SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Humanismo em cores

O gaúcho Glênio Bianchetti, que morreu na segunda-feira, ajudou a moldar a Universidade de Brasília em seus primeiros anos e a colocar a capital da República no cenário mundial das artes plásticas

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 19/02/2014 14:00 / atualizado em 19/02/2014 11:34

Iano Andrade
Um mestre humanista de olhar sensível e falar silencioso. Seu grito de vida tinha cores, luzes, sombras e texturas. Glênio Bianchetti era um jovem de 17 anos quando decidiu ser artista. Nascido e criado em Bagé (RS), renegou a administração dos negócios da família para se dedicar às cores e às formas. Antes mesmo de ingressar na escola de belas artes no sul do país, Glênio conheceu a grande companheira de vida, Ailema de Bem Bianchetti, com quem é casado até hoje. Quando a Universidade de Brasília (UnB) começou a ser construída, o tímido gaúcho morava em Porto Alegre, já tinha seis filhos pequenos e reconhecimento por seu trabalho no Clube de Gravura de Bagé, grupo de artistas que ajudou a fundar.

Era 1962, Darcy Ribeiro, admirador de suas obras, pediu para que um amigo em comum fosse a Porto Alegre convidá-lo para fazer parte do primeiro corpo docente do curso-tronco de arquitetura da UnB, onde estavam incluídas as matérias de artes plásticas. Naquela época, Glênio era diretor do Museu de Arte da capital gaúcha, mas encarou o inesperado convite com um misto de entusiasmo e exotismo. “A minha ideia de Brasília era uma coisa surrealista. Eu pensava em ir para qualquer lugar do mundo, menos vir para cá, porque eu achava que isso aqui era uma selva. Eu não tinha ideia de nada e, para mim, a universidade era rodeada de índios. Essa era uma fantasia engraçada.”

Em sua primeira visita à cidade, a impressão foi de um canteiro a céu aberto com cara de “favela”. Por onde se passava, havia uma máquina escavando, serrotes, carpinteiros e pedreiros. “Era um inferno, mas tinha uma coisa, um calor muito grande, um entusiasmo. Eu acho que Brasília, naquele tempo, foi feita de refugiados, tudo o que a gente não conseguia fazer na terra da gente, a gente vinha para cá fazer.” Brasília era ainda uma folha em branco, sem vícios, sem rasuras. Tinha espaço para tudo o que se sonhava.

A decisão de enfrentar a aventura foi tomada com a mulher, já que mudar com seis filhos estava longe de ser uma tarefa fácil. Também movida pelo ímpeto desbravador, Ailema topou o desafio, e a família inteira foi para a nova capital. “No começo, eu sofri muito. Imagina, chegar com seis crianças pequenas... O mais velho tinha 9 anos. Nós morávamos na 103 Sul, a W3 Norte nem existia ainda”, conta Ailema.

Utopia e prisão

Apesar das dificuldades iniciais, o que motivou o artista a aceitar o convite de lecionar na UnB foi o pitoresco. “Não que o Rio Grande do Sul seja tão civilizado assim, mas aqui tinha um quê de selvagem. Fazer cultura no meio da selva é meio engraçado, né?”, brincou Glênio. Em contraste com os barracões que serviam de sala de aula no câmpus universitário ainda em construção, Bianchetti deparou-se com uma cúpula de homens inteligentes, sujeitos entusiasmados e cheios de utopia.

Naquele tempo, o artista de Bagé não tinha experiência didática nenhuma. “Eu até falei para o meu coordenador, o doutor Alcides da Rocha Miranda, que eu nunca tinha entrado em sala de aula. Ele me falou: ‘Você foi convidado para experimentar’. Isso que eu acho fantástico. Ele se baseava no nosso passado, na nossa formação.” Glênio acrescenta que, no princípio, ele dava aulas de desenho de modelo vivo no curso-tronco de arquitetura, estrutura de ensino que muito lhe agradava. Quando os alunos entravam na universidade, ao escolher esse curso, tinham a oportunidade de cursar matérias nas artes plásticas, na arquitetura, na música e na artes gráficas. Somente depois de dois anos experimentando os vários ramos, escolhiam um dos caminhos específicos. “O aluno estudava realmente aquilo que queria. Por exemplo, no curso de artes, o sujeito estava fazendo arquitetura e fazia algumas matérias de música. Isso aí eu acho fantástico”, opinou.

Além da ligação entre as disciplinas, uma das coisas que mais o agradavam era a liberdade gozada pelos professores, que, inclusive, faziam as reuniões de departamento em conjunto. O pequeno quadro docente, cerca de 300 pessoas, possibilitava que músicos, físicos, arquitetos, matemáticos, artistas, linguistas e antropólogos compartilhassem sua experiência em reuniões comuns. “Todo mundo podia dar palpites, mesmo que estivesse errado. E, se estivesse errado, todo mundo tinha autocrítica suficiente para pensar ou debater com os outros colegas”, explica.

Em 1964, entretanto, a truculência do regime militar levou Glênio à prisão com mais 20 colegas. Foram27 dias de um pesadelo que deixou Ailema desesperada. “Depois, fizeram um inquérito e viram que a gente não tinha absolutamente nada e nos devolveram para a universidade. Mas aí eu comecei a sentir que já não era mais a mesma coisa”, lamentou o artista. Um ano depois, os professores ficaram sabendo de uma lista de demissão que incluía todos os coordenadores de curso. Foi então que, como último grito contra a perseguição militar, mais de 200 professores resolveram pedir demissão coletiva. Glênio Bianchetti foi um deles.

Explosão artística

Nesse momento da vida, de professor desempregado, a figura de Ailema exerceu um papel fundamental. Foi ela quem deu apoio para que Glênio seguisse sua ideologia e enfrentasse o desafio de perder a fonte de renda mesmo com seis filhos para criar. Os dois resolveram continuar em Brasília, e ele passou a se dedicar integralmente à pintura. “Essa perseguição política que a gente sofria ia continuar tanto aqui como em qualquer lugar no país. A não ser que a gente fosse para o exterior, o que eu não queria. Além disso, escola primária em Brasília era de primeiríssima qualidade”, Glênio explica o motivo da escolha.

Nesse período, ele explodiu como artista. Sua obra ganhou o Brasil e lhe permitiu viver muito bem somente de sua arte, coisa rara no país. Em 2009, a trajetória do grande mestre das cores virou um documentário de 52 minutos realizado por Renato Barbieri para o programa DocTV. “Minha intenção era investigar o pensamento artístico dele, não achei que fosse necessário fazer uma biografia mais tradicional, falar sobre as escolas onde estudou, mas sim retratar como ele chegou a um pensamento artístico que envolve humanismo, muito afeto e uma posição política forte”, conta Barbiere. No filme, o diretor explora as principais características da obra de Bianchetti, que não deixa de ser um espelho do próprio pintor. “O humano social é o objeto preferido de Glênio, que mantém seu olhar atento ao corpo e seus toques.”

Além da dedicação ao ateliê, Glênio também deu aulas na escola de arte criada por sua mulher. O Cresça — Centro de Realização Criadora, por anos, foi referência em Brasília para jovens que intencionavam entrar no mundo das artes. Foi lá que o artista plástico e professor da UnB Sérgio Rizo teve os primeiros contatos com aquele que considera seu mestre. “A maior influência que tive foi a consciência do que é ser artista. Glênio me ensinou que o homem artista é um ser íntegro. Ele é um dos últimos humanistas, e eu busco seguir isso. Em tempos modernos de fragmentação, integrar diferentes experiências é uma coisa rara”, destaca Rizo. Já conhecido nacionalmente por sua arte, em 1988, com a anistia, Glênio foi convidado novamente para integrar o corpo docente do Instituto de Artes da UnB. “Eu aceitei o convite e voltei, mas não era a mesma universidade, não tinha a mesma força, o mesmo elã”, desabafa o pintor. Depois de dois anos, aposentou-se pela UnB, mas mantinha relação com a instituição. “A universidade é um vício. Tudo o que eu posso fazer para ela existir, eu faço. Eu trabalho, publico, divulgo.”

Para ele, se o sonho da universidade livre não tivesse sido bruscamente interrompido pela ditadura, Brasília talvez fosse a cidade culturalmente mais importante no mundo. “Tinha certas horas na universidade que vinha gente de tanta qualidade que eu ficava na dúvida se queria ser professor ou aluno, porque o nível de professores que vinham para cá era uma coisa fantástica.”

Perfil

 Nascido em Bagé (RS) em 1928,Glênio Bianchetti iniciou seus estudos artísticos na década de 1940 sob orientação de José Moraes. Em 1949, ingressou no Instituto de Belas Artes de Porto Alegre, onde foi aluno de Iberê Camargo. Três anos depois, fundou o Clube de Gravura de Bagé, ao lado de Glauco Rodrigues e Danúbio Gonçalves. O grupo defendia a popularização da arte por meio da abordagem de temas sociais e regionais em um estilo figurativo realista com traços expressionistas. Com os amigos Carlos Scliar e Vasco Prado, Glênio fundou o Clube de Gravura de Porto Alegre. Em 1953, dirigiu o setor gráfico da Divisão de Cultura e Educação da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul. Nesse período, ele ilustrou obras literárias e realizou seus primeiros painéis em espaços públicos. Em 1962, transferiu-se para Brasília, onde ajudou a construir a Universidade de Brasília. Na instituição, lecionou disciplinas de desenho no Instituto de Artes Visuais. No início da década de 1970, colaborou na criação do Museu de Arte de Brasília. Participou de exposições no Brasil e no exterior e, em 1999, no Palácio Itamaraty, foi homenageado com a retrospectiva dos seus 50 anos de carreira. Em 2009, a vida de Glênio ganhou as telas em um documentário de 52 minutos dirigido por Renato Barbieri.

Esta reportagem foi originalmente publicada em 11/12/2012. O Correio volta a homenagear o artista fundamental para a história de Brasília, morto na segunda-feira

Leia mais no
caderno Diversão & Arte
Tags:

publicidade

publicidade