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Educação

Memórias para o amanhã

Em comemoração aos 50 anos do Setor Leste, estudantes, professores e ex-alunos fazem uma imensa cápsula do tempo, na qual embarcaram cartas e publicações do dia, a fim de pensar o futuro e lembrar os sonhos de hoje

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postado em 29/05/2013 11:40 / atualizado em 29/05/2013 11:45

Ed Alves
Ed Alves

Mais de 1,5 mil memórias e esperanças estão lacradas em um baú, cercado por uma estrutura de concreto que só será quebrada em 35 anos. A cápsula do tempo do Centro de Ensino Médio Setor Leste, da 612 Sul, conta com redações de todos os estudantes, além de textos do corpo docente, de ex-professores e de antigos alunos. Para que a época de hoje seja lembrada, jornais do dia e publicações semanais também estão na caixa pesada — até uma revista masculina entrou para o rol de lembranças. Fotos, pen drives, roupas e sonhos daqueles que fazem parte de meio século de história da escola serão redescobertos em 30 de maio de 2048, data marcada para que o baú seja aberto.

Uma das redações é da estudante Paloma Araújo, 16 anos. Aluna do último ano do ensino médio, ela se divide entre os estudos para o vestibular e os treinos de caratê — a jovem vai disputar os Jogos Mundiais de Karatê, de 27 de novembro a 4 de dezembro em Brasília. “Entrei aqui em 2013 e nunca havia recebido tanto apoio da escola. Tenho amigos que vão torcer por mim quando chegar a hora”, contou a garota. Ela, que ainda não sabe se vai seguir no esporte ou se vai ser advogada, escreveu todos esses sonhos na carta que foi guardada. “Espero nunca parar de fazer aquilo que acredito, nunca desistir do que eu quero. Acho que vai ser uma surpresa abrir essa caixa.”

Solenidade
Durante a manhã de ontem, estudantes ajudaram o professor Baptista a encher a cápsula do tempo. Enquanto isso, vários alunos antigos discursaram sobre a educação e o tempo que passaram ali. O público de 1,5 mil jovens de 14 a 18 anos ouviu as histórias e, depois de selar a caixa, partir para uma gincana e para os jogos internos da escola. Entre os convidados estava o senador Rodrigo Rollemberg (leia quadro), que estudou no colégio em 1973. Em seu discurso, ele lembrou a necessidade de manter um bom padrão nas escolas no Brasil. “Nada pode revolucionar tanto um país quanto uma escola pública de qualidade”, declarou.

O ex-aluno mais antigo na cerimônia, José Rocha de Carvalho, 70 anos, hasteou a Bandeira nacional. O aposentado levou a carteirinha de estudante de 1963 e uma foto que o retrata plantando uma das árvores do pátio. Em 1964, no Dia da Árvore, a escola promoveu uma ação para que os alunos arborizassem o local, e ele registrou o momento em que colocou ali a planta quase cinquentenária, ao lado do amigo Francisco Tavares, falecido em 2012. “Dizem que na vida a gente tem que escrever um livro e plantar uma árvore. Essa é a que me marcou”, afirmou.

Em seu discurso, José levantou não só a Bandeira do Brasil, mas uma que vem defendendo há alguns anos: o retorno do nome do colégio para o original. Há 50 anos, a escola se chamava Ginásio Industrial JK, nome que foi alterado após o Golpe Militar de 1964. “O fundador dessa cidade deu o nome à escola. Esse era o meu colégio. É como se ele tivesse sido sequestrado, estou até hoje procurando o nome original”, lamentou o aluno fundador do colégio.

O amor às árvores é compartilhado com o também ex-aluno José Ivan Mayer, 60 anos, estudante de 1965 a 1968. Funcionário do Ministério da Educação e militante da sustentabilidade, ele acredita que, entre outros valores, aprendeu ali que a natureza deve ser preservada. “Naquela época, nós não éramos tolhidos em relação à questão ambiental. Matávamos passarinho a torto e a direto. Mas tinham professores que nos criticavam, avisavam que um dia aquela exuberância ia acabar”, lembrou. Na carta que deixou na cápsula, José Ivan escreveu sobre as esperanças que tem de que a concentração de gás carbônico na atmosfera esteja, em 35 anos, em níveis pré-industriais.

Saudades de ex-estudantes

 

 (Rafael Ohana/CB/D.A Press - 16/11/11) 

 

Célia Porto, cantora, 46 anos
Estudei de 1982 a 1987, da 7ª série até o fim do ensino médio, e ainda fiz mais um ano de cursinho pré-vestibular. Eu não ia estudar lá, mas minha melhor amiga da época, Gláucia Teodoro, foi para o Setor Leste. Fiquei naquela depressão de adolescente, com a minha turma toda lá. Minha irmã viu que eu estava triste e pediu minha transferência. Entrei e adorei, porque fiquei junto com meus amigos. Tive todas as lembranças mais deliciosas no colégio, era uma escola fantástica. Aquele monte de namorados, as rodinhas de violão, as aulas de natação… Foi muito divertido. Depois, ainda trabalhei lá, como estagiária, e usava o dinheirinho que ganhava para pagar o curso de datilografia que também fazia ali mesmo. Hoje, sou comadre da Gláucia.

 

 (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 2/2/11) 


Nicolas Behr, poeta, 54 anos
Fiz só o terceiro ano no Setor Leste, em 1977. Foi um tempo bom, uma das fases mais criativas da minha vida. Lá eu imprimi meu primeiro livro, o Iogurte Com Farinha, no mimiógrafo do colégio. Naquela época, as provas e apostilas eram copiadas no mimeógrafo, não tinha xerox. Fiz isso durante a noite, na semana em que morreu Elvis Presley. Imprimi 200 cópias, em uma edição bem tosca. Valeria uns R$ 3 hoje. Eu era apaixonado por uma colega, a Maria do Socorro Veras. Ela me disse que a mãe dela gostava de comer iogurte com farinha, e eu me interessei por aquilo, um alimento tão europeu misturado com algo típico do Nordeste. Veio daí o título, nada poético. Essa época foi muito boa, como uma página de livro bom.

 

 (Aureliza Corrêa/Esp.CB/D.A Press - 30/6/12) 


Rodrigo Rollemberg, senador, 53 anos
O Setor Leste sempre foi considerado um colégio muito bom, diferenciado. Isso tanto do ponto de vista dos conteúdos, e também das atividades extraclasse. Tinha muita atividade cultural, muito estímulo ao esporte. Foram momentos muito bons da minha vida, esse despertar para a adolescência. Naquela época, em 1973, um menino de 14 anos não era tão adolescente como os de hoje. Tenho lembranças muito gostosas, de uma escola pública de muita qualidade. Essa era uma característica de Brasília, escolas de excelência. Me deu uma saudade… Fiquei com vontade de trocar tudo que eu tenho pela idade daquela turma. Daqui a 35 anos quero ter 15! Devia ter colocado isso na carta que escrevi para a cápsula.

 

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