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Tragédia em Santa Maria

Difícil recomeço na UFSM

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postado em 30/01/2013 11:07 / atualizado em 30/01/2013 11:13

João Valadares

O delegado Marcelo Arigony (centro) se emocionou ao falar aos estudantes e garantiu que os responsáveis serão punidos. Alunos querem que agentes públicos paguem (Carlos Vieira/CB/D.A Press ) 
O delegado Marcelo Arigony (centro) se emocionou ao falar aos estudantes e garantiu que os responsáveis serão punidos. Alunos querem que agentes públicos paguem

Na cidade que ainda enterra seus mortos, a maior ferida chama-se Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Foram 113 estudantes, quase metade das vítimas. Só no Centro de Ciências Rurais, 64 alunos. O curso de Agronomia perdeu 29. Era gente que só morava na cidade para voltar com um diploma universitário para casa. Na sexta-feira, ocorreria a formatura da 48ª turma de agronomia. Cancelada. Não há como. Salas quase inteiras sumiram. Em algumas delas, sobraram apenas 10 graduandos. Difícil conjugar o verbo recomeçar. Uma professora lembra do aluno atencioso que sentava na primeira fila. “Só penso nisso. Como vou conseguir voltar à sala de aula? Não temos condições”, disse a coordenadora do curso de Zootecnia, Rosamélia Berleze.

Ela só pensa na próxima segunda-feira, dia em que a universidade pretende retomar as aulas. “Precisamos nos proteger e nos fortalecer. Não sei como vou receber as turmas. Muitos professores não sabem.” A situação é tão delicada que mestres e alunos serão amparados por psicólogos. “Ainda não sei como vou conduzir. Tenho recebido muitos professores dizendo que não vão conseguir. Eu liguei para alguns alunos e eles não conseguem nem falar. Só choram. Voltar para a sala é o mais complicado. Deus precisa nos ajudar”, lamentou Rosamélia.

O mesmo retorno atormenta o médico traumatologista Mário José do Canto. Ele trabalha no Hospital de Caridade de Santa Maria, onde há 36 pacientes internados. Ontem, ele voltou ao local para buscar o atestado de óbito da filha Mariana Commasseto Canto, 18 anos. Saiu desesperado. Tentava explicar, mas o choro compulsivo dificultava. “Morreu asfixiada. Ela morreu sem ar. Isso aqui é uma guerra e com um agravante. São todos jovens.” Mário lembrou que ela tinha acabado de entrar na universidade. Queria desenhar aviões. Fazia design de produtos e estava no primeiro período. Era a filha mais nova. “Tenho outros três. Vou voltar para casa e um pedaço de mim sumiu.”

Iara Guedes, moradora de Gravataí (RS), observava o choro do médico a distância. Ela chorava também. O filho, Heuri Guedes, 23 anos, está internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da unidade de saúde. O caso dele é grave. “Mas meu coração diz que ele vai escapar. Ah, ele vai sim. Tenho certeza. É horrível a angústia que estou sentindo. Há sentimentos que só uma mãe sabe como é.” Heuri respira com ajuda de aparelhos e tem uma queimadura no braço. “Os médicos dizem que o estado de saúde dele é grave. Muito grave. Agora há pouco, quando eu disse para ele que o amava, vi meu filho piscando o olho. Ele sabe que estou aqui. Ele vai sobreviver.”

Iara quer encontrar a mulher que voltou para puxar o seu filho pelo braço em meio à fumaça negra que a boate Kiss cuspia lá de dentro. Ela não tem certeza se a jovem está viva. Muitos morreram ao voltarem para tentar ajudar outras pessoas. Iara ficou sabendo da história, porque amigos do filho contaram. “Quero muito encontrá-la. Ela deve estar viva. Eu preciso falar com ela. Meu filho estava caído no chão e ela o arrastou pelos braços.”

“Foi a minha sorte”
No hospital, à espera de notícias de colegas feridos, o sobrevivente Andrei Fagundes, 19 anos, perdeu 25 amigos na tragédia. Os repórteres perguntavam novamente. “Quantos? Cinco?”. Ele respondia. “Não. Perdi vinte e cinco, vinte e cinco.” Contou que estava próximo à saída quando percebeu o tumulto. “Vi sinalizadores e achei normal, mas, de uma hora para a outra, começou muita gente saindo. Achei que era briga. Foi a minha sorte. Se eu tivesse esperado, não conseguiria sair”, relatou.

Andrei afirmou que, quando chegou bem perto da porta, percebeu uma maior quantidade de fumaça. “A partir deste momento, todo mundo só pensava em sair. Já fui na boate outras vezes. Ela estava extremamente lotada. Tinha muita gente para o tamanho do ambiente. Acho que tinha 1,5 mil pessoas. Estava muito apertado”, estimou o jovem, que disse não ter visto iluminação na saída de emergência.

Entre os feridos da tragédia, os gêmeos Emanuel e Guilherme Pasti aniversariaram ontem. Completaram 19 anos. Os dois foram a Kiss no sábado para antecipar a comemoração. Eles estão em estado grave na Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital da Ulbra, em Canoas, no Rio Grande do Sul. A situação é muita delicada. Os médicos informaram que a chance de eles sobreviverem é mínima. A intoxicação de Emanuel foi menor, no entanto, ele tem problema de tireoide, o que pode atrapalhar a recuperação. Guilherme cursa relações internacionais na Universidade Federal de Santa Maria. Emanuel mora em Canoas com os pais e estuda engenharia de minas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em Porto Alegre.

 

 (Carlos Vieira/CB/D.A Press) 

“Morreu asfixiada. Ela morreu sem ar. Isso aqui é uma guerra e com um agravante. São todos jovens”
Mário José do Canto, pai de Mariana Commasseto,18 anos


 (Carlos Vieira/CB/D.A Press) 

“Vi sinalizadores e achei normal, mas, de uma hora para a outra, começou muita gente saindo. Achei que era briga. Foi a minha sorte. Se eu tivesse esperado, não conseguiria sair”
Andrei Fagundes, sobrevivente, estudante da UFSM que perdeu 25 amigos na tragédia

 

 

 (Carlos Vieira/CB/D.A Press) 
“Meu coração diz que ele vai escapar. Ah, ele vai sim. Tenho certeza. É horrível a angústia que estou sentindo. Há sentimentos que só uma mãe sabe como é”
Iara Guedes, mãe de Heuri Guedes, 23 anos, que está internado em estado grave na unidade de terapia intensiva

234mortos
Total de vítimas da tragédia. na noite de ontem, um rapaz de 21 anos sofreu morte encefálica

R$ 2,50
valor dos sinalizadores que causaram o incêndio. eles não eram próprios para locais fechados
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