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A luta por uma vaga

Com a adoção do Sisu e a implantação das cotas para estudantes de escolas públicas na UnB, a aprovação de quem concorre pelo sistema universal fica cada vez mais difícil

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postado em 19/02/2015 11:45 / atualizado em 19/02/2015 12:48

Mariana Niederauer

Ana Rayssa
Garantir uma vaga na Universidade de Brasília (UnB) tem se tornado cada vez mais difícil nos últimos anos. A adoção do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) em substituição ao vestibular do primeiro semestre despertou o interesse de estudantes de fora do Distrito Federal e o número de inscritos triplicou. Para quem concorre pelo Sistema Universal, a tarefa é ainda mais complicada, principalmente após a reserva de vagas para alunos de escolas públicas — que chegará a 50% no próximo ano —, unida às cotas para negros, que já existiam.

O decano de Ensino de Graduação da UnB, Mauro Rabelo, explica que é natural a concorrência no Sistema Universal aumentar à medida que a quantidade de vagas é dividida entre outros sistemas, e reforça que adesão ao Sisu também influenciou. “Tradicionalmente, a universidade tem de 24 mil a 26 mil inscritos a cada seleção. O Sisu teve 80 mil, até pela facilidade, pois basta entrar no site para se inscrever”, observa.

No segundo vestibular de 2004, o primeiro após a adoção do Sistema de Cotas para Negros, a demanda total era de 66,39 candidatos por vaga para o curso de medicina, tradicionalmente o mais concorrido da UnB. Dez anos depois, a segunda seleção de 2014 registrou concorrência de 100,56.

A demanda no Sistema Universal também aumentou significativamente. No segundo vestibular de 2012 — último antes da aplicação da Lei Federal nº 12.711 —, cerca de 91 candidatos disputaram cada vaga ofertada em medicina. No segundo vestibular de 2013, esse número subiu para 134,48 e, em 2014, para 144,80.

Sancionada em 2012, a lei determina que as instituições federais de educação superior reservem, em cada seleção, 50% das vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. Essa meta deve ser cumprida até 2016. Na UnB, o aumento foi gradativo. No ano passado, 12,5% das vagas foram reservadas para esse sistema. Em 2015, serão 37,5%.

Incentivo
Para Alexandre Crispi, CEO da Rede Educacional Alub, a implantação da lei federal incentivou alunos da rede pública de educação básica a estudarem para alcançar o nível superior, uma vez que passaram a concorrer entre si. “Outra mudança nítida é o aumento do número de inscritos nos cursinhos, porque o aluno da rede pública e o da privada sabem que não é possível passar no Enem ou no vestibular sem estudar”, constata. Segundo ele, o número de matrículas aumentou de 15% a 20% na rede educacional.

Apesar de o tema ser polêmico, pois muitos ainda discordam da adoção das cotas, em um ponto professores e estudantes são unânimes: é preciso se dedicar ainda mais aos estudos, pois, dentro ou fora do sistema de cotas, a concorrência para entrar na universidade é grande. A menor nota de corte registrada no Sisu para ingresso na UnB foi de 600,65, de um total de mil pontos. Esse foi o mínimo necessário para ingressar no curso de ciências farmacêuticas,  no subgrupo de pretos, pardos e indígenas de família de baixa renda do Sistema de Cotas para Estudantes de Escolas Públicas.
Por isso, os candidatos precisam começar a se preparar logo e dedicar pelo menos nove meses de estudo ao Enem, conforme recomenda Alexandre Crispi, do Alub. Também é importante conhecer todas as formas de acesso à UnB e os critérios de renda que devem ser atendidos para cada um deles (veja o quadro).

O último sistema de cotas adotado pela UnB foi para escolas públicas, em 2012, mas em 2003 a universidade foi pioneira entre as federais ao reservar vagas para negros. Além disso, todos os semestres há uma seleção específica para indígenas. Os candidatos que não preenchem os critérios definidos nesses casos devem participar do sistema de ampla concorrência, se inscrevendo no Sisu, no vestibular do meio do ano ou no Programa de Avaliação Seriada (PAS).

Também são ofertadas as vagas remanescentes de cada semestre em uma seleção diferente, e aquelas ficam disponíveis na admissão para portador de diploma de ensino superior.

Expansão
Apesar da reserva para cotistas, muitas vagas foram criadas na universidade com o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Em 2003, a instituição ofertou 2.975 vagas. Este ano, a previsão é de que sejam 8.424, quase três vezes mais.

O aumento, no entanto, não atingiu todas as graduações, pois muitas das vagas foram abertas para novos cursos. O de medicina, por exemplo, teve apenas 18 ofertadas pelo Sisu em 2015. A expectativa é de que esse número aumente a partir das seleções do próximo ano, com a expansão prevista no âmbito do programa Mais Médicos, do governo federal.

O coordenador do Centro Educacional Sigma, André Fratezzi, acredita que, mesmo assim, a universidade continua acessível e destaca os benefícios do aumento da concorrência. “A UnB fica cada vez mais visada, e a tendência é de melhorar o nível dos candidatos que estão entrando, o que é bom para a universidade, para os cursos e para a sociedade”, diz.

Já o professor de física César Augusto Severo, do curso Exatas, defende que, apesar de trazer benefícios para a universidade, a concorrência maior tem aumentado a pressão sobre os estudantes. “O aluno fica selecionado demais. Isso é bom para a universidade, mas, para ele, é muito complicado. A maioria só percebe a briga que é o vestibular depois que já terminou o ensino médio e, aí, tem pelo menos dois anos de cursinho pela frente para chegar ao mesmo nível dos outros candidatos”, afirma.

Disputa acirrada
Stephanie Mitri, 23 anos, estuda há um ano para alcançar uma vaga no curso de medicina da UnB. Ela acredita que precisa de pelo menos o dobro desse tempo até estar pronta para concretizar o objetivo, mas, ainda assim, acha que a concorrência é muito grande. Esse é o segundo curso que ela busca fazer na UnB. Logo depois de se formar em biologia, decidiu tentar a carreira médica. Na época, entrou pelo PAS e não teve que encarar e mesma pressão para ser aprovada. Hoje, com a adoção do Sisu e das cotas para escolas públicas, acredita que essa tarefa se tornou mais difícil. “Além de competir com os candidatos do Sistema Universal, tive que competir com o Brasil todo.”

Na edição de 2014 do Sisu, a nota de corte curso de medicina da UnB foi de 818 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Este ano, a segunda parcial mostrou que o número já subiu para 829 pontos. A lista final com todas as notas de corte ainda será divulgada pela universidade.

O tema, no entanto, divide opiniões. Matheus Orem Cardoso, 19 anos, vai se inscrever para o curso de estatística na próxima seleção da universidade e confessa ser um pouco assustadora a quantidade de vagas reservadas para cotas. Ele afirma que chegou a ficar a duas posições da aprovação, atrás de cotistas. Mesmo assim, acredita que o ingresso na UnB depende de dedicação aos estudos. “Eu não diria que ficou mais difícil, e eu sou uma pessoa que não passou duas vezes por causa das cotas. Se dificultou, foi muito pouco, o pessoal tem é que estudar mesmo”, opina.

Plano federal

O Reuni foi instituído pelo Decreto nº 6.096, de 2007, e integra as ações do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). O principal objetivo é ampliar o acesso e a permanência de estudantes na educação superior. No Distrito Federal, o plano possibilitou a construção dos câmpus Ceilândia, Planaltina e Gama da UnB e outros dois do Instituto Federal Brasília (IFB).

 

 

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