Redações do PAS têm Saramago, Blade Runner e publicidades como inspiração

Confira o que acharam professores e estudantes das provas aplicadas neste domingo (3/12)

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postado em 03/12/2017 18:33 / atualizado em 03/12/2017 20:52

Antonio Cunha/CB/D.A Press


Referências a José Saramago, ao mundo distópico de Blade Runner e a publicidades que reproduzem preconceitos motivaram as redações escritas pelos candidatos das três etapas do Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília (PAS/UnB).
 
Os estudantes do PAS 1 tiveram que redigir um texto narrativo contando o restante da vida de uma pessoa que acaba de descobrir que morrerá em uma semana, inspirados pelo livro de José Saramago, As intermitências da morte. No PAS 2, o candidato deveria imaginar que é um androide em 2079 e, então, escrever um texto argumentando, de forma convincente, que não há diferença entre ele e um ser humano. Já a tarefa dos candidatos ao PAS 3 era redigir uma carta ao Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (Conar) com argumentos contra a veiculação dos anúncios apresentados na prova. 
 
O professor de redação do Sigma Eli Carlos Guimarães elogiou a criatividade dos temas e abordagens escolhidos. "Todas as propostas rompem uma rigidez na forma de escrever. Com isso, a universidade consolida a ideia de que procura um aluno que seja leitor e produtor textual estratégico, que haja pluralidade na formação dele. Isso é bom para o aluno e para as escolas, que têm que sair da mesmice e tratar produção textual de maneira mais abrangente."  

Já o professor de português do Galois Edie Uarlei, aprovou os assuntos das redações do PAS. "Os temas estavam adequados e exigiam do aluno o que foi previsto no conteúdo, além de estar coerente com o histórico de cobrança da UnB. A qualidade das provas e escolhas das abordagens estavam muito melhores do que no ano passado, nas três fases, e sem fugir dos padrões UnB", afirma. 

Na primeira fase, a banca cobrou do candidato a produção de um texto narrativo, que explorasse a criatividade e capacidade do aluno de tratar com humor e ironia o fato da pessoa ser avisada com uma semana de antecedência sobre a própria morte. Na etapa 2, a cobrança também exigia criatividade do candidato para elaborar uma tese e apontar argumentos capazes de convencer os líderes do futuro de que androides e humanos não são diferentes entre si. 

Já na última fase, o estudante teria que escrever uma carta ao Conar pedindo a retirada de uma publicidade por apresentar preconceito. "Saber a estrutura básica da carta, como escrever em primeira pessoa e se dirigir diretamente ao destinatário, era necessário. Mas o que pesa mais na avaliação é a capacidade de argumentação", avalia Edie.  

Matriz de referência seguida à risca 

 
Um dos destaques este ano foi o fato de as provas das três etapas terem se mantido de maneira mais evidente o alinhamento com a matriz dos objetivos de avaliação do PAS, segundo análise do professor de sociologia Bruno Borges, coordenador do Serviço de Orientação ao Vestibulando (SOV) do Leonardo da Vinci.

Sobre a prova de redação, ele comenta que, em todas as etapas, questões levantadas pelo existencialismo foram o pano de fundo para as discussões propostas, principalmente na avaliação do segundo ano. Já a temática proposta para o terceiro ano guardava dialogou com o tema da redação do Enem 2015, que tratou da persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. 
 
No caso do PAS, o debate foi ampliado. Questões de gênero, apologia a violência entre crianças e incentivo ao consumismo são alguns dos debates suscitados pelos anúncios - a maioria veiculado nas décadas de 1970 e 1980 - que deveriam inspirar a redação dos estudantes do 3º ano. Um deles dizia: "A batedeira faz tudo, exceto cozinhar. Essa é a tarefa das esposas". Bruno Borges destaca que o tema proposto se insere no contexto do debate crescente atualmente sobre a importância de regular a publicidade. Por isso, o comando do texto trazia ainda uma citação da legislação sobre autorregulamentação publicitária.
 
A proximidade com o exame nacional, no entanto, acaba por aí. A complexidade da prova do PAS, na avaliação do professor, marca o caráter mais conteudista da avaliação da UnB, que, diferentemente do Enem, não considera as diferenças entre os candidatos - que vêm da rede pública e da rede privada de ensino, com realidades socioeconômicas diversas.
 
"É uma prova que perpetua o seu caráter mais conteudista e reforça o seu caráter mais elitista. Esse tipo de reflexão que entra no campo da filosofia densa do exitencialismo, não tenho dúvida, apronfunda as desiguladade existentes nessas realidades. Enquanto o Enem traz temáticas e uma aborgadem que entende essa realidade diversa do nosso país, o PAS aprofunda uma perspectiva conteudista", analisa Bruno Borges.