SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Brasília perde a cor

Glênio Bianchetti morre aos 86 anos, um dos artistas mais completos do país

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 19/02/2014 14:00 / atualizado em 19/02/2014 11:34

Nahima Maciel

No ateliê de Glênio Bianchetti, um mezanino na casa projetada pelo filho no Setor de Mansões Norte, a luz natural que banha o cavalete tem papel de acabamento para o intenso colorido das pinturas do artista. Um colorido que é marca das telas, mas também do sorriso sempre disposto de Bianchetti e que se apagou na noite de segunda-feira. O artista morreu por volta das 23h, aos 86 anos, em consequência de uma hemorragia provocada por um cataterismo. Ele passou pelo procedimento — exame invasivo que investiga as veias que levam ao coração — na última sexta-feira e voltou para casa logo depois.

Na segunda, por volta do meio dia, sentiu-se mal e retornou ao Hospital Santa Lúcia, na Asa Sul. Foi internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e morreu no fim da noite. O corpo será cremado em uma cerimônia íntima aberta apenas à família.

Nascido em Bagé, em janeiro de 1928, Glênio Bianchetti chegou a Brasília no início da década de 1960 para dar aulas na então recém-inaugurada Universidade de Brasília (UnB). Ele contava que lá no Sul ouvira falar de uma experiência incrível no Planalto Central, uma universidade na qual a vanguarda e a utopia andariam de mãos dadas.

Com a esposa, Ailema, artista e arte-educadora, tomou o rumo do Centro-Oeste. Alto, bonito e corpulento, Glênio assumiu o ateliê de pintura. Em Brasília, suas telas ganharam novos contornos. A luz dourada e direta do Planalto Central intensificou o colorismo, mas a temática afetuosamente voltada para a gente e os hábitos brasileiros continuaram. “Para mim, cor é luz, e luz é vida”, dizia. Aos poucos, ele trocou a o tecido da tela pela madeira bruta. E se fixou no cerrado.

Coerência
Herdeiro fundador do Clube da Gravura de Bagé, grupo engajado na inserção de temas sociais na arte brasileira, Glênio sempre manteve extrema coerência artística e ideológica. O sonho de protagonizar um ensino em um ambiente ocupado pela nata da vanguarda artística brasileira — Athos Bulcão, Alfredo Ceschiatti, Luiz Humberto e Ana Mae Barbosa passaram por lá — ficou de pé até 1965, quando um grupo de professores pediu demissão após se ver cerceado pelas imposições da ditadura militar.

O gaúcho deixou a universidade e foi ser artista em tempo integral. Mas a vocação para dialogar com o outro, a generosidade e o fascínio pelo ser humano transformaram o ateliê e o apartamento na 305 Sul em uma extensão da sala de aula.

Há toda uma geração de artistas da cidade formada sob o olhar de Glênio Bianchetti e Ailema. Não se pode dissociar um do outro: o casal, que completou 62 anos de casamento em janeiro, era abrigo intelectual e afetivo da classe artística brasiliense. Quando veio a reintegração à UnB, a universidade havia mudado bastante. Mas Glênio Bianchetti não. Coerente, socialmente engajado, tímido e agregador, o pai de seis filhos e avô de 16 netos continuou a traçar seu compromisso com a arte e a vida, pontuado pelo afeto familiar, pela proximidade com os amigos e por um olhar delicado e encantado para com o mundo.

 

Tags:

publicidade

publicidade