do ambiente de centros educacionais do Paranoá e de Samambaia. Em lugar de drogas e agressões, educação de melhor qualidade

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postado em 07/04/2014 14:00 / atualizado em 07/04/2014 16:49

Adriana Bernardes , Manoela Alcântara

Ana Rayssa
O Centro de Ensino Fundamental 1 já foi conhecido como a Papudinha do Paranoá, uma referência à unidade prisional da cidade. “Aqui, tinha aluno vendendo droga, e a polícia pulando o muro para pegar bandido. Sem falar das brigas”, relata o diretor, João Braga. Na última reportagem da série “O bê-á-bá da violência”, o Correio conta como professores, alunos e comunidade atuam para resgatar um ambiente sadio dentro das instituições de ensino no Paranoá e em Samambaia.

 No Paranoá, a rotina de violência intramuros está no passado. Visto pelo lado de fora, o paredão de concreto alto, pichado e com arame farpado em cima lembra o cenário de tantas outras instituições dominadas pelo medo. Mas do portão para dentro a sensação é outra. Alunos com autoestima elevada, engajados na melhoria da instituição e com planos de entrar na faculdade. “Quando eu gritava no pátio, vamos ser a melhor escola de Brasília, eu ouvia vaias. Agora, escuto vibração. Quando o primeiro aluno passou na UnB, virou notícia. Agora, temos muitos outros casos, não só na UnB, como em outras instituições”, cita Braga, orgulhoso.

Para promover a mudança, a direção atuou de duas formas. No primeiro momento, há cerca de 8 anos, com rigidez, e, agora, com o diálogo, que se tornou palavra de ordem. “Não só com os alunos, mas também com os pais e com a comunidade. Esse contato estreito com os moradores, muitos deles com filhos no colégio, tem feito a diferença”, relata João Braga. O tratamento dispensado aos familiares também mudou. “Aqui, os pais são recebidos com um sorriso no rosto. Eu trabalho para eles. Nós estamos aqui, para servi-los”, detalha o diretor.

A direção do Centro de Ensino Fundamental 1 do Paranoá é compartilhada com alunos, funcionários e familiares. A responsabilidade de decidir onde serão gastos os recursos repassados pelo governo é dividida. “O Conselho Escolar decidiu instalar bancos e mesas de concreto por todo o pátio. Arrumamos os banheiros e colocamos um espelho que estava sem uso em frente ao bebedouro. Agora, o aluno passa ali, se vê e se reconhece. Isso faz uma diferença enorme”, diz João Braga.

Por decisão do conselho, a direção investiu parte dos recursos para equipar a sala de informática e comprou um equipamento de som. Toda a área é monitorada por 52 câmeras, que são uma ferramenta importante para promover a sensação de segurança.

Eleita para o primeiro mandato como representante dos alunos, Leandra Nouryen Cardoso de Moura, 15 anos, cursa a 7ª série e planeja prestar vestibular para direito. A fama ruim da escola, ela só conhece de ouvir falar. “Isso não existe mais. Aqui, os professores são mais próximos do aluno. Perguntam se precisamos de ajuda para melhorar a nota, não chamam a atenção na frente de todo mundo. Há mais diálogo, sem brigas ou discussões”, conta.

Cinema

A sensação ao entrar no Centro Educacional 123 de Samambaia é a de estar em uma escola privada. Os alunos desfrutam de uma sala de cinema, de uma biblioteca de causar inveja, espaço para ioga, jiu-jítsu e quadra coberta para a prática de esportes. Voluntários ajudam na educação no contraturno. “Temos pelo menos cinco casos de aprovados na UnB no último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), sem contar os que conseguiram bolsas”, relata o diretor, João Jorge Carneiro Alvarenga.

A parceria com o Batalhão Escolar e com os pais foi fundamental para mudar o quadro de violência e de alunos pouco motivados encontrado por Alvarenga em 2008. Um dos orgulhos do diretor são os encontros que conciliam aprendizado e diversão. Na semana da Consciência Negra, a desconstrução do preconceito é intensificada. Para encerrar a atividade, é servida uma feijoada. “No Encontro da Família, os pais vão até a escola e mostram os saberes populares. A festa junina é um dos eventos mais concorridos. Tudo é produzido e consumido pelos estudantes e seus familiares. No ano passado, reunimos mais de mil pessoas aqui. É a integração da escola com a sociedade. Isso muda a educação. O apoio em casa é essencial”, completa.

A resolução de desavenças por meio do diálogo é o caminho perseguido pelo Batalhão Escolar (leia Para saber mais). O comandante, tenente-coronel Fábio Aracaqui de Sousa Lima,  recentemente criou um grupo de mediação de conflitos, e o projeto-piloto será no Caseb da Asa Sul, onde, há cerca de um mês, um estudante foi baleado por dois colegas dentro do pátio. “Vamos definir atribuições. Pais, vocês querem ajuda? Então, façam isso em casa. Diretor, aqui, na escola, você faz assim. A mim, polícia, cabe fazer isso. Esperamos que dê certo”, antecipa o militar.

Além disso, o comandante cita a instalação dos 16 polos do batalhão escolar em instituições de ensino localizadas em pontos estratégicos. "Temos o projeto Educar para a Cidadania, com 28 temas definidos, entre eles, gangues, pedofilia e bullying. Estamos investindo na capacitação do nosso policial e no envolvimento dos conselhos de segurança e da comunidade escolar na resolução dos problemas", cita o tenente-coronel Sousa Lima.

Apesar de a realidade hoje “ser mais cruel” que na década de 1980, o coronel Túlio Cabral Moreira, primeiro comandante do Batalhão Escolar, acredita que as condições de segurança nas instituições de ensino vão melhorar se todos os envolvidos cumprirem com suas obrigações. “Temos o Programa de Segurança Escolar, os Conselhos de Segurança, o decreto do perímetro escolar. Mas toda a carga cai para a segurança pública. É impossível fazer o ostensivo perfeito”, diz. Apesar disso, o coronel Túlio defende a permanência de dois policiais por escola. “Só fazer ronda não adianta. Além do ostensivo, equipado com rádio, é preciso ter guarnições para serem acionadas”, defende.

Para saber mais

Origem da unidade

A criação da unidade está diretamente ligada a um caso de violência que escandalizou o Distrito Federal: o assassinato de Dilsa Lourenço, 14 anos, dentro de uma sala de aula do Gama, em 1989. Ela foi morta por engano. Na década de 1980, eram quase mil homens. O primeiro comandante da unidade, coronel Túlio Cabral Moreira, hoje com 67anos, conta que o policial tinha que ser casado, sem nenhuma punição e morar na área onde atuaria. “Eram dois policiais por escola. Não havia rodízio e eles eram proibidos de entrar na instituição. Toda a semana, tinha aula de capacitação, educação física e avaliação do trabalho”, lembra.
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