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Museologia, um curso para poucos

A primeira turma da faculdade chega ao fim com dois formandos, mas oito estudantes seguem firmes para a conclusão. Em 2009, foram 32 selecionados pelo vestibular, porém, no decorrer do período, muitos foram desestimulados pela desvalorização da profissão

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postado em 29/07/2013 18:00 / atualizado em 29/07/2013 12:01

Clara Campoli

Janine Moraes
Quem caminha pelos corredores tranquilos da Faculdade de Ciências da Comunicação (FCI), na Universidade de Brasília (UnB), mal imagina o ritmo de trabalho que o pequeno prédio enfrenta a cada semestre. A construção anexa à Biblioteca da instituição abriga os cursos de biblioteconomia, arquivologia e, há quatro anos, de museologia. A graduação, criada no segundo semestre de 2009, ainda está em processo de formação e, agora, passa por uma prova de fogo: a entrega do diploma aos dois primeiros alunos formados. Naquele ano, 32 passaram no vestibular para fazer a curso. Porém, apenas 10 seguiram adiante. A desvalorização da profissão e o gosto pela academia permeiam os temores dos estudantes do curso, que ainda se animam com o vasto mercado no Brasil.

A primeira monografia a ser apresentada no curso é de autoria de Anna Paula da Silva, 27 anos. Formada em história, ela se interessou quando o curso foi lançado e conseguiu passar no primeiro vestibular. Hoje, não pensa em seguir outra carreira. “Gosto muito de museus, eles têm uma relevância muito grande na história. Trabalhei no museu do Tribunal de Contas da União e achei interessante. Tenho muitos colegas que querem trabalhar em reservas técnicas e montar exposições”, garante.

O problema da carreira, segundo Anna, é a perspectiva de salário, cujo montante acaba desvalorizando o profissional. O pagamento para museólogos iniciantes em Brasília chega a ser um terço do valor do piso estabelecido pelo Conselho Regional da profissão. “Eu acabo rejeitando as propostas de emprego porque acredito que aceitar trabalhar por esse dinheiro desvaloriza a minha profissão. Estou procurando trabalho no Rio de Janeiro e em São Paulo, porque aqui em Brasília o mercado está complicado”, reclama a recém-formada, que a cada dia que passa vê no mestrado uma saída mais agradável para os estudos na museologia.

Trabalho, no entanto, é o que não falta. Profissionais da área são necessários para organizar todo e qualquer tipo de acervo, desde os tradicionais museus a pequenas exposições, passando até mesmo por zoológicos. “O mercado é muito promissor. Temos muitos museus carecendo de museólogos, muito patrimônio material e imaterial a ser trabalhado”, anima-se Edvan Queiroz, 41 anos, o outro estudante da UnB que está se formando no curso. “Ocupar seu legítimo espaço nos museus é um grande desafio para os novos profissionais. Não creio que tenha sido diferente para outros formandos de cursos que estavam nascendo”, afirma.

Nota 4

Com oito semestres de funcionamento, o curso da UnB atende bem os alunos do ponto de vista pedagógico, de acordo com padrões do Ministério da Educação (MEC). A graduação recebeu nota 4 na avaliação da instituição, mas ainda tem muito a melhorar. As instalações na FCI ainda não são adequadas ao projeto acadêmico do curso, que prevê um bom laboratório de conservação. Enquanto isso não acontece, os professores estimulam os alunos a participarem de projetos de pesquisa e a fazerem intercâmbios no exterior, além de promoverem visitas a acervos de museus em Brasília e em outras unidades da Federação. Atualmente, o curso é composto por um consórcio entre os departamentos de Antropologia, Artes Visuais, História e a própria FCI. De acordo com a coordenadora da Museologia, Silmara Küster, o Departamento de Geologia sinalizou um interesse em parceria para a manutenção do espaço de conservação e visitas da área na UnB. “A tendência é que o curso se coloque a serviço da universidade. Viemos para atender a uma demanda crescente em instituições por profissionais museólogos. Poucos museus em Brasília têm esses funcionários”, afirma.

Conquistas

Mesmo com todas as dificuldades, a perspectiva é que a situação melhore pouco a pouco. Em 2004, havia apenas dois cursos na área. Depois do Reuni (leia Para saber mais), o Brasil conta com 14 graduações, dois mestrados e um doutorado. “Os cursos de museologia são uma grande conquista também na mentalidade acadêmica. Há um avanço na medida em que a universidade começa a olhar para os museus. É preciso que o poder público faça isso também. Não adianta criar espaços e não cuidar dos existentes”, diz a professora Silmara.

Estudante do segundo semestre do curso, Ana Ramos, 18 anos, foi aprovada no vestibular um pouco desanimada: museologia era sua segunda opção, pois não passou na prova específica de artes visuais. Durante a greve no meio do primeiro semestre na UnB, as coisas começaram a mudar. Em uma viagem ao exterior, ela viu outros museus e se apaixonou pela profissão. “O curso é novo e tem problemas, mas eu decidi ficar. O acervo do Museu de Arte de Brasília, por exemplo, está todo guardado, sem ser visto. Eu entendo que as coisas estão ruins, mas isso dá ânimo para tentar fazer a diferença”, garante.

O curso é novo e tem problemas, mas eu decidi ficar. O acervo do Museu de Arte de Brasília, por exemplo, está todo guardado, sem ser visto. Eu entendo que
as coisas estão ruins, mas isso dá ânimo para tentar
fazer a diferença
Ana Ramos, 18 anos, estudante em museologia

Gosto muito de museus, eles têm uma relevância muito grande na história. Trabalhei no museu do Tribunal de Contas da União e achei interessante. Tenho muitos colegas que querem trabalhar em reservas técnicas e montar exposições
Anna Paula da Silva, 27 anos, formanda em museologia


» Para saber mais
Até 2004, o Brasil contava com apenas dois cursos de museologia: na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Com o Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), surgiu a proposta de criar, entre outros, o curso de museologia em outras instituições públicas. Na UnB, a faculdade começou a funcionar no segundo semestre de 2009, sendo a primeira instituição pública a oferecer a graduação no Centro-Oeste.

 

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