Encontro na Paraíba reúne pioneiros da luta contra ditadura na UFPB

Após 40 anos, ex-estudantes se encontram para resgatar memória da movimentação política por liberdade e democracia do período

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postado em 08/12/2017 12:15 / atualizado em 08/12/2017 20:21

Um encontro especial ocorreu em João Pessoa, Paraíba, nesta sexta-feira (8). O 1º Encontro dos Pioneiros do Movimento Estudantil da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) recebeu cerca de 70 pessoas que participaram direta e indiretamente da luta local pela reconstrução da representação estudantil no fim da década de 1970, então interrompida pela truculência e vigilância do regime militar, vigente desde 1964.
 
O evento, que marca a inauguração do espaço Bessa-me, trouxe, além de bate-papo entre os protagonistas da história, exposição com fotos, documentos e leituras de material da época.

Reprodução/Assessoria
 
 
Funcionários demitidos e estudantes expulsos faziam parte de cenário comum nas universidades da época. Na Paraíba, houve dezenas de desligamentos de alunos, funcionários e professores da UFPB. 
 
O encontro foi viabilizado, aos poucos, pelo contato dos ex-estudantes por meio das redes sociais, afirma Agamenon Travassos Sarinho, 64 anos. Estudante de direito à época, ele conta que a entrada dele na faculdade, em 1973, foi marcada por um clima de vigilância que só seria amenizado no evento de boas-vindas aos calouros quatro anos mais tarde. “Muitos de nós não podiam participar diretamente das eleições dos diretórios acadêmicos, pois tínhamos ficha como subversivos. As eleições vinham de modo vigiado.
 

Luta por eleições diretas internas

Em 1976, constituindo-se como chapa nomeada como Refazendo, o movimento concorreu em 27 cursos, elegendo seus candidatos em 26 deles. Em seguida, procedeu-se, por voto indireto, a eleição dos Diretórios Acadêmicos e do Diretório Central dos Estudantes (DCE).
 
Arquivo pessoal
 
 
Em 1977, a persistência dos jovens culminaria na eleição de todas as instâncias por voto direto, alçando à presidência do DCE o jovem Severino Dutra, então aluno de direito e hoje renomado professor do Departamento de Filosofia da UFPB. “Foi a retomada da militância estudantil da Paraíba, sem dúvida. Não existiam diretórios acadêmicos e lutamos para retomá-los”, relembra Dutra. 

Calourada como marco primordial

A pedra fundamental da retomada foi a organização da calourada de 1977. Mais que uma confraternização, tratava-se de uma tomada de posição e protagonismo dos universitários. Ao longo de uma semana, houve assembleias, exibição de filmes, peças de teatro, poesia e difusão de material contrário ao regime. Um sobro de pensamento livre na universidade. “No bojo disso, o que mais marcou foi o debate sobre imprensa alternativa, que lutava para se manter com jornais alternativos como Movimento, Pasquim e O Verso”, conta Agamenon. 
 
Arquivo pessoal
 
 
Na ocasião, foram convidadas figuras fundamentais na manutenção da imprensa livre no país, como o editor Tonico Ferreira, do Movimento, os chargistas Jaguar e Henfil, do Pasquim. Participaram também do evento o antropólogo e fundador da Universidade de Brasília (UnB) Darcy Ribeiro e José Maria Pires, arcebispo da Paraíba, que atuou na defesa dos direitos humanos no período.

Convergência de pensamentos libertários

A amplidão do perfil dos convidados dá o tom do grito de liberdade solto na época. Era tempo de fazer emergir e convergir todos aqueles com intenções democráticas para o estado e para o país. “Veio gente de todas as áreas. Havia intelectuais, artistas, políticos do velho MDB. O debate agitou muito a cena política local, convergindo gente do Sudeste, de Recife, Ceará e outros estados. A convivência era intensa e criou-se ambiente de solidariedade, mesmo nas divergências”, diz Agamenon Travassos. “Passados 40 anos, viemos rememorar isso, porque foi impulsionador dos movimentos estudantis locais e, acredito, pode servir como exemplo para o tempo difícil que vivemos hoje.”
 
Arquivo pessoal
 

Ali também começaria a mobilização para a ida de representantes paraibanos para congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), cuja reestruturação, após ser desmantelada e posta como ilegal pelo governo militar, demoraria ainda alguns anos.
 
Arquivo pessoal
 
Em 1979, o 31º Congresso da UNE finalmente foi realizado, em Salvador, com presença do Movimento Estudantil da Paraíba, que recolheu doações para custear a passagem de 109 estudantes — 30 de Campina Grande, 69 de João Pessoa, sete de Areia e três de Bananeiras. 
 
Divulgação