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EDUCAÇÃO »

A responsabilidade do professor

O desestímulo do aluno em sala de aula também passa pelo desconhecimento dos educadores de novas práticas pedagógicas. Com a velocidade da informação e as tecnologias, ganham a atenção dos estudantes aqueles que usam a criatividade na hora do ensino

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postado em 29/06/2015 06:30 / atualizado em 28/06/2015 12:42

Manoela Alcântara , Roberta Pinheiro

— Você gosta de ir à aula?
— Depende do professor.

Ana Rayssa

A resposta é recorrente entre os estudantes das escolas do Distrito Federal. Eles associam o interesse pelo conteúdo diretamente às estratégias metodológicas dos educadores. O modelo de “chefe” com conhecimento passado de forma unilateral é considerado ultrapassado por eles. Pesquisa realizada pela professora emérita do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB) Eunice Soriano de Alencar indicou que os elementos mais apontados por professores como barreiras à promoção da criatividade foram alunos com dificuldades de aprendizagem em sala de aula (68,9%) e desinteresse pelo conteúdo ministrado (49,1%) (veja Limitações).


Outro estudo de Eunice, desta vez com gestores de instituições de ensino fundamental (leia Desinteresse), mostrou que, para 70,3% desse grupo, os docentes desconhecem práticas pedagógicas que estimulem o desenvolvimento criativo dos estudantes. É um tema que, apesar da importância, não tem recebido a atenção devida nos cursos de formação de educadores. “Tanto o despreparo do aluno quanto o seu desinteresse são questões que necessitam ser mais discutidas com vistas a encontrar meios para minimizar o problema. Uma razão para tal é a necessidade de se formar profissionais bem qualificados para atender às exigências do mercado de trabalho e aptos a resolver problemas imprevisíveis que requerem soluções criativas”, explica a especialista.


Para a estudante do 2º ano do ensino médio Milena de Sousa, as aulas, no modelo atual, são cansativas. “Falar, falar e, depois, fazer exercício é muito chato. Os professores não buscam novos métodos”, lamenta. Ela conhece os dois lados do ensino e diz que a criatividade é o mais estimulante dentro da sala de aula e depende de cada docente. “Temos um professor de história que inovou completamente. Ele debate temas atuais, contextualiza o conteúdo, faz rodas de discussão e prende a atenção. Ele é nosso amigo, não mantém aquela relação de ‘pirâmide’”, diz a estudante.


Outro fator apontado no estudo é o elevado número de alunos em sala de aula. Nas duas pesquisas, isso é citado como empecilho para o aprendizado. No 1º ano do ensino médio, Ícaro Veloso Siqueira, 17 anos, acredita que alguns docentes até tentam inovar, mas não conseguem devido à estrutura. “Deve ter mais ou menos 42 alunos na minha sala. Seria uma zona sair para ter uma aula fora, se fosse um trabalho ao ar livre, por exemplo”, lamenta.


Kevin Batista Soares, 16, do 1º ano, tem a mesma percepção. “Os professores até tentam ensinar de maneira diferente, mas não têm o material suficiente”, avalia. Ele conta que, no colégio onde estuda, às vezes, falta uma sala específica para passar vídeos. Além disso, os mestres não podem passar trabalhos na internet, pois alguns estudantes não têm em casa e, na escola, não há conexão para todos. Kevin destaca o empenho de um professor de matemática no ano passado. O docente unia a disciplina com conceitos de geometria em dinâmicas na sala de aula.

Qualificação

Segundo os estudos, a professora Eunice percebeu que, nos cursos de licenciatura e pedagogia, a criatividade não é focada como deveria. “Não há uma disciplina como criatividade em educação. Sem contar os mitos, como a concepção da criatividade como um talento natural.” Esse desafio do ensino no século 21 sugere uma necessidade antiga do sistema: a formação continuada, de tal forma que o docente possa tirar maior proveito do que adquiriu, por exemplo, em uma oficina ou um programa de criatividade.


O GDF tem a Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação (EAPE). Ela recebe não apenas docentes, mas todos os funcionários que atuam na rede de ensino. Neste primeiro semestre, a instituição atende 7 mil cursistas e oferta cerca de 50 cursos. De acordo com o diretor da EAPE, Luiz Fernando de Lima, há uma enorme demanda por atividades voltadas para a educação especial, a gestão escolar democrática, a arte de contar histórias, sobre diversidade, direitos humanos e inclusão.
O DF tem, aproximadamente, 32 mil docentes. “A EAPE atende entre 10 mil e 12 mil cursistas por ano. Precisamos aumentar. A nossa função é minimizar o espaço entre o desafio e o professor. Temos de fomentar um novo olhar para o docente se ver como professor, ver o aluno, a escola e mudar suas práticas pedagógicas. Isso gera benefícios para as crianças e os jovens”, explica Luiz Fernando. O diretor, assim como a professora da UnB, acredita que o maior empecilho nas salas de aula é a rapidez com que o mundo muda, com crianças dinâmicas, novas tecnologias e rapidez de informação.


Do quadro de mestres do DF, cerca de 70% dos profissionais têm especialização, e o restante se formou na época da licenciatura curta e do curso normal. “Ainda não é suficiente, mas esse número tem crescido. Até porque a lei garante o afastamento remunerado para estudo, e isso se torna uma vantagem para a carreira do professor. A formação inicial que se tem hoje atende uma parte dos desafios, mas, muitas vezes, as licenciaturas são distantes da prática”, conclui Luiz Fernando.

 

 (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 

Eu acho

“É conteúdo mais exercícios, conteúdo mais exercícios. Sempre para cumprir um calendário. Acaba que assim a gente não aprende. Aqui no colégio tem um professor deste ano que está fazendo diferente e, dessa forma, tem cativado os alunos. Ele faz a turma inteira interagir, quebrou os grupinhos e promove debates de temas do dia a dia. Mas, no geral, falta diálogo entre aluno e professor. Quando tentamos conversar e fazer alguma crítica ou sugestão, muitas vezes, eles (docentes) oprimem”
Gabriel Ítalo Lima, 15 anos, aluno do 2º ano do ensino médio

 

 

 

 

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