Livro traz perfil dos primeiros estudantes cotistas formados na UnB

Publicação do sociólogo Sales Augusto dos Santos relata experiência da universidade pioneira na implantação do Sistema de Cotas

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postado em 20/11/2015 17:07 / atualizado em 20/11/2015 17:17

Paula Braga /Especial para o Correio

A experiência da primeira geração de estudantes formados após a implantação do sistema de cota para negros e o balanço das políticas de ações afirmativas na educação pública superior são alguns dos temas abordados no livro O sistema de cotas para negros — um balanço da primeira geração, do sociólogo Sales Augusto dos Santos.

O livro traça um panorama sobre os dez anos do Sistema de Cotas na Universidade de Brasília (UnB), além de trazer experiências de ex-alunos, formados pelo sistema entre 2004 e 2011. Segundo dados coletados pelo pesquisador, a renda individual mensal média dos ex-estudantes cotistas, oriunda do seu trabalho, era de 6,55 salários mínimos  e 74% daqueles que haviam se graduado até o segundo semestre de 2011 estavam trabalhando.

A publicação foi lançada em outubro deste ano.

Confira a entrevista com o autor Sales Augusto do Santos:


Como pode ser avaliada a experiência da UnB com o sistema de cotas?
Ela só pode ser avaliada como positiva. A política pública de ação afirmativa da UnB, ou seja, o sistema de cotas para negros e a reserva de vagas para indígenas, teve e tem impactos imediatos para além da área educacional. E esse impacto não se limita ao campo simbólico. Há, também, impactos materiais concretos, como por exemplo, em termos de empregabilidade e ganhos salariais ou de rendimentos proporcionados.

Arquivo pessoal
Isto é um resultado concreto e positivo da política de cotas da UnB. Todos esses efeitos ou fatos concretos que, com certeza, são positivos, foram proporcionados pelo sistema de cotas da UnB. Isto nos permite concluir que o sistema foi e é um mecanismo não somente necessário para a busca da igualdade racial no Brasil, mas, principalmente, justo. O que não significa que não precise ser aprimorado. Precisa sim, mas não se pode negar que essa experiência foi um sucesso.
 
Quais as mudanças que o sistema trouxe para a universidade após a implantação?
A primeira mudança foi na composição racial da UnB, universidade que era majoritariamente branca. Quando fiz graduação lá, na década de 1980, raramente estudei com alunos negros brasileiros. Mulheres negras eram raríssimas. Me lembro de duas com quem estudei na graduação. Uma no curso de sociologia e outra no curso de história. Não me lembro de mais nenhuma. Quando ia a palestras, seminários ou congressos na própria UnB também não via muitos alunos negros de outros cursos.

Em abril deste ano fui convidado para participar como palestrante do “Encontro Sobre Violência de Gênero, Raça e Minorias Sexuais” e fiquei surpreso com a quantidade de alunos negros presentes. Até comentei o fato na hora da minha exposição.
Uma segunda mudança foi que o aumento de alunos negros pertencentes a diversas classes sociais possibilitou aos alunos brancos, em geral de classe média ou alta, conhecer pares acadêmicos (e suas vidas) diferentes de sua cor e classe social, visto que agora compartilhavam com eles salas de aula, laboratórios, etc.

Esta convivência entre alunos de cores e classes sociais diferentes no geral possibilita novas visões para todos grupos raciais e as classes sociais que compartilham lugares e/ou espaços comuns.

Além disso, houve o aumento da quantidade de dissertações, teses e monografias sobre a questão racial brasileira, que passou a ser mais pesquisada na UnB.
 
Qual o perfil da primeira geração de estudantes que ingressaram por cotas na UnB?
Poucos tinham pais analfabetos. Mais de 70% tinha renda familiar acima de seis salários mínimos e a grande maioria morava no Plano Piloto. Mais de 20% dos seus pais e mães tinham curso superior completo. Ou seja, ao que tudo indica, a classe média negra foi a mais beneficiada com as cotas na UnB. Contudo, deve-se frisar aqui dois pontos: o primeiro é que, historicamente, as classes média e alta brancas foram as mais beneficiadas pela universidade pública.

Depois, houve também a entrada de estudantes negros de baixa renda na UnB pelo sistema de cotas. Mas deve-se ressaltar também, para que não haja dúvidas sobre os objetivos das políticas de cotas, que é um tipo de implementação técnica de ação afirmativa, que esta política pública não visa a combater pobreza, mas a discriminação racial.
 
Qual a importância do sistema para as instituições públicas brasileiras?
Em primeiro lugar, penso que o sistema mostrou-se necessário e justo. E justiça é o que se busca constantemente em qualquer sociedade, especialmente nas desiguais como a nossa.

O sistema de cotas é sim um dos instrumentos que ajudam a incluir grupos discriminados em espaços de prestígio e poder, onde esses grupos foram ou estão excluídos em função também da discriminação que sofreram e ainda sofrem em face da sua cor.

O debate em torno do sistema de cotas durante toda a década de 2000 permitiu aos brasileiros conhecer a questão racial brasileira. Ou seja, em última instância, o sistema de cotas proporcionou um debate democrático amplo no Brasil sobre a incapacidade das políticas públicas universais de proporcionarem oportunidade e igualdade de tratamento a todos os cidadãos brasileiros e sobre o mal que o racismo proporciona à sociedade brasileira.

Reprodução/Paco Editorial
Para ler
O sistema de cotas para negros — um balanço da primeira geração
Autor: Sales Augusto dos Santos

Editora Paco Editorial

420 páginas
R$ 59,90
Disponível em www.livrosdapaco.com.br