ENTREVISTA/IVAN CAMARGO

"O deficit está equacionado"

O novo reitor da Universidade de Brasília afirma ao Correio que uma das prioridades da gestão será equilibrar os gastos e ajustar o orçamento

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postado em 20/11/2012 13:46 / atualizado em 20/11/2012 13:49

Thaís Paranhos

 

 

 
"O importante que eu considero agora é planejar 2013, conhecer os nossos gastos, saber onde a gente pode reduzir, onde a gente deve investir mais. Parece claro, desde o período de campanha, que os novos câmpus precisam de uma atenção especial."
O professor da Faculdade de Tecnologia Ivan Camargo assume hoje a reitoria da Universidade de Brasília (UnB) com muito trabalho pela frente. Em entrevista ao Correio, o novo administrador elencou as prioridades da gestão. Entre as medidas mais urgentes, Camargo destacou a necessidade de enxugar os gastos da instituição e priorizar os investimentos.

Desde a consulta que o elegeu, em setembro deste ano, ele realiza, com o ex-vice-reitor João Batista, o processo de transição do cargo. Na entrevista, o professor da FT afirmou que ainda precisa se inteirar de algumas questões da UnB. “Mas me parece muito claro que a universidade precisa de uma reestruturação”, adiantou. Camargo pretende descentralizar e desburocratizar os processos dentro da academia.

Como o prometido durante a campanha, Camargo também falou sobre a importância da mudança na gestão. Os nomes dos decanos, do prefeito e do chefe de gabinete já foram escolhidos. “Eles (os decanos) estão conversando, procurando os diretores, vão criar uma equipe com uma proposta de mudança, mas que não necessariamente precise mudar as pessoas”, completou.

Quais as expectativas para a posse?
Estou superemocionado, ansioso para assumir essa missão que a comunidade me passou e superesperançoso, assim como a comunidade, de conseguir fazer uma boa gestão.

Como foi o processo de transição?
Não consegui me inteirar de tudo. A única certeza que tenho é que nós temos uma infinidade de questões importantes para serem tratadas e não vamos fazer isso de um dia para o outro. Não queremos fazer isso e não achamos que seja uma boa política chegar mudando tudo, trocando tudo, não é esse o nosso jeito. Os decanos estão seguindo rigorosamente a mesma linha, vão entrar na sua área, vão avaliar. Mas me parece muito claro que a universidade precisa de uma reestruturação. Temos muitas caixinhas, muitos órgãos, muitos centros, muitas coisas que estão ligadas diretamente ao reitor, mas o reitor não tem a capacidade gerencial de lidar com assuntos tão diversos. Vamos ter que fazer uma reestruturação, e isso não vai ocorrer nesta semana. Em primeiro lugar, precisamos tomar pé da situação e, mais adiante, fazer uma proposta para os conselhos avaliarem.

 
"A UnB precisa de descentralização. A universidade precisa de muita informação, elas estão dispersas. Precisamos de dados de avaliação para conseguir atuar corretamente."
Quais os principais desafios da sua gestão?
Temos diversos desafios. Os dois mais importantes são o compromisso com a conformidade legal: as contas da universidade serem aprovadas pelo conselho gestor e as contratações serem feitas de acordo com o que a regra prevê. A gente tem que caminhar na direção da conformidade, é indispensável. O segundo desafio é a conformidade orçamentária. Precisamos ajustar o orçamento, os nossos gastos e a nossa disponibilidade. Evidentemente, isso passa por uma negociação muito intensa com o MEC (Ministério da Educação) para que a gente consiga um orçamento compatível com os desafios da universidade. São 30 mil estudantes, e ninguém espera que a gente diminua o nosso orçamento. Mas há uma sinalização de que vamos usar o dinheiro com muita responsabilidade, muita austeridade. E podemos ir adiante. Nós temos uma questão de manutenção que é muito importante, precisamos fechar a questão da infraestrutura que não está funcionando e o problema da segurança.

O deficit de R$ 72 milhões deve se confirmar? Quais as primeiras medidas para evitar que esse número cresça e se prolongue para os próximos anos?
As informações que temos da atual administração é que esse deficit está equacionado. Tudo indica que nós vamos conseguir fechar o ano de uma maneira que já está negociada e factível. É possível fechar o ano sem deixar dívidas. Isso é muito positivo. O importante que eu considero agora é planejar 2013, conhecer os nossos gastos, saber onde a gente pode reduzir, onde a gente deve investir mais. Parece claro, desde o período de campanha, que os novos câmpus precisam de uma atenção especial. Não está na pauta reduzir, por exemplo, os gastos com eles. Ao contrário, eles são particulares e especiais, estão começando agora e temos que melhorar essa verba.

 
"Que a gente consiga catalisar essa mudança para o que queremos: uma universidade alegre, diversa, plural; que façam eventos aqui, que a sociedade venha para cá assistir às aulas do mundo inteiro."
A equipe do senhor está escolhida?
O primeiro escalão está todo montado, os decanos estão definidos e as duas pessoas que trabalham diretamente com o reitor, que são o prefeito e o chefe de gabinete. Eles (os decanos) estão conversando, procurando os diretores, vão criar uma equipe, mas que não necessariamente precise mudar as pessoas. Há gente muito competente trabalhando hoje na administração. Alguns professores têm a vida acadêmica interrompida por essa questão de ajudar na administração e acham que é razoável voltar. O foco que nós falamos que íamos dar e vamos dar é a questão de privilegiar o servidor na gestão. Nós temos servidores capacitados que conhecem a máquina da universidade. Quem atua no dia a dia da gestão são os servidores técnicos-administrativos e nós vamos contar com eles para a administração da universidade.

Durante a campanha, o senhor falou muito em mudança e se colocou como uma chapa de oposição. Como pretende promover essa mudança na universidade? Qual é a prioridade?
O ponto mais importante, e isso talvez incomode a atual administração, é que tenho certeza que o reitor tentou muito trabalhar no sentido da união, mas vários colegas não se sentiram contemplados. Eu era um deles. Vou insistir muito nesse processo de união. Espero que todos os 10 candidatos estejam na cerimônia da transmissão do cargo. Seria um sinal muito positivo para a universidade. Cada um tem uma ideia, nós respeitamos a diversidade no câmpus. No entanto, passado o processo eleitoral, o nosso compromisso é acadêmico. Vou atuar politicamente para fortalecer a academia, esse é o meu projeto.

Quais as primeiras medidas que o enhor vai tomar ao assumir o cargo?
Segurança. A limpeza também. Falamos de coisas pequenas dentro da universidade, mas que me parecem muito importantes. Evidentemente, a nomeação das pessoas, e vamos também fechar as contas. Vamos nos debruçar nas contas e pensar e planejar estrategicamente o ano que vem. Planejar algumas coisas que me parecem absolutamente indispensáveis, como as compras da universidade. Precisamos fazer com que o sistema de compras volte a funcionar, a gente não pode achar que é normal demorar seis meses para comprar um lápis. A universidade tem que se desburocratizar, e a gente vai fazer isso. A UnB precisa também de descentralização. A universidade precisa de muita informação, elas estão dispersas. Precisamos de dados de avaliação para conseguir atuar corretamente e vamos trabalhar nesses sistemas.

Como o senhor pretende integrar universidade e a cidade?
Acho indispensável esse papel. A universidade está integrada, faz parte da sociedade, as demonstrações que a gente recebe da sociedade de apoio e de carinho pela UnB são muito grandes. O nosso papel é formar quadros para trabalhar na administração central do Brasil. E isso está sendo feito. A gente passa em todos os ministérios, no (Palácio do) Planalto e vemos ex-alunos distribuídos. Acho que o papel da universidade em Brasília está consolidado. O que a gente precisa é manter essa formação dos nossos quadros e, para formá-los, precisamos desses projetos de extensão, estar sempre em contato, ouvindo a sociedade e aprendendo com ela e não se isolando. A nossa pesquisa precisa estar envolvida com problemas reais e para isso é interessante e importante falar que, muitas vezes, precisamos de recursos, de viabilizar projetos por meio de dinheiro que venha tanto do Estado quanto de empresas privadas. E é isso que vamos tentar fazer por meio das fundações de apoio. Na hora em que o dinheiro entra para a fundação de apoio, vira dinheiro público. Portanto, é necessário e indispensável a transparência nesse processo.

Durante a campanha, o senhor falou da excelência cadêmica e de valorizar o aluno. Isso continua endo uma prioridade para os próximos anos?
É isso o que a sociedade espera da UnB, excelência acadêmica, uma referência nacional. Mas não é o reitor quem faz isso, a universidade é muito horizontal. Quem faz isso são os grupos, os departamentos, os centros, os laboratórios de pesquisa. O que a gente se propôs na campanha e vai fazer agora é que a administração flua, que as coisas ocorram facilmente para que o professor se preocupe mais com a sala de aula, com o laboratório de pesquisa ou com o projeto de extensão. Precisamos tirar a carga burocrática do pesquisador. Não vou mais fazer pesquisa, adoro a área de energia, mas vou me dedicar à gestão universitária, à gestão pública. Um grupo de professores também vai fazer isso, mas gostaria que fizessem sem perder o pé na sala de aula. Acho muito bom a gente estar em contato, toda administração continuar dando uma aula, circulando pelo câmpus. Assim, a excelência acadêmica volta, e o clima universitário, a conversa e a diversidade. Vamos arrumar a questão administrativa para que a universidade volte a brilhar.

Algumas questões ficaram pendentes como
a adesão ao Sisu. O senhor vai dar continuidade
a essas discussões? Tem alguma prioridade
que precisa ser resolvida com mais urgência?

Tem alguns pontos de pautas do Consuni (Conselho Universitário) que me parecem muito importantes e que serão debatidos ainda nesta sexta-feira, eu espero. A discussão do Sisu (Sistema de Seleção Unificada) é importantíssima. Outro ponto que será levado para o Cepe é a discussão da nossa transição das cotas atuais para as determinadas pela lei. Nós já participamos de outras comissões sobre o Sisu. Temos uma posição bem clara de como a universidade vai andar, mas acho que a gente precisa esperar o nosso conselho se manifestar e insisto: a administração vai ter o compromisso de implementar as decisões dos conselhos. É assim que funciona a universidade e é assim que vai ser.

Gostaria de deixar uma mensagem comunidade acadêmica?

O meu recado é de muita esperança, de que a gente consiga representar a universidade com muita dignidade, respeito e trabalho. Acho que a instituição tem que aproveitar essa esperança que parece estar em todo o câmpus. Que a gente consiga catalisar essa mudança para o que queremos: uma universidade alegre, diversa, plural; que façam eventos aqui, que a sociedade venha para cá assistir às aulas do mundo inteiro. Vamos focar na parte acadêmica. Parece-me que a universidade ficou muito politizada durante o processo eleitoral, e vou usar o cargo de reitor para despolitizar a universidade, para deixá-la mais acadêmica e transformá-la num lugar de ensino, pesquisa e extensão.
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